Jordin Althaus/BraVO, via The New York Times
Jordin Althaus/BraVO, via The New York Times
Adrienne Harris, The New York Times

24 de fevereiro de 2019 | 06h00

Novos programas de TV e documentários a respeito da ascensão e queda de charlatões inescrupulosos têm cativado o público americano com histórias de golpes. 

Nos dois últimos anos, muitos acompanharam a história de John Meehan, o homem que enganou uma mulher do sul da Califórnia, fazendo com que ela se apaixonasse por ele antes de arruinar sua família. Mais de 42 milhões de pessoas baixaram o podcast do Los Angeles Times detalhando o golpe aplicado por ele em Debra Newell. E mais de 3,3 milhões assistiram ao último capítulo de Dirty John, série da Bravo TV retratando o homem que nunca fez nada por Debra além de mentir, trair e roubar, além de tentar matar sua filha.

Em março, a HBO levará ao ar um documentário a respeito de Elizabeth Holmes, fundadora da startup Theranos, que chegou a ser avaliada em mais de US$ 9 bilhões, mas nunca cumpriu a promessa de revolucionar os exames de sangue. E os serviços Netflix e Hulu lançaram recentemente documentários rivais a respeito do desastroso Festival Fyre, de 2017, que resultou em perdas de US$ 25 milhões e na detenção do seu organizador, Billy McFarland, acusado de fraude.

O fascínio por golpistas não é novidade. Como escreveu Amanda Hess no Times, a palavra inglesa scamp, da qual deriva a palavra scam (golpe), nasceu nos parques de diversões do início do século 20, e significava "amável infrator".

Nutrimos uma estranha admiração por esses ousados farsantes, que, como escreveu Abby Ellin no Times, "rompem o contrato social de maneira tão contínua e consistente". Mas há também a sensação de que poderíamos ser suas próximas vítimas.

Foram necessários apenas alguns vídeos e imagens virais de modelos celebrando a bordo de um iate para que McFarland convencesse jovens a comprar os caros ingressos para o Fyre, um fim de semana de luxo numa ilha das Bahamas que ele chegou a alegar (falsamente) que teria pertencido a Pablo Escobar, o grande traficante colombiano. O festival nunca aconteceu, e aqueles que desembarcaram na ilha foram recebidos em colchões molhados espalhados por barracas.

E foi o apetite do Vale do Silício por crescimento (e dinheiro) rápido que, somados à obsessão de Elizabeth com uma amostra de sangue, enganou os investidores e os fraudou em centenas de milhões de dólares. Agora, ela enfrenta acusações na Justiça enquanto a Theranos é fechada.

"Poderíamos dizer que os crimes cometidos pelos golpistas afetam mais pessoas que os assassinatos", disse o apresentador da Pretend Radio, Javier Leiva. Seu podcast a respeito de golpistas foi baixado quase 500 mil vezes desde junho de 2017.

No ano passado, os americanos perderam US$ 143 milhões em golpes conjugais, com o número de casos denunciados ao governo federal aumentando mais de 100% nos três últimos anos, de acordo com o Times. E os golpes desse tipo causaram um estrago financeiro maior do que os de qualquer outro.

"Para mim, isso indica que as pessoas precisam se proteger mais desse tipo de fraude porque, quando elas caem nesses golpes, acabam perdendo muito dinheiro", disse Monica Vaca, da Federal Trade Commission.

Alguns, por sua vez, já estão tentando se proteger. Uma palestra intitulada How to Catch a Liar (Como pegar um mentiroso, em tradução livre), que fazia parte da programação dos três dias da convenção CrimeCon do ano passado, em Nova Orleans, atraiu mais de mil pessoas, público maior que o esperado por organizadores como Kevin Balfe.

Ele disse que não deveria ter se surpreendido. Com o progressivo enfraquecimento da confiança em instituições como a Igreja Católica e o governo, disse ele ao Times, "o resultado é uma tendência natural observada em muitos, ansiosos para separar aquilo que é real daquilo que é fraude".

"Um dos alicerces da sociedade é a confiança humana", acrescentou Balfe, "e, quando esta é quebrada, todos sofrem as consequências".

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