Xiaolong Zhu
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Inseticida desenvolvido por nazistas pode ajudar no combate à malária?

Em relatórios examinados pela NYU, cientistas alemães alegavam que o seu inseticida, agora chamado de DFDT, seria mais eficaz que o DDT

Kenneth Chang, The New York Times

28 de outubro de 2019 | 06h00

O que teria acontecido se, após a vitória dos Aliados na 2ª Guerra Mundial, as autoridades de saúde mundiais tivessem adotado uma versão do DDT (pesticida) desenvolvida pelos nazistas no combate ao mosquito que transmite a malária? Seria possível eliminar a doença, que ainda infecta mais de 200 milhões de pessoas todos os anos, causando a morte de 400 mil delas? Essa é uma das indagações dos químicos da Universidade de Nova York que encontraram um inseticida desenvolvido por cientistas alemães durante a 2ª Guerra. O caso se tornou um mistério da história da ciência.

Em relatórios examinados pelo professor de química Michael D. Ward, da NYU, e seus colegas, cientistas alemães alegavam que o seu inseticida, agora chamado de DFDT, seria mais eficaz que o DDT. Autoridades aliadas deram pouca atenção à essa informação, principalmente à luz do comportamento deplorável da Hoechst (fabricante química alemã que desenvolveu o inseticida) durante a guerra.

A empresa usou trabalhos forçados em suas fábricas, e testava compostos em prisioneiros. O inseticida foi esquecido.

Agora, o trabalho dos cientistas parece corroborar as alegações alemãs. O composto matou os mosquitos quatro vezes mais rápido do que o DDT.

O DDT foi usado em grandes quantidades após a 2ª Guerra, até surgirem preocupações ambientais nos anos 1960. Embora muitos países tenham proibido o produto nos anos 1970, isso não eliminou completamente o seu uso. Em 2006, a Organização Mundial da Saúde recomendou o DDT para o controle da malária, principalmente para a aplicação em paredes internas, envolvendo quantidades menores do que as usadas anteriormente por agricultores.

Supõe-se que o DFDT, mais letal, poderia ser empregado em doses ainda menores e, possivelmente, seguras. Uma nova opção seria a adoção de um regime rotativo por parte das autoridades de saúde, usando o novo composto para superar a resistência dos mosquitos ao DDT.

A eficácia do DDT (abreviação de diclorodifeniltricloroetano) como inseticida foi descoberta em 1939 por um químico suíço. Uma iniciativa agressiva da Organização Mundial da Saúde para erradicar a malária em 1955 teve sucesso em algumas regiões do mundo, mas muitos mosquitos desenvolveram resistência à substância - os sobreviventes tinham maior probabilidade de transmitir aos descendentes uma característica genética que os protegia do veneno. A doença voltou com tudo.

Em 1962, a obra Silent Spring, de Rachel Carson, documentou a devastação ecológica causada pelo uso indiscriminado de inseticidas. As moléculas de DDT perduram por décadas e se acumulam em animais situados em pontos mais elevados da cadeia alimentar. Os Estados Unidos proibiram o DDT em 1972, e muitos outros países seguiram seu exemplo.

O pesquisador de pós-doutorado Jingxiang Yang, da NYU, começou a produzir cristais de DDT e encontrou não apenas os cristais esperados, mas também padrões mais caóticos e desencontrados. “Alguns eram organizados, e outros eram uma maluquice”, disse Bart Kahr, colega de Ward. 

“A substância diferente revelou-se um arranjo diferente de moléculas no cristal. Essa forma era desconhecida pela ciência.” “Como temos duas formas”, disse Kahr, “seria natural indagar: qual dessas duas formas era a exterminadora histórica de insetos?” A forma caótica é mais mortífera.

Enquanto analisavam os dados a respeito do DDT, os químicos da NYU encontraram referências ao DFDT. Nos experimentos da NYU, o DFDT matou metade dos mosquitos expostos à substância em questão de meia hora, sendo que o DDT levou duas horas para alcançar o mesmo resultado.

Especialistas no uso de inseticidas se mostram céticos diante da perspectiva de usar o DFDT como solução para a malária, apontando as semelhanças entre a sua estrutura química e a do DDT. “Suspeito que, em se tratando da sua forma de atuação, o DFDT seja provavelmente idêntico ao DDT", disse o professor Jeffrey R. Bloomquist, da Universidade da Flórida. “Assim, encontraríamos uma resistência cruzada ao aplicá-lo em campo, mesmo que a substância não tenha sido usada em décadas.”

Os cientistas da NYU planejam testar o DFDT em mosquitos resistentes ao DDT. Se o DFDT for capaz de matar os insetos resistentes, a substância pode se tornar uma nova e importante ferramenta - a resistência a inseticidas pode ser minimizada com a alternância periódica entre diferentes tipos de veneno. E a quantidade necessária para o combate à malária é pequena.

Kahr se indaga: se o DFDT tivesse substituído o DDT, será que a campanha de 1955 teria conseguido controlar a malária antes do advento da resistência dos mosquitos à substância? “E se esse composto não tivesse caído no esquecimento?”, disse ele. “Como seria o mundo de hoje?” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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