Benjamin Quinton para The New York Times
Benjamin Quinton para The New York Times

Inglaterra tem polo de tecnologia inspirado no Vale do Silício

Um boom na pesquisa de inteligência artificial atraiu as maiores empresas da área e seus talões de cheques para a célebre cidade inglesa, Cambridge

Cade Metz e Adam Satariano, The New York Times

23 Julho 2018 | 10h00

CAMBRIDGE, INGLATERRA - Quando você desce do trem aqui, e entra na praça da cidade, saindo da estação ferroviária, não enxerga os pináculos da King’s College Chapel. A Universidade de Cambridge ainda está longe, é preciso tomar um táxi até lá. Mas você vê um edifício de escritórios de vidro e pedra com um grande terraço no topo. É ali que a Amazon projeta os seus drones.

Seguindo pelo quarteirão, em outra construção de pedras, a Microsoft projeta um chip para a inteligência artificial.

E um pouco mais adiante, chega a um terceiro edifício, com o logotipo azul da Apple, onde os engenheiros tentam romper as fronteiras da Siri, a assistente digital que fala e pode ser ouvida em todo iPhone.

Durante anos, jornalistas, especialistas em planejamento urbano e de outras áreas chamaram este lugar “Silicon Fen” (ou o Fenômeno de Cambridge) com seus grandes negócios de tecnologia, considerando esta região outrora pacata nos arredores de Cambridge a resposta da Grã-Bretanha ao Vale do Silício.

O nome - um aceno à planície costeira, ou Fenlands, que cerca Cambridge - nunca pegou muito bem. Mas o conceito sim, a ponto de as potências tecnológicas do mundo todo terem se mudado para cá, juntamente com engenheiros e pesquisadores, particularmente do campo da inteligência artificial atualmente em grande desenvolvimento.

Sua chegada proporciona o impulso necessário à economia britânica que, se acredita, esteja sendo afetada por sua saída da União Europeia.

Apple, Amazon e Google montaram na Grã-Bretanha centros de pesquisa e engenharia adquirindo empresas saídas das universidades locais, e gastando com isto centenas de milhões de dólares.

Atualmente, em Cambridge há mais de 4,5 mil companhias de alta tecnologia, que empregam cerca de 75 mil pessoas, segundo o Cambridge Network, um grupo empresarial da cidade.

Do outro lado da rua, em frente à Amazon, a ARM, a fabricante de chips de computador do SoftBank, a gigante tecnológica japonesa, transferiu os engenheiros para escritórios temporários. Um novo edifício está em construção bem ao lado. É ali que a Samsung, o conglomerado de tecnologia da Coreia do Sul, abrirá outro laboratório de inteligência artificial, contratando 150 pessoas.

“Quem não vem aqui há 20 anos, dirá: ‘Mas é o mesmo lugar?’”, disse Claire Ruskin da Cambridge Network.

Matthew Hancock, o secretário de Estado britânico responsável pela política digital, afirmou: “Estamos absolutamente determinados a garantir que a próxima geração de empresas seja construída aqui”.

Recentemente, Chris Bishop, supervisora da Microsoft Research Cambridge, olhando pela janela do seu escritório no quinto andar apontou para os pináculos de King’s College Chapel ao longe. “Alan Turing estudou lá”, falou.

Em 1950, com o seu estudo “Computing Machinery and Intelligence”, Turing, o matemático britânico, que decifrou o código Enigma usado pelos submarinos alemães e foi o pioneiro da computação, indagou se algum dia as máquinas pensariam por conta própria. Bishop, um pesquisador da I.A. que estudou em Oxford e ocupou uma cátedra na Universidade de Edimburgo antes de se mudar para Cambridge, considera o seu trabalho outro elo de um longo legado britânico.

Bishop ingressou no laboratório em 1997, pouco depois de sua fundação. Naquela época, a Microsoft era a única gigante tecnológica que pagava um bom dinheiro para atrair acadêmicos do mais alto nível para trabalharem neste tipo de pesquisa empresarial. Agora, a inteligência artificial ocupa o centro do cenário nas principais empresas de tecnologia, e pagar muito aos acadêmicos já é uma coisa comum.

Há cinco anos, a Microsoft transferiu o seu laboratório para o edifício que toma todo um quarteirão na cidade, perto da estação ferroviária. Muitos dos antigos discípulos e colegas de Bishop agora trabalham em outras grandes empresas tecnológicas.

No ano passado, um relatório encomendado pelo governo britânico pediu o aumento do financiamento para as universidades e o governo respondeu, afirmando que, até 2020, financiará 200 novos Ph.Ds em inteligência artificial e campos correlatos, e investirá US$ 500 milhões em educação tecnológica na Grã-Bretanha.

Nem todos estão satisfeitos com o rumo tecnológico tomado em Cambridge.

No ano passado, um novo empreendimento na área da habitação foi vandalizado com grafites em latim: “Locus in Domos Loci Populum”. Como a BBS noticiou, a tradução é “habitações locais para pessoas locais”.

Enquanto os trabalhadores da tecnologia ganham enormes salários, os preços das casas estão subindo vertiginosamente, e os moradores da cidade já estão sofrendo um aperto financeiro. Mais um exemplo da semelhança entre Silicon Fen e Silicon Valley.

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