(Handout via The New York Times)
(Handout via The New York Times)

Inteligência artificial vai ajudar a definir a próxima tendência da moda

Algoritmos substituem compradores de roupas na escolha de diferentes estilos

Noam Scheiber, The New York Times

20 Julho 2018 | 15h00

Uma das camisetas mais vendidas do site indiano de comércio eletrônico Myntra tem uma estampa em verde oliva, azul e amarelo. A peça foi criada por um algoritmo de computador - na verdade, dois algoritmos.

O primeiro algoritmo gerava imagens aleatórias que tentava apresentar como peças de roupa. O segundo tentava distinguir entre essas imagens e as peças no inventário da Myntra. O primeiro algoritmo aprendeu a produzir imagens cada vez mais parecidas com roupas, e o segundo aprendeu a determinar se as imagens eram semelhantes a produtos, mas não idênticas a eles.

Esta troca entre dois polos, um exemplo do funcionamento da inteligência artificial, criou estampas cujas vendas estão “crescendo 100%”, de acordo com o diretor executivo da empresa, Ananth Narayanan. “Está funcionando.”

A criação de roupas é apenas a superfície visível das transformações que os algoritmos estão trazendo para as indústrias da moda e do varejo. Agora as empresas usam a inteligência artificial para decidir quais roupas manter no estoque e quais produtos recomendar aos clientes.

E a moda é um exemplo de como a inteligência artificial está afetando também os empregos mais bem pagos. Isso é especialmente verdadeiro para os empregos que se baseiam na identificação de padrões, seja na escolha de valores mobiliários ou no diagnóstico do câncer.

A indústria da moda ilustra como as máquinas podem interferir até mesmo com os trabalhadores mais conhecidos pelo trabalho criativo, e não pela fria análise empírica. Entre os mais diretamente afetados estão os compradores e planejadores que decidem quais peças devem constar no inventário de suas lojas.

Uma parte fundamental do trabalho de um comprador é identificar antecipadamente o que os consumidores vão procurar usando uma leitura das tendências atuais. “Com base no fato de que os sapatos de plataforma tiveram vendas de 500 pares no mês passado, talvez seja possível vender 1.000 no mês seguinte", disse Kristina Shiroka, que já foi compradora da Outnet, uma varejista online. 

“Mas, até lá, as pessoas já podem ter perdido o interesse e, por isso, reduzimos a compra.”

Os planejadores usam o retorno dos compradores para pensar nas misturas de peças - digamos, sandálias e calçados sem salto - que podem ajudar a empresa a alcançar suas metas de vendas.

Mas, no número cada vez maior de áreas da indústria nas quais os algoritmos funcionam livremente, é a máquina - e não o instinto do comprador - que frequentemente adivinha o que desejam os clientes.

Esse é o caso do Stitch Fix, serviço de styling online que envia aos clientes caixas de peças de vestuário cujo conteúdo eles podem usar ou devolver, e mantém perfis detalhados dos clientes para personalizar o acervo de produtos enviados.

O Stitch Fix recorre aos algoritmos para tomar suas decisões de compra. Esses algoritmos preveem quantos clientes estarão numa determinada situação, ou “estado”, nos meses futuros (como ampliar o guarda-roupa depois de conseguir um novo emprego), e o volume de roupas que as pessoas tendem a comprar em cada situação. Os algoritmos sabem os estilos que as pessoas de diferentes perfis tendem a favorecer, por exemplo, uma enfermeira que usa tamanho P e tem filhos.

A Myntra equipa seus compradores com algoritmos que calculam a probabilidade de um produto ser vendido com base no desempenho de vendas anteriores de roupas com características, cores ou tecidos  semelhantes.

Tudo isso trouxe incerteza para o futuro dos compradores e planejadores, profissionais cuja renda anual pode superar 100 mil dólares.

Nos varejistas mais convencionais, uma equipe de compradores e funcionários de apoio é designada para cada tipo de roupa, como de estilista ou casual, ou para cada categoria de vestuário, como vestidos ou blusinhas. Alguns varejistas têm equipes separadas para peças de malha e peças de tecelagem. Um grupo de planejamento de compras de produtos de vestuário pode empregar muitas pessoas.

Os compradores dizem que essa especialização os ajuda a compreender intuitivamente as tendências. 

“Vivemos tão imersos nisso que é como um sexto sentido", disse Helena Levin, compradora de varejistas como Charlotte Russe e ModCloth.

Mas os varejistas mais afeitos ao uso de algoritmos e do big data tendem a contratar menos compradores e a designá-los a uma ampla gama de categorias, em parte porque eles dependem menos da intuição.

O Bombfell, serviço de entregas de produtos semelhante ao Stitch Fix, mas voltado para o público masculino, depende de um único funcionário, Nathan Cates, para a compra de todas as peças de cima e acessórios.

A empresa criou ferramentas com algoritmos e big data para ajudar Cates, que disse usar essas ferramentas para prever com mais precisão a demanda por peças de vestuário em relação a um comprador de uma empresa tradicional. “Sabemos exatamente onde estão nossos clientes", disse ele. “Sabemos exatamente onde moram, quais são seus empregos e qual tamanho vestem.”

Mas há pelo menos uma área da indústria na qual as máquinas estão criando empregos em vez de eliminá-los. Bombfell, Stitch Fix e outros empregam um crescente exército de estilistas humanos que recebem de algoritmos recomendações de roupas que poderiam dar certo para um cliente, mas decidem sozinhos o que enviar.

Jade Carmosino, estilista do Trunk Club, concorrente do Stitch Fix, disse: “Se eles não se mostram claramente entusiasmados quando pergunto o que acharam [dos produtos recebidos], eu anoto a reação".

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