Laboratório Nacional Lawrence, em Berkeley
Laboratório Nacional Lawrence, em Berkeley

Investidores demonstram pouco interesse em tecnologia climática

Na indústria da tecnologia, é mais fácil captar dinheiro para uma grande empresa do que para uma startup interessada em trabalhar com biotecnologia ou energia

Nathaniel Popper, The New York Times

17 de maio de 2019 | 06h00

SAN FRANCISCO - Com o dinheiro que ganhou vendendo sua última startup ao Google, Matt Rogers está investindo em empresas que tentam combater a mudança climática. Rogers, um dos fundadores da empresa de termostatos digitais Nest, destinou milhões de dólares a startups cujo objetivo é remover o dióxido de carbono da atmosfera. A tecnologia de remoção do carbono, como é conhecida, é algo que, de acordo com os cientistas, será provavelmente necessária para evitar um aumento extremo nas temperaturas globais.

Mas Rogers descobriu que poucos investidores estão dispostos a acompanhá-lo apostando em empresas que tentam combater a mudança climática. “Não precisamos de outro aplicativo de compartilhamento de fotos nem de outra startup de blockchain", disse Rogers, que investe seu dinheiro por meio do fundo Incite Ventures, que ele criou com a mulher, Swati Mylavarapu. “Precisamos de uma solução para a crise do carbono. Mas há muita gente procurando oportunidades fáceis de ganhar dinheiro em vez de assumir a responsabilidade pelo que precisa ser feito". 

Rogers conhece o raciocínio deles: na última vez que os investidores apostaram pesado em tecnologia com foco no meio ambiente, durante o boom da tecnologia limpa da década de 2000, eles perderam muito dinheiro. Mas ele não se deixa influenciar pela cautela dos outros. “Ficar sentado em cima de uma pilha de dinheiro enquanto o nível dos oceanos está aumentando pode não ajudar você a se manter seco", ironizou. 

Na indústria da tecnologia, o senso comum diz que é muito mais fácil captar dinheiro para uma empresa de tecnologia do que para uma startup interessada em trabalhar com biotecnologia ou energia. A onda atual de startups voltadas para a internet, que agora abrem seu capital, obtendo bilhões de dólares para os investidores, aprofundou os preconceitos contra a chamada tecnologia pesada.

O financiamento total para startups de tecnologia limpa teve queda durante a maior parte da década passada, de acordo com pesquisas da Pitchbook. Em 2018, US$ 6,6 bilhões foram investidos em tecnologia limpa, dos quais cerca de 15% foram destinados a startups de software. As startups de remoção de carbono obtiveram uma fração disso.

Duas importantes organizações científicas disseram no semestre passado que, para deter o aquecimento global, será necessário remover bilhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera. Alguns métodos para se alcançar esse resultado envolvem tecnologias à moda antiga, como plantar árvores. Mas há muitas startups desenvolvendo novas tecnologias para enfrentar o problema. 

Em um evento recente em San Francisco, várias dessas startups fizeram apresentações a investidores. Uma delas, a empresa Charm Industrial, queima biomassa vegetal para gerar hidrogênio, capturando os gases-estufa produzidos nesse processo. Noah Deich, fundador da organização, que patrocinou o evento, disse não ter visto o compromisso com o investimento que ele acredita ser necessário para fazer essas tecnologias funcionarem. “Em se tratando de empresas da internet, mesmo aquelas que ainda não têm um produto de verdade podem conseguir dinheiro para desenvolvê-lo", disse. “Aqui, é o contrário”.

As startups enfrentam um desafio fundamental: ninguém encontrou uma forma de transformar a captura de carbono em lucro. Muitas das startups presentes no evento em San Francisco tentam usar os gases-estufa para criar produtos químicos valiosos, como fertilizantes e biocombustíveis. Mas é muito mais barato produzir esses elementos químicos por meio de processos que emitem gases-estufa.“É algo que envolve grandes mercados e grandes desafios, mas isso não significa necessariamente que serão grandes negócios", afirmou Daniel Oros, sócio da G2VP, firma de investimentos voltada para tecnologias emergentes.

A empresa canadense Carbon Engineering, fundada em 2009, que extrai o dióxido de carbono do ar ao colocá-lo em contato com substâncias químicas formuladas especialmente para esse fim, anunciou no mês passado ter captado US$ 68 milhões para a construção de uma instalação comercial. Valeu-se principalmente de investimentos feitos por grandes empresas do petróleo.

Nesse mesmo período, a empresa de mensagens Slack, também fundada em 2009, captou mais de 10 vezes esse valor. Deepak Dugar, fundador de uma startup que cria micróbios que se alimentam de carbono, disse que os investidores precisam obter um retorno em questão de poucos anos. Ele sabia que sua empresa, Visolis, precisaria de mais tempo de desenvolvimento, e assim construiu-a com a ajuda de doações do governo e de investidores filantropos.

Mas Rogers disse que o dinheiro de grandes filantropos não será suficiente para atender às metas de redução de carbono definidas por organismos internacionais como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

Para tanto, destaca Rogers, será necessário o envolvimento de uma série de investidores. E eles terão de esperar mais do que três ou quatro anos para obter um retorno. “Tornou-se muito fácil criar uma empresa de software que gera muita riqueza. Boa parte do Vale do Silício foi atraída para essa perspectiva. Esqueceram suas raízes. Eles costumavam fazer coisas muito difíceis que consumiam tempo”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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