C.D.C., via Reuters
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Por que estes instrumentos médicos são tão difíceis de esterilizar?

Duodenoscópios adoeceram centenas de pacientes; especialistas exigem que dispositivos sejam redesenhados ou retirados do mercado

Roni Caryn Rabin, The New York Times

16 de agosto de 2019 | 06h00

Nos hospitais de todo o mundo, o serpenteante duodenoscópio é considerado uma ferramenta indispensável no diagnóstico e tratamento de doenças do pâncreas e dos dutos biliares. Mas esses aparelhos de fibra ótica apresentam um notável defeito: embora sejam inseridos pela boca na parte superior do intestino delgado e reutilizados constantemente, eles não podem ser esterilizados pelos métodos convencionais.

São higienizados manualmente e colocados em máquinas semelhantes a uma lava-louça, que usam produtos químicos para matar os micro-organismos. Mesmo quando são limpos de acordo com as instruções, os dispositivos ainda podem reter bactérias que podem ser transmitidas ao paciente.

Como resultado, os duodenoscópios fizeram adoecer centenas de pacientes em hospitais dos Estados Unidos e Europa. Testes recentes indicam agora que as autoridades subestimaram muito o risco. Pior: demonstrou-se que os aparelhos podem transmitir infecções resistentes a antibióticos, praticamente impossíveis de curar.

Alarmados, especialistas em medicina estão insistindo à United States Food and Drug Administration (FDA, agência americana de vigilância sanitária) para que obrigue os fabricantes a desenvolver aparelhos que possam ser adequadamente esterilizados - ou que retirem os duodenoscópios do mercado.

“A necessidade é urgente", disse William A. Rutala, especialista em epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte. Testes recentes realizados pelos fabricantes a pedido da FDA revelaram que um a cada 20 duodenoscópios retém micróbios causadores de doenças como o E. coli mesmo depois de devidamente higienizados.

Os duodenoscópios são longos tubos flexíveis com uma câmera de fibra ótica em uma das extremidades. O dispositivo é usado no diagnóstico e tratamento de doenças no pâncreas, no duto biliar e na vesícula biliar, como a icterícia grave, tumores, obstruções no duto biliar e pedras. Mais de meio milhão de procedimentos do tipo são realizados todos os anos somente nos EUA, e muitos mais no restante do mundo.

A alternativa é a cirurgia, que traz seus próprios riscos, disse Bret Petersen, gastroenterologista da Clínica Mayo, em Minnesota. Os aparelhos não podem ser expostos ao alto calor para a esterilização. É difícil fazer a limpeza manual da tubulação interna e, diferentemente de outros endoscópios, os duodenoscópios têm na extremidade um mecanismo móvel semelhante a um elevador, que pode ser manipulado para ajustar a posição de instrumentos cirúrgicos.

Os fabricantes alegam que, se as instalações de saúde higienizarem o equipamento de acordo com as instruções - um processo complicado que pode envolver mais de cem etapas - o uso dos duodenoscópios é seguro. Mas, desde 2012, centenas de pacientes nos EUA e na Europa foram infectados em dezenas de surtos ligados a duodenoscópios contaminados. Entre os agentes infecciosos estão bactérias que não respondem a uma poderosa categoria de antibióticos. Essa infecção apresenta índice de mortalidade de 50%.

A medicina moderna depende muito dos duodenoscópios e de outros instrumentos flexíveis e tubulares com câmeras na extremidade - incluindo os broncoscópios para exame dos pulmões e os colonoscópios para exame do câncer colorretal - para o diagnóstico e tratamento de doenças sem recorrer a cirurgias.

As alternativas a esse tipo de exame são limitadas e incluem testes e procedimentos médicos substitutivos, como exames de fezes para detecção do câncer colorretal em vez da colonoscopia (os instrumentos usados nesse tipo de exame são considerados muito mais seguros, pois são usados em uma parte do corpo já repleta de bactérias).

Os broncoscópios descartáveis estão chegando ao mercado, embora não se espere que substituam os aparelhos reutilizáveis. Mas não há duodenoscópio descartável. A crescente prevalência das superbactérias - germes mortíferos e resistentes aos antibióticos - trouxe nova urgência ao problema.

“Enquanto os organismos foram suscetíveis aos antibióticos, o problema não era importante, pois mesmo que os aparelhos transmitissem bactérias, os pacientes recebem antibióticos como profilaxia antes e depois dos procedimentos, o que resolveria a questão", disse o consultor de saúde Larry Muscarella.

Mas o uso profilático de antibióticos não serve mais como garantia de proteção. O uso equivocado e exagerado de antibióticos nas pessoas, na agricultura e na pecuária levou à proliferação das bactérias resistentes ao tratamento com a maioria dos antibióticos disponíveis. Doenças resistentes a antibióticos já são uma das maiores ameaças globais à saúde. O funcionamento dos duodenoscópios torna esses aparelhos particularmente suscetíveis à infestação por bactérias desse tipo.

Mas o risco para os pacientes individuais é pequeno, e os duodenoscópios não são fatores significativos na ascensão das bactérias resistentes a medicamentos, disse Alexander J. Kallen, dos Centros para o Controle e Prevenção de Doenças. “No caso da maioria dos pacientes, é importante estar consciente do risco", acrescentou Kallen. “Mas, na maioria das situações, os benefícios do procedimento superam muito os riscos de um possível episódio adverso.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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