Maxim Babenko para The New York Times;
Maxim Babenko para The New York Times;

Acesso melhor à internet em cidade russa atrapalha domínio estatal

Agora, a internet relativamente sem censura está substituindo a TV controlada pelo Kremlin

Anton Troianovski, The New York Times

24 de outubro de 2019 | 06h00

NORILSK, RÚSSIA - Em uma tela, o sol da Califórnia reluz entre as folhas de uma palmeira. Esta ilha de minas e chaminés no meio da tundra tem internet rápida agora e, com isso, Andrei Kurchukov assiste vídeos a respeito dos Estados Unidos. Vídeos de uma de suas personalidades favoritas do YouTube, Marina Mogilko, apresentam entrevistas com outros russos expatriados nos EUA. “Los Angeles”, diz ela ao seu um milhão de seguidores, é “onde os sonhos russos se tornam realidade”. “Assisto a ela e penso: que pena”, afirmou Kurchukov. “Então, o que estamos exibindo a respeito do Ocidente podre é falso.”

Sem acesso rodoviário e mergulhada na escuridão 45 dias do ano, Norilsk, um centro de mineração de níquel de 180 mil habitantes, é a mais isolada cidade grande da Rússia. Sem um meio de conexão digital confiável com o restante do país, que chamam de “o continente”, os moradores costumavam passar as férias dentro de quartos de hotel, atualizando aplicativos e baixando livros e filmes em discos rígidos, para levá-los para casa.

Então, dois anos atrás, a gigante da mineração Norilsk Nickel, que tem sede na cidade, esticou um cabo de fibra ótica por 965 quilômetros, sobre a tundra e sob o Rio Ienisei. A internet mais rápida substituiu, de repente, a conexão de satélite vagarosa e instável que ligava a cidade ao restante do planeta.

Agora, a internet relativamente sem censura está substituindo a TV controlada pelo Kremlin enquanto janela para o mundo da população da cidade. E, enquanto isso ocorre, ficou mais difícil para Moscou conseguir manter as imagens cuidadosamente esculpidas de uma Rússia ressurgente e um Ocidente depravado. “Quando a internet era lenta, eu sabia menos a respeito das coisas ruins que ocorrem no continente”, afirmou Anastasia Oleynikova, uma dona de casa de 49 anos. “Está se tornando triste e deprimente pensar: o que o nosso país se tornou?”

Uma conta de Instagram denominada Norilsk Today, que frequentemente posta fotos de água suja saindo de torneiras e lixo não coletado espalhado pelas ruas, com o comentário - “Pelo menos na TV eles dizem que nossas vidas são maravilhosas” -, reuniu 54 mil seguidores, quase um terço da população da cidade. O governo russo está gastando milhões para expandir o acesso à internet de alta velocidade em regiões isoladas. Ao mesmo tempo, tem trabalhado para aumentar sua operação de propaganda na internet e criminalizou insultos ao governo.

Mas isso não tem impedido vídeos online com críticas ao presidente Vladimir Putin de obter dezenas de milhões de visualizações - enquanto cada vez mais russos acessam a rede. Quando teve início a era que os moradores de Norilsk chamam “da grande internet”, em 2017, “isso dava um barato doido, um prazer doido, uma euforia doida”, afirmou o programador Nikita Yakush. Facebook, YouTube e Instagram fizeram muito sucesso.

Yakush descobriu os protestos deste verão em Moscou em uma conta de Instagram especializada em animais fofos. Leonid Pryadko, um mineiro, soube dos incêndios florestais na Sibéria, pelos quais o governo russo foi criticado. Dentro de Norilsk, os poucos ativistas da cidade estão usando a internet para chamar a atenção de todo o país, criando uma maneira de pressionar o governo local e a Norilsk Nickel, maior empregadora e poluidora da cidade.

“Nós sabemos que agora somos vistos, que agora somos ouvidos”, afirmou Ruslan Abdullayev, um advogado de Norilsk que faz campanhas contra poluição e corrupção. O presidente da Câmara Municipal de Norilsk, Aleksandr Pestryakov, do partido Rússia Unida, de Putin, argumentou que um acesso melhor à internet tornou as pessoas mais retraídas e menos interessadas em participar da vida pública.

“A internet serve para descarregar a energia e nada mais”, afirmou Pestryakov. Vitaly Bolnakov, advogado e ativista, usou a internet para descobrir como se casar com seu namorado. No ano passado, o casal voou para a Dinamarca, obteve a certidão de casamento e postou um detalhado passo a passo de como realizar um casamento em um fórum LGBT. Assistir ao YouTube, disse ele, o tornou “russofóbico”. Ele vê como os direitos de seus compatriotas são violados pelo Estado e como é pequeno o número de russos que lutam contra isso.

A internet não mudará o fato de que Putin controla um gigantesco aparato de segurança capaz de esmagar qualquer revolta, afirma ele. Mas, pelo menos, agora as pessoas veem que é mais fácil tirar um sarro do governo. “A internet não consegue mudar nada fundamentalmente, mas derruba as autoridades moralmente”, afirmou Bolnakov. “Estamos rindo delas, entende?” Oleg Matsev colaborou com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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