Blair Gable/Reuters
Blair Gable/Reuters

Investidores se afastam dos segmentos mais poluentes do petróleo

Credores e investidores, pressionados a agir sobre as mudanças climáticas, pararam de financiar os vastos empreendimentos de areias petrolíferas de Alberta

Christopher Flavelle, The New York Times

25 de fevereiro de 2020 | 06h00

Algumas das maiores instituições financeiras do mundo deixaram de investir seu dinheiro na produção de petróleo da província canadense de Alberta, que abriga uma das maiores - e mais poluentes - reservas de petróleo do mundo. Em dezembro, a gigante dos seguros The Hartford disse que deixaria de assegurar e investir na produção de petróleo na província, semanas depois de o banco central da Suécia ter anunciado que deixaria de aceitar obrigações financeiras de Alberta.

E, no dia 12 de fevereiro, a BlackRock, maior gestora de ativos financeiros do mundo, disse que um de seus fundos deixaria de investir em empresas que obtém alguma parte de sua receita das areias betuminosas. Esses estão entre os mais recentes investidores institucionais a se afastar dos investimentos em combustíveis fósseis em meio à crescente pressão para mostrarem que estão tomando alguma atitude para combater a mudança climática.

Apesar da pressão, a produção nas areias betuminosas continua a crescer em parte porque os bancos e fundos de pensão canadenses continuam dispostos a ceder crédito ao setor. Independentemente disso, o enfrentamento indica o potencial da indústria financeira de influenciar as políticas climáticas.

Alberta está resistindo ao desinvestimento. Em abril, os eleitores escolheram um líder provincial que prometeu castigar as empresas que abandonassem o financiamento da exploração das areias betuminosas. Então, em dezembro, Alberta criou aquilo que descreveu como sala de guerra para atacar quem quer que critique a indústria local do petróleo.

“Somos o alvo de uma campanha de interesses especiais financiada pelo estrangeiro", disse o premiê de Alberta, Jason Kenney, depois de ser eleito para o cargo no ano passado. Ele descreveu a origem da pressão como “dados distorcidos e manipulados fornecidos por grupos ambientalistas de esquerda".

Instituições financeiras de todo o mundo são cada vez mais pressionadas pelos acionistas e ativistas para que tirem seu dinheiro de indústrias que emitem grandes volumes de gases-estufa. O petróleo fez de Alberta uma das regiões mais ricas da América do Norte. Como o petróleo se encontra preso em formações geológicas cuja extração resulta na geração de mais energia (e, consequentemente, mais poluição), o setor é um alvo fácil inicial para os investidores ansiosos para mostrar que entenderam o recado.

Em dezembro, a firma de classificação de crédito Moody’s rebaixou a nota de Alberta para o nível mais baixo em 20 anos, citando a dependência da província em relação às areias betuminosas e o custo ambiental da extração desse petróleo. Alberta inaugurou sua sala de guerra com um orçamento de 30 milhões de dólares canadenses. Uma de suas primeiras produções, criada para parecer um artigo de jornalismo online, atacava uma ONG que ensinava crianças a respeito da mudança climática.

A exploração das areias betuminosas leva a cerca de 70% mais emissões de gases-estufa por unidade de energia do que a média global, de acordo com pesquisas publicadas pela revista Science. Dos 90 que tiveram a produção de petróleo estudada, poucos geravam mais emissões de gases-estufa por barril.

A campanha de desinvestimento ainda não diminuiu a produção do setor. Foi extraído mais petróleo das areias betuminosas no ano passado do que em qualquer outro ano que se tenha registro, de acordo com dados fornecidos pela Associação Canadense de Produtores de Petróleo.

O diretor executivo da Caisse de Dépôt et Placement du Quebec, Michael Sabia, disse que a caixa segue investindo em empresas das areias betuminosas, mas pressiona essas empresas para que reduzam as emissões. “Qual é o resultado do desinvestimento? Tudo que se consegue com isso é uma manchete de jornal", disse Sabia. “Isso não significa fazer nada para conduzir uma organização para que contribua positivamente para a transição energética pela qual o mundo precisa passar.” Jeanna Smialek contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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