Ilvy Njiokiktjien para The New York Times
Ilvy Njiokiktjien para The New York Times

Instalação surreal de Laure Prouvost é atração na Bienal de Veneza

Artista já realizou importantes mostras individuais em Pequim, Munique, Nova York, Londres e Antuérpia

Nina Siegal, The New York Times

19 de junho de 2019 | 06h00

O Pavilhão da França na Bienal de Veneza é um imponente templo das Belas Artes, com colunas. Mas este ano os visitantes encontrarão a porta da frente fechada. Eles terão de entrar por uma porta posterior, depois caminhar no subsolo, subir uma escada insegura e penetrar em uma sala onde cascas de ovo, pontas de cigarros, celulares velhos e outros detritos brotam de um piso de resina azul claro.

Na sala seguinte, em que assentos de automóvel e cadeiras de jardim parecem derreter na areia, assistirão a um vídeo de quase meia hora de duração que mostra uma viagem de sonho por uma estrada dos arredores de Paris até Veneza, de automóvel, cavalo e barco, com um ciclista nu, uma banda de metais marchando e um mágico que faz levitar móveis.

Esta instalação, “Deep See Blue Surrounding You”, é a obra da artista Laure Prouvost, que, há várias temporadas, é a escolha improvável para representar a França na vitrine de arte mais prestigiosa do mundo. Por outro lado, ela admite que o seu francês não é bom.

“Falo francês, mas como uma criança”, afirmou no seu estúdio em Antuérpia, na Bélgica. Ela deixou a sua cidade natal perto de Lille, na França, ainda adolescente, para estudar e nunca mais voltou. Desde então, Laure, que recebeu o Prêmio Turner na Grã-Bretanha em 2013, estabeleceu a sua carreira na Grã-Bretanha e na Bélgica. Já realizou importantes mostras individuais em Pequim, Munique, Nova York, Londres e Antuérpia, mas somente uma exposição individual importante na França, no Palais de Tokyo, no ano passado.

E, no entanto, ela fez com que a França se orgulhasse dela na Bienal. O pavilhão foi muito elogiado como um dos mais impressionantes deste ano, e foi mencionado na semana de pré-estreia deste mês, quando os críticos e os colecionadores foram até Veneza.

A obra de Laure muitas vezes consiste de instalações com vídeos em que os visitantes podem mergulhar, e uma sinalização que às vezes é instrutiva (“Por favor, sente-se aqui para afogar as suas tristezas”). Há também muita tapeçaria, polvos e seios separados dos respectivos corpos.

“O público se torna cúmplice no ambiente que ela cria”, afirmou Hana Noorali da Lisson Gallery. E explicou que Laure “inverte as arquiteturas, em alguns casos literalmente, a fim de criar um ambiente mais surreal”. Laure frequentemente “muda a maneira de entrar em um espaço e depois volta a apresentá-la em um trabalho em vídeo, de modo que o que você vê é na realidade um reflexo do que já experimentou”, disse Hana.

O vídeo fundamental em sua instalação em Veneza une muitos dos elementos que ela explorou em obras anteriores. Em sua jornada peripatética, ela traz consigo vários viajantes, inclusive um sacerdote de Burkina Faso, uma professora aposentada da escola de enfermagem francesa e um bailarino franco-gabonês.

Os viajantes falam seus textos em francês, inglês, italiano, árabe e holandês. Em uma parte do filme, eles nadam no Mar Mediterrâneo, onde contemplam as vidas perdidas nessas águas - refugiados e migrantes que tentavam alcançar a Europa. Dali, a nado chegam aos canais de Veneza, e por fim ao pavilhão francês.

“Toda a ideia foi uma espécie de viagem subconsciente pela estrada que nos identifica”, disse Laure. E acrescentou que queria “olhar as ideias da representação e da França”. Os personagens do seu filme poderiam ser considerados artistas de fora. É na sua atenção a estas figuras que começa a emergir o sutil comentário social de sua arte. “A sua política está na sua ficção, em seu surrealismo e em sua narrativa”, disse Martha Kirszenbaum, a curadora da mostra de Laure em Veneza.

“Ela está mais interessada na sociedade ao seu redor, mas as questões sociopolíticas são camadas subjacentes à sua obra”, acrescentou Martha. “A ideia da utopia é muito importante para este projeto. É como uma possibilidade utópica de como poderíamos talvez conviver”. 

Laure observou que algumas partes da criação de mitos em sua arte tem a ver com a “tentativa de rejeitar um passado ou o peso da história fazendo história ou reinventando-a”. Ela afirma que foi a primeira geração de sua família que deixou a França. “O fato importante do movimento é que nós questionamos nosso sistema ou a maneira como fazemos as coisas”.

Contou que desde que começou a trabalhar para a Bienal, seus amigos disseram que o seu francês melhorou, e agora ela se sente mais francesa. “Eu sou de onde eu sou”, declarou, “mas no fim, no vídeo, eu digo: ‘Nós somos como os pássaros que não pertencem a nenhuma nação’”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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