Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Iniciativa francesa na África concede asilo a poucos

Nova abordagem da França em relação à política para refugiados tem evitado o aumento do número de migrantes que chegam ao país

Adam Nossiter, The New York Times

28 Fevereiro 2018 | 11h46

NIAMEY, Níger - Em um conjunto de escritórios despojados no interior de um complexo, ao lado de uma estrada de terra, burocratas franceses decidiram empreender um esforço para esticar por milhares de quilômetros as fronteiras da França na África, na esperança de afastar possíveis migrantes.

Ao longo do dia, eles entrevistam pessoas que buscam asilo, uma vez que a realidade africana da qual querem fugir grassa lá fora - o desemprego e a pobreza, e, em casos especiais, a perseguição política.

Se a resposta francesa é sim ao asilo, eles recebem passagens de avião para a França, poupando-lhes, assim, a arriscada viagem pelo deserto e depois em embarcações precárias para a travessia do Mediterrâneo que, nos últimos anos, levou milhões de migrantes desesperados à Europa.

“Estamos aqui para impedir que as pessoas continuem morrendo no Mediterrâneo”, disse Sylvie Bergier-Diallo, vice-diretora da missão francesa no Níger.

Entretanto, poucos são aprovados, e por isso a delegação francesa está ali também para transmitir uma mensagem a outros possíveis migrantes: fiquem no seu país e não corram o risco de uma jornada perigosa por um pedido de asilo que, com certeza, lhes será negado na França.

Depois de lutar durante anos com a migração descontrolada, a Europa está desistindo. A Itália é suspeita de fazer acordos por baixo dos panos com senhores da guerra líbios que controlam a rota da migração. A União Europeia enviou algumas delegações para as capitais africanas, acenando com ajuda e incentivos para que os líderes mantenham seu povo em pátria. E agora chegam os franceses.

“Há uma abordagem muito mais ativa para garantir que os migrantes fiquem o mais longe possível da Europa, e isso em total detrimento dos interessados”, explicou Philippe Dam, do Observatório de Direitos Humanos.

A missão francesa chega enquanto o presidente Emmanuel Macron pressiona para a aprovação de uma nova lei que visa enviar muitos migrantes, que acabaram de chegar, de volta aos seus países. O objetivo é reduzir as pressões políticas da extrema direita, que aumentaram consideravelmente com a crise dos migrantes.

Embora alguns dos novos métodos da Europa sejam questionáveis, os resultados são evidentes: no ano passado, pela primeira vez desde o início da crise, o fluxo migratório foi revertido, informa Giuseppe Loprete, diretor do escritório da agência de migração da ONU no Níger. Cerca de 100 mil possíveis migrantes que estavam na Líbia retornaram ao Niíger, em comparação aos 60 mil que atravessaram o país desértico rumo à Europa.

Em si, a triagem francesa, como a chamam aqui, é tão reduzida que não se espera um efeito significativo no fluxo migratório geral. Somente algumas dessas missões partiram desde que Macron anunciou a medida, no verão passado.

Recentemente, em uma semana, 85 pessoas foram entrevistadas pelas autoridades da agência francesa dos refugiados, conhecida como Ofpra.

De qualquer modo, os franceses foram os primeiros a empreender este tipo de iniciativa, trabalhando com a ONU, fora de sua agência de refugiados em Niamey. “A ideia é proteger as pessoas que poderiam ter direito a asilo”, afirmou Pascal Brice, diretor da Ofpra.

Há alguns dias, 136 eritreus e somalis foram enviados de avião de Niamey à ONU, todos candidatos em potencial para entrevistas a respeito do pedido de asilo com os franceses.

A jovem eritreia Welella, de 18 anos, foi resgatada da Líbia após passar algum tempo em um campo de refugiados no Sudão. Seu pai é um soldado, seus irmãos foram convocados para o serviço militar obrigatório da Eritreia, e ela corria o risco de ter o mesmo destino. Há muito ela planejava fugir. “Um dia, consegui”, contou.

Quando uma funcionária francesa, Lucie, perguntou o que aconteceria se ela voltasse, Welella respondeu: “Se eu voltar, vão acabar comigo”.

Depois de quase duas horas de perguntas, a França estava a um passo de receber Welella. “Você terá o direito de entrar na França legalmente”, disse Lucie. 

Welella sorriu timidamente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.