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Iniciativa econômica da China no Paquistão toma um rumo militar

Pequim obtém favores e influência com um vizinho estratégico 

Maria Abi-Habib, The New York Times

29 de dezembro de 2018 | 06h00

ISLAMABAD, PAQUISTÃO - Quando o presidente Donald Trump começou o ano de 2018 suspendendo a ajuda de bilhões de dólares para a segurança do Paquistão, alguns cogitaram que a medida apavoraria os paquistaneses e os levaria a cooperar com os seus aliados americanos. Na realidade, os paquistaneses já tinham um patrocinador substituto.

Duas semanas mais tarde, funcionários da Força Aérea Paquistanesa e chineses davam os retoques finais a uma proposta secreta de expansão da fabricação de jatos militares chineses, armamentos e outros equipamentos bélicos pelo Paquistão. O plano secreto, analisado pelo jornal “The New York Times”, também aprofundará a cooperação entre a China e o Paquistão no espaço, uma fronteira que, como o Pentágono afirmou recentemente, Pequim tenta militarizar após procurar durante décadas recuperar o atraso.

Todos estes projetos militares destinavam-se a fazer parte da Iniciativa ‘Um Cinturão e Uma Rota’ criada pela China, uma série de programas de implantação de infraestruturas no valor de 1 trilhão de dólares que se estenderia por 70 países, construído e financiado por Pequim.

As autoridades chinesas disseram que a iniciativa não passa de um projeto econômico com objetivos pacíficos. Mas com o seu plano para o Paquistão, pela primeira vez, a China vincula explicitamente uma proposta para o Cinturão e a Rota às suas ambições militares - e confirma os temores de um grande número de nações que suspeitam que a iniciativa de construção desta infraestrutura na realidade ajudará a China a projetar o seu poderio armado.

Vizinho da China que desfruta de uma posição estratégica e dotado de bomba nuclear, o Paquistão tem sido o principal exemplo de que os projetos chineses estão sendo usados para proporcionar a Pequim favor e influência entre os seus clientes. O Paquistão é o país mais importante do programa, com cerca de 62 bilhões de dólares em projetos no âmbito do chamado Corredor Econômico entre China e Paquistão. A China  emprestou mais dinheiro ao Paquistão em um momento de desespero econômico, aproximando ainda mais os dois países.

Antes mesmo da revelação da nova cooperação militar sino-paquistanesa, alguns dos maiores projetos da China no Paquistão  tinham claras implicações estratégicas. Um porto construído pelos chineses e uma zona econômica especial na cidade paquistanesa de Gwadar assentam-se no comércio, o que proporciona à China uma rota mais rápida até o Mar da Arábia. Mas também oferece a Pequim uma carta estratégica para jogar contra a Índia e os Estados Unidos no caso de as tensões se intensificarem, chegando à criação de bloqueios navais, se as duas potências se enfrentarem no mar.

Um aspecto menos analisado da iniciativa é a função fundamental desempenhada pelo Paquistão no sistema Beidou de navegação por satélite da China. O Paquistão é o único país que tem acesso ao serviço miliar do sistema, permitindo uma orientação mais precisa de mísseis, navios e aviões. Entretanto, a cooperação servirá de modelo para a expansão do Beidou a outras nações do Cinturão e Rota que acaba claramente com a dependência dos seus clientes da rede de GPS dirigida pelos militares americanos que as autoridades chinesas temem seja monitorada e manipulada pelos Estados Unidos. No Paquistão, a China encontrou um aliado dócil com diversos aspectos favoráveis que o recomendam: fronteiras comuns e uma longa história de cooperação; proteção  no Sudeste Asiático contra a Índia; um amplo mercado de vendas de armas e comércio; e uma grande reserva de recursos naturais.

Quando a China inaugurou a iniciativa Um Cinturão e Uma Rota em 2013, o novo governo do primeiro-ministro Nawaz Sharif no Paquistão a considerou a resposta a uma série de problemas. Os investimentos estrangeiros no Paquistão eram escassos, afugentados pelos ataques terroristas e pela corrupção do país. Em outubro, o banco central paquistanês anunciou uma dívida total e obrigações de cerca de 215 bilhões de dólares, enquanto 95 bilhões de dólares estão nas mãos de investidores externos. Com cerca da metade dos projetos concluídos, o Paquistão atualmente deve à China 23 bilhões de dólares. 

No entanto, o país deverá ao todo 62 bilhões de dólares à China pelo plano de expansão desta iniciativa no país. Segundo a proposta elaborada pelo Paquistão e a China no início do ano, será criada no Paquistão uma zona econômica especial para a construção de novos aviões de combate. Sistemas de navegação, sistemas de radar e armas a bordo serão construídos em fábricas no Paquistão.

A proposta expandirá a cooperação entre a China e o Paquistão na fabricação do avião de combate JF-17, montado no Complexo Aeronáutico Kamra do Paquistão dirigido por militares, na província do Punjab. Para o Paquistão, os jatos projetados pelos chineses são a alternativa aos F-16 de fabricação americana, cuja obtenção se tornou mais difícil com o desgaste das relações de Islamabad com Washington.

Há anos, parte da coordenação militar mais importante entre China e Paquistão vem ocorrendo no espaço. Meses antes de Pequim anunciar a sua iniciativa Um Cinturão e Uma Rota em 2013, ela assinou um acordo com o Paquistão para a construção de uma rede de estações de satélites no interior do Paquistão que lhe permitirá estabelecer o sistema de Navegação Beidou como alternativa à rede de GPS americana. O Beidou tornou-se rapidamente um componente essencial da Iniciativa Cinturão e Rota.

Luz Ding contribuiu para a reportagem

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