Nicolas Ortega
Nicolas Ortega

Inteligência artificial começa a decifrar o código da linguagem

Novas máquinas resolvem problemas envolvendo linguagem

Cade Metz, The New York Times

15 Dezembro 2018 | 06h00

Em agosto, pesquisadores do Instituto Allen para a Inteligência Artificial, um laboratório com sede em Seattle, no estado de Washington, revelou um teste de inglês para computadores. O exercício verificava se as máquinas eram capazes de completar frases como esta:

No palco, uma mulher se senta ao piano. Ela...

a) senta na areia da praia enquanto a irmã brinca de boneca.

b) sorri com alguém enquanto a música toca.

c) está na plateia, assistindo aos bailarinos.

d) toca as teclas com os dedos, nervosa.

Para o leitor, uma pergunta simples. Mas, para um computador, trata-se de um desafio. Enquanto os humanos responderam corretamente mais de 88% das perguntas do teste, os sistemas de inteligência artificial do laboratório permaneceram na marca dos 60%. Entre os especialistas, foi um feito impressionante.

Dois meses depois, uma equipe de pesquisadores do Google revelou um sistema chamado Bert. Sua tecnologia aperfeiçoada era capaz de responder a essas perguntas tão bem quanto os humanos - e não tinha sido programada especificamente para o teste.

A chegada de Bert pontuou um desenvolvimento significativo na inteligência artificial. Nos meses mais recentes, os pesquisadores mostraram que sistemas de computador são capazes de aprender os meandros da linguagem e aplicar esse conhecimento a tarefas específicas.

Tais sistemas podem levar ao aprimoramento de tecnologias tão díspares quanto os assistentes digitais como Alexa e Google Home e o software que analisa documentos automaticamente nos escritórios de advocacia e outras firmas. “Sempre que construímos novas formas de fazer algo próximo do nível humano, isso nos permite automatizar ou incrementar o trabalho humano", disse Jeremy Howard, fundador do laboratório Fast.ai, com sede em San Francisco, Califórnia.

Pode até levar a uma tecnologia capaz de manter um diálogo, finalmente. Mas, nos serviços das redes sociais, essa pesquisa também pode levar a bots mais convincentes, projetados para nos fazer pensar que são humanos, disse Howard. Os pesquisadores mostraram que técnicas de IA em rápido aperfeiçoamento podem facilitar a criação de imagens falsas que parecem reais. Conforme esse tipo de tecnologia avança para o campo da linguagem, disse Howard, talvez tenhamos que adotar uma atitude ainda mais cética na internet.

Esses novos sistemas de linguagem, possibilitados pelos ganhos na capacidade de processamento dos computadores, aprendem com a análise de milhões de frases escritas por humanos. Um sistema criado pelo OpenAI, um laboratório com sede em San Francisco, analisou milhares de livros. O sistema Bert, do Google, analisou os mesmos livros, e também a Wikipedia inteira.

Cada sistema desenvolveu uma habilidade em particular. A tecnologia do OpenAI aprendeu a adivinhar a palavra seguinte numa frase. Bert aprendeu a adivinhar palavras ausentes em qualquer ponto da frase. Mas, ao dominar essas tarefas específicas, eles também aprenderam como as peças da linguagem se encaixam.

Se Bert é capaz de adivinhar as palavras ausentes em milhões de frases, o sistema também consegue compreender muitas das relações fundamentais entre as palavras do inglês, disse o pesquisador Jacob Devlin, do Google, que supervisionou a criação de Bert.

Esse tipo de tecnologia é “um passo na direção de muitos objetivos da IA ainda muito distantes, como tecnologias capazes de resumir e sintetizar grandes volumes de informação para ajudar as pessoas na tomada de decisões importantes", disse Sam Bowman, professor da Universidade de Nova York. No mês passado, o Google “liberou o código” do seu sistema Bert, possibilitando que outros o utilizem para tarefas adicionais. Devlin e seus colegas já o treinaram em 102 idiomas. 

Mas há razões para o ceticismo diante da possibilidade de melhorias rápidas e contínuas dessa tecnologia, pois os pesquisadores tendem a se concentrar nas tarefas em que conseguem avançar, relegando os desafios mais difíceis, disse Gary Marcus, professor de psicologia da Universidade de Nova York. “Esses sistemas ainda estão longe de realmente compreender a prosa escrita", disse ele.

Mais conteúdo sobre:
inteligência artificial

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.