Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

Vida flutuante: eles passaram a viver em barcos nos canais ingleses

Mais pessoas estão chamando de casas os canais da Inglaterra - e as pequenas embarcações usadas para navegar neles - à medida que o trabalho remoto na pandemia torna este um estilo de vida mais plausível

Megan Specia, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2021 | 05h00

LITTLE BOURTON, Inglaterra - Em uma tarde úmida de junho, uma casa flutuante balançava suavemente no Canal de Oxford, atracada nos arredores da vila de Little Bourton, um pontinho no mapa e que tem apenas um pub.

Rachel Bruce e seu marido, Chris Hall, chamaram este local idílico, a noroeste de Londres, de casa por alguns dias, olhando do casco de sua embarcação, o Glenrich V, para extensos campos onde o vento soprando na grama alta produzia um assobio baixo.

Mas já era hora de descobrir o próximo lugar. Assim, os pinos de amarração foram liberados e Bruce, de 31 anos, afastou-se da margem. O barco deles partiu no ritmo de uma caminhada rápida ao passar pelos pesados portões de madeira e aço das eclusas do canal.

Um grupo de cinco patinhos deslizava na água em formação de V. Remadores de caiaques aceleraram rapidamente para contornar o barco. A vívida cor das flores podia ser vista através da grama alta no caminho do barco.

"A gente está sentindo que tomou uma decisão muito boa neste momento", disse Bruce sobre a escolha do casal, há algumas semanas, de desistir da vida parada para iniciar uma travessia lenta da rede de canais da Inglaterra.

Na esteira da pandemia do coronavírus, mais pessoas ao redor do mundo estão reavaliando seu estilo de vida, graças à maior flexibilidade do trabalho remoto. E, no Reino Unido, mais pessoas estão optando por chamar esses canais - e os barcos estreitos usados para navegá-los - de casa.

Os canais, vasta rede que costumava ser usada para transportar mercadorias por todo o país, cortam o interior do Reino Unido e serpenteiam pelo centro das cidades. Mas caíram no esquecimento depois que foram substituídos por ferrovias e rodovias.

Desde a década de 1960, porém, têm sido cuidadosamente restaurados e se tornaram populares entre as pessoas que querem fazer um passeio. E, para muita gente, o apelo de transformar um passeio de fim de semana ou uma viagem de uma semana em um estilo de vida permanentemente móvel está se tornando cada vez mais irresistível.

Tanmim Hussain, de 46 anos, instrutora de direção e mãe de quatro filhos que mora no norte de Londres, comprou um barco tipicamente usado nestes canais. Ela percebeu que jamais conseguiria comprar um apartamento ou uma casa em Londres, e a pandemia a deixou ansiosa para sair da cidade a qualquer custo. "Decidi que seríamos aventureiros e tentaríamos alguma coisa para ver no que dava", contou. Por enquanto, ela mantém uma casa alugada em Londres e passa os fins de semana no barco, viajando com a família de vilarejo em vilarejo.

A educação do filho é sua maior preocupação, já que se mudar de uma cidade para outra vai ser impossível enquanto ele estiver na escola. Mas algumas pessoas com crianças pequenas aproveitaram as vantagens de atracar de forma mais permanente em cidades grandes e pequenas. "Meu objetivo este ano era me acostumar com isso e ver se gostava desse estilo de vida. E notar se há potencial para um futuro mais permanente", comentou Hussain.

O estresse do trabalho, a luta para manter a saúde mental e a morte de familiares no último ano fizeram com que Bruce e Hall sentissem a necessidade de mudança. Além disso, fazia muito tempo que queriam se livrar do que começava a parecer monótono e sem graça. "Todas as circunstâncias do ano passado serviram para nos dar aquele empurrão final. Parecia que fazendo isso retomaríamos um pouco do controle", disse Hall, de 32 anos.

Depois de uma semana avaliando seu primeiro barco, eles o compraram, comprometendo-se a desistir da vida de dez anos em Londres e fazer do barco de aço de dois metros de largura e 15 metros de comprimento - que chamam de Glen - seu lar permanente. Pagaram 42 mil libras, ou cerca de US$ 58 mil.

Embora o barco seja movido a diesel, ambos afirmam usar menos combustível fóssil e recursos do que em Londres. Segundo eles, isso também faz parte do apelo. Têm dois painéis solares para alimentar uma geladeira, pequenos aparelhos eletrônicos e um roteador wi-fi para usar a internet e para Hall desempenhar seu trabalho como consultor de tecnologia.

A vida a bordo é apertada, mas confortável, com uma pequena área de estar ao lado de um fogão a lenha decorada com suculentas e uma pilha de jogos de tabuleiro à disposição. Uma pequena cozinha compacta com fogão a gás fica a poucos passos de distância, e mais adiante, ao longo do casco, há um banheiro com um vaso sanitário de compostagem. Na parte de trás, fica o quarto, com uma cama e um pequeno armário.

Os vendedores de barcos estão notando um aumento de compradores de primeira viagem, como Bruce e Hall, e dizem que a pandemia tem contribuído. "Na verdade, tornou-se um pequeno refúgio durante a pandemia do coronavírus - viver em um barco estreito e ficar sozinho", observou Adrian Dawson, executivo de vendas da Marina Whilton, no canal Grand Union, em Northamptonshire.

O Canal & River Trust, responsável por mais de 3.200 quilômetros de vias navegáveis na Inglaterra e no País de Gales, informa que agora há 35.130 barcos navegando pelos canais do país - mais do que no auge da Revolução Industrial.

A vida em um barco rústico pelo canal não é romântica o tempo todo. Os tanques de água precisam ser enchidos, os resíduos do banheiro precisam ser esvaziados e os aposentos apertados significam pouco espaço para luxo.

Além disso, os donos de barco sem autorização para atracar de forma permanente precisam se deslocar a cada 14 dias e viajar pelo menos 34 quilômetros por ano, de acordo com as regras do Canal & River Trust.

Em Londres, onde as casas flutuantes há muito tempo são uma alternativa acessível ao arranjo de vida mais tradicional, os donos de barco protestaram em junho contra os novos regulamentos que eles temem que possam expulsá-los de casa, revelando algumas das tensões em jogo à medida que os canais ficam mais cheios.

Depois, há a pequena questão do inverno: canais gelados, superfícies escorregadias e a manutenção do aquecimento durante a navegação são um desafio. Bruce e Hall têm dores que os lembram de que os músculos ainda não estão totalmente acostumados a essa vida. Não familiarizados com a manutenção e a navegação de barcos, eles contam com fóruns on-line e um manual de instruções para obter ajuda. "Foi um pouco assustador comprar um pedaço de aço com um motor sem entender nada do assunto. Mas então, assim que me senti um pouco assustada, pensei: 'É disso que preciso na minha vida'", contou Bruce.

Eles notaram algumas divisões no mundo da navegação de canal - por exemplo, quando um casal mais idoso com um barco mais vistoso os olhou com reprovação ao vê-los passar desajeitadamente por uma eclusa.

Mas também encontraram uma comunidade bem-sucedida de companheiros de navegação com uma mentalidade semelhante e disposta a compartilhar seu conhecimento. "Acho que provavelmente todos temos alguma coisa em comum. Sabe? Amar a paz e o ritmo dos canais, e não sentir o gosto e o cheiro do ar poluído. E conseguir ouvir os pássaros enquanto você toma um chá", disse Bruce.

Esse vínculo compartilhado facilita o contato com outras pessoas que viajam pelos canais, e que passam com uma onda e um pouco de bate-papo. "Talvez a gente sinta que descobriu o segredo da vida", acrescentou Bruce com um sorriso.

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