Bas Czerwinski/EPA
Bas Czerwinski/EPA

Como reagir ao descobrir que o doador do esperma é o próprio médico?

Rede de especialistas em fertilidade que geraram dezenas de crianças por inseminação artificial foi descoberta nos Estados Unidos e em outros países

Jacqueline Mroz, The New York Times

09 de setembro de 2019 | 06h00

Eve Wiley, que viveu em Nacogdoches, no Texas, soube aos 16 anos que havia sido concebida por inseminação artificial de um doador de esperma. Sua mãe, Margo Woliams, agora com 65 anos, procurara a ajuda do médico Kim McMorries, explicando que seu marido era infértil. Por isso, pedia ao médico que localizasse um doador. Pouco depois, ele a informou de ter encontrado o doador por meio de um banco de esperma da Califórnia.

Marge deu à luz uma filha, Eve. Agora com 32 anos, ela escolheu não trabalhar fora para cuidar da família e mora em Dallas, Texas. Entre 2017 e 2018, decidiu realizar testes de DNA. O resultado mostrou que seu pai biológico não era um doador de esperma da Califórnia, como havia sido informada – mas, sim, McMorries. A notícia a deixou embasbacada. “A gente molda toda a sua vida de acordo com uma identidade genética, que constitui o seu alicerce”, disse Eve. “Mas, quando retira este elemento básico ou o altera, a experiência é devastadora”.

McMorries comunicou por meio do seu advogado e da equipe do seu escritório que não comentaria o caso. Com a introdução dos testes de DNA para o público em geral, começaram a ser revelados casos em que, dezenas de anos antes, especialistas em infertilidade haviam secretamente usado o próprio esperma para a inseminação artificial.

Mais de 20 casos

A médica Jody Madeira, professora de Direito da Universidade de Indiana, acompanha mais de 20 destes casos nos Estados Unidos e no exterior. Eles ocorreram na Inglaterra, África do Sul, Alemanha e Holanda. Segundo a Dutch Donor Child Foundation, os testes de DNA confirmaram que o especialista em fertilidade Jan Karbaat gerou 56 filhos de mulheres que haviam recorrido à sua clínica nos arredores de Roterdã.

As autoridades holandesas fecharam a clinica em 2009, e ele morreu em abril de 2017 aos 89 anos. Um advogado da família de Karbaat declarou que não comentaria as acusações e enfatizou que esses casos aconteceram há dezenas de anos. “Há 30 anos, as pessoas viam as coisas de maneira diferente”, justificou J.P. Vandervoodt, advogado de Roterdã. “Karbaat pode ter sido um doador anônimo - nós não sabemos. Não havia um sistema de registros na época”.

Em junho, o College of Physicians and Surgeons de Ontario revogou a licença de um especialista em fertilidade de Ottawa, o médico Norman Barwin, de 80 anos, e o criticou duramente porque, durante dezenas de anos, ele usou o esperma errado em procedimentos de inseminação artificial. O colégio constatou que ele inseminou pelo menos 11 mulheres com o seu esperma. Barwin e os seus advogados não responderam à solicitação de um comentário sobre os casos.

Conduta criminalizada

No passado, as pacientes tinham poucas razões para suspeitar dos médicos especialistas em fertilidade, aos quais haviam confiado uma tarefa íntima, disse Dov Fox, bioeticista da Universidade de San Diego. “Em uma palavra, uma atitude grosseira”, pontuou. “E em mais duas: chocante, vergonhosa. Estes médicos não parecem maçãs podres e sim perpetradores de fraude generalizada”, continuou. Três estados acabam de aprovar leis que criminalizam esta conduta, como o Texas, que passou a defini-la uma forma de ataque sexual.

“Nestes casos, existe todo um aspecto físico - utiliza-se um instrumento médico para penetrar nas mulheres a fim de permitir a introdução do material genético no seu corpo”, explicou a enfermeira Stephanie Glick, também legisladora do Texas. “Para mim, isto equivale a um crime porque não há consentimento”.

Negócio lucrativo

Por que os médicos substituíram secretamente o seu esperma por outro, até mesmo o do próprio marido da paciente? Segundo Madeira, para alguns especialistas este foi considerado simplesmente um negócio lucrativo. O esperma congelado não foi a solução médica padrão até o fim da década de 1980, e também é possível que muitos médicos não tivessem acesso imediato a esperma.

“Eles podem ter justificado para si mesmos o crime em uma época em que o conceito geral era ‘o médico é que sabe’”, disse a especialista. “Na sua mente, podem ter pensado apenas em ajudar as pacientes aumentando a sua possibilidade de engravidar com esperma novo a fim de atingir taxas mais elevadas de fertilização”. Mas outros, acrescentou Madeira, talvez tivessem motivações obscuras. “Aposto que muitos destes médicos tinham pretensões de poder para fazer isto - problemas mentais, atitudes narcisistas - ou talvez se sentissem atraídos por certas mulheres".

Diante dos resultados dos testes, McMorries admitiu a Eve Wiley que ele mesclara o seu esperma ao de outros doadores com a finalidade de aumentar as chances de concepção de sua mãe. A lei sobre ‘anonimidade’ impedira que ele contasse à paciente. Antes da confissão do médico, Eve acreditou ter descoberto quem doara o esperma com o qual fora concebida: Steve Scholl, hoje com 65 anos, escritor e editor de Los Angeles.  “Criamos uma linda relação pai e filha”, ela disse.

Depois de saber a verdade, ela contou a Scholl que não era sua filha. Ele ficou desnorteado. “Levei algum tempo para processar a informação”, lembrou em uma entrevista. “Não sabíamos como funcionava a indústria da reprodução. Mas logo decidimos que nada mudaria para nós”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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