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C. Fritz, Muséum d'Histoire naturelle de Toulouse via The New York Times
C. Fritz, Muséum d'Histoire naturelle de Toulouse via The New York Times

Instrumento musical feito com concha marinha é encontrado em caverna habitada na pré-história

A música da grande concha provavelmente passou 17 mil anos sem ser apreciada por ouvidos humanos

Katherine Kornei, The New York Times - Life/Style

11 de março de 2021 | 05h00

Em 1931, pesquisadores que trabalhavam no sul da França desenterraram uma grande concha marinha da entrada de uma caverna. Considerada ordinária em um primeiro olhar, a concha ficou esquecida por décadas no acervo de um museu de história natural das imediações.

Agora, uma equipe re-examinou a concha de aproximadamente 30 centímetros usando tecnologia moderna de imagem. Os cientistas concluíram que a concha tinha sido deliberadamente lascada e perfurada para ser usada como um instrumento musical. Trata-se de um exemplar extremamente raro de “concha-corneta” do período Paleolítico, concluiu a equipe. E o instrumento ainda funciona — um músico tocou recentemente três notas na concha de 17 mil anos.

“Precisei soprar muito para manter o som”, afirmou Jean-Michel Court, musicólogo da Universidade de Toulouse que fez a demonstração.

A Caverna Marsoulas, localizada aos pés dos Pirineus franceses, fascina pesquisadores há muito tempo, com suas coloridas pinturas rupestres de bisões, cavalos e humanos. Foi lá que a enorme concha acinzentada foi descoberta, um objeto incompatível com aquele ambiente, que deve ter sido transportado do Oceano Atlântico até lá, por uma distância de mais de 240 quilômetros.

Apesar de sua importância, a concha, de um molusco chamado Charonia lampas, caiu gradualmente no esquecimento. Tida como um mero recipiente para bebidas, ela passou mais de 80 anos no Museu de História Natural de Toulouse.

Somente em 2016 pesquisadores voltaram a analisar a concha. Artefatos como esse nos ajudam a imaginar como os moradores das cavernas viviam, afirmou Carole Fritz, arqueóloga da Universidade de Toulouse que estuda a caverna e suas pinturas há mais de 20 anos. “É difícil estudar arte rupestre sem o contexto cultural.”

Carole e suas colegas começaram montando um modelo digital em três dimensões da concha. A equipe percebeu que algumas partes tinham aparência peculiar. Para começar, parte de sua aresta externa tinha sido lascada. Isso suavizou a borda, diferentemente do que ocorre naturalmente com os Charonia lampas, afirmou Gilles Tosello, artista visual especializado em pré-história também da Universidade de Toulouse. “Normalmente, essa borda é muito irregular”.

A equipe descobriu que o vértice mais agudo, no bico da espiral da concha, também tinha sido quebrado. Essa é a parte mais resistente da concha, e é improvável que tivesse lascado naturalmente. De fato, análises mais aprofundadas mostraram que a concha havia sido golpeada repetidamente — e com precisão — próximo a esse bico. Os pesquisadores também notaram um resíduo marrom, que talvez seja um vestígio de argila ou de cera de abelha em torno do bico quebrado.

O mistério se aprofundou quando a equipe usou tomografia computadorizada e uma minúscula câmera de uso médico para examinar a parte interna da concha. Os pesquisadores encontraram um buraco de aproximadamente 0,6 centímetro de diâmetro que partia do bico quebrado e perfurava a estrutura interna da concha.

Os pesquisadores acreditam que todas essas modificações foram feitas intencionalmente. A aresta externa suavizada teria tornado a concha mais fácil de segurar, e o bico quebrado e o buraco adjacente teriam permitido que um bocal — possivelmente um osso oco de pássaro — fosse inserido na concha. O resultado era um instrumento musical, concluiu a equipe em seu estudo, que foi publicado na quarta-feira na revista científica Science Advances.

Essa concha pode ter sido tocada durante cerimônias ou para convocar reuniões, afirmou Julien Tardieu, outro pesquisador de Toulouse que estuda percepção auditiva. As paredes das cavernas tendem a amplificar o som, afirmou Tardieu. “O som dessa concha tocado dentro de uma caverna seria muito alto e impressionante.”

A concha também seria considerada linda, sugerem os cientistas, porque é decorada com pontos vermelhos — agora apagados — que combinam com pinturas encontradas nas paredes das cavernas.

Essa hipótese é plausível, afirmou Miriam Kolar, arqueóloga especializada em acústica da Amherst College, em Massachusetts, que estuda “conchas-cornetas”, mas não participou da pesquisa. “Há provas convincentes de que a concha foi modificada por humanos para se tornar um instrumento sonoro.”

Embora “conchas-cornetas” tenham sido encontradas em diferentes lugares, como Nova Zelândia e Peru, nenhuma é tão antiga quanto essa.

Carole afirmou que foi incrível escutar Court tirar som da concha. Suas notas não eram apreciadas por ouvidos humanos há muitos milênios, o que tornou a experiência particularmente emocionante, afirmou ela.

“Foi um momento fantástico”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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