Jeenah Moon The New York Times)
Jeenah Moon The New York Times)

Não consegue comprar itens de luxo? Você pode investir neles

Interesse em investimentos fracionários cresceu à medida que a pandemia forçou mais pessoas a ficarem em casa

Paul Sullivan, The New York Times - Life/Style

15 de agosto de 2020 | 21h00

Antonella Carbonaro, consultora financeira de empresas de tecnologia, economizou muito para comprar sua Birkin, uma bolsa de luxo feita pela Hermès, vendida por dezenas de milhares de dólares. Desde que recebeu sua bolsa em 2018, Carbonaro a deixava guardada no armário, tirando-a apenas em ocasiões especiais.

Mas, quando soube que havia um mercado para comprar ações de outras Birkins, incluindo versões mais estravagantes, que podem chegar a seis dígitos, ela logo topou. Não é brincadeira. Carbonaro, de 30 anos, vê suas ações de uma bolsa exclusiva como uma alternativa de investimento, não diferente das participações em fundos de private equity que investem num portifólio de empresas.

“É um jeito visual de ter de diferentes tipos de artigos que não são tão acessíveis”, disse Carbonaro. “Investir em ações de bolsas Birkin, embora eu já tenha uma, é ganhar mais exposição”. No ano passado, ela comprou 10 ações de uma bolsa Bleu Lézard Birkin, avaliada em US$ 61,5 mil. Neste ano, numa oferta em maio, comprou 25 ações de uma Himalaya Birkin cinza, avaliada em US$ 140 mil. Mas, diferentemente de possuir a parte fracionada de um condomínio, ela nunca poderá usufruir de seu investimento. As ações são negociadas até que o dono venda o ativo.

O primeiro investimento de Carbonaro está sendo negociado 6% acima do preço de compra na Rally Rd., uma plataforma que lida com investimentos fracionários em itens colecionáveis. O segundo ainda está bloqueado e suas ações ainda não podem ser negociadas.

O mercado de investimento em frações de itens até então vistos como colecionáveis – e, em grande parte, reservado para as pessoas mais ricas – viu um aumento no interesse durante a pandemia, com as pessoas passando mais tempo dentro de casa. A Rally Rd. começou vendendo ações de carros exóticos há vários anos, mas se expandiu para arte, livros, vinho e uísque, memorabilia e bolsas Birkin.

“No início, era como os mercados de ações: apenas investimentos seguros e de primeira linha”, disse Rob Petrozzo, fundador e diretor de produtos da Rally Rd. “Nos últimos meses, vimos que as pessoas dentro de casa estavam acessando mais informações e explorando mais o aplicativo”. Ele disse que os investidores presentes na plataforma dobraram o número de itens dos quais possuem ações. As ofertas iniciais foram vendidas cinco vezes mais rápido do que antes da pandemia de coronavírus, com os novos investidores comprando as ações com mais avidez.

Para atender ao interesse crescente, a MyRacehorse, que vende ações de cavalos de corrida com participações bem menores do que as vendidas por consórcios de corridas tradicionais, fez parceria com uma fazenda de criação de cavalos, a Spendthrift, para estender o alcance dos investimentos. Antes, seu modelo era vender o cavalo quando ele parava de correr. Agora, os investidores podem participar das taxas de criação, as quais podem ser muitas vezes maiores que os valores dos prêmios das corridas.

O movimento fracionário não se limita aos itens de luxo. Fidelity, o gigante dos fundos mútuos, oferece “ações por fatia”, nas quais você pode comprar uma parte de uma ação a partir de US$ 1. E muitos fundos de private equity, que têm altos investimentos mínimos e longos períodos de bloqueio, criaram versões de fundos mútuos de seus fundos.

Eugene Olmstead, executivo de tecnologia aposentado, disse que tinha 1% a 1,5% de 11 cavalos, todos comprados por meio de sua conta de aposentadoria individual. “Você não vai ter muito retorno sobre o seu investimento a menos que tiver uma certa porcentagem”, disse Olmstead, de 58 anos. “Fiz minhas pesquisas e estou investindo em ações que acredito que no longo prazo darão um retorno decente”.

Dos 11 cavalos dos quais ele comprou ações, apenas dois têm idade suficiente para correr. Ele disse que ambos tiveram ganhos médios de US$ 12 mil por corrida. Ele recebeu alguns dividendos dessas corridas, mas disse que o dinheiro ainda não era substancial. “É um dinheiro de que não preciso agora”, disse ele. “Isso me dá a chance de esperar por mais retornos”.

Outro proprietário de ações fracionárias de cavalos, David Falo, de 58 anos, comparou a compra de participações em cavalos jovens ao investimento em empresas de plataformas privadas antes da oferta pública. “Pode ser que o cavalo não vá bem ou que se machuque”, disse ele, “mas isso vai te dando um friozinho na barriga gostoso ao longo do caminho”.

Há muitos sinais de alerta. As negociações no Rally Rd. e no MyRacehorse são feitas por meio de aplicativos, o que facilita a compra e venda e cria uma comunidade. Mas os aplicativos transformam os investimentos em jogos, como aconteceu com o aplicativo de negociação de ações Robinhood. Isso pode distorcer as consequências financeiras de investimentos mal pensados. Para agravar o risco, um artigo geralmente comprado para usufruto pessoal ou para se gabar não pode ser analisado da mesma forma que um investimento de capital privado.

“Pode haver potencial de retorno, mas quem garante?”, disse Jack Ablin, diretor de investimentos da Cresset Capital. “Não há liquidez nem controle. Quando você receberá seu dinheiro de volta? Você não sabe. O outro problema é que os custos de manutenção podem ser altos”. No caso das ações dos cavalos de corrida, despesas como treinamento e transporte são compartilhadas da mesma forma que os lucros. “Você tem participação total do cavalo”, disse Michael Behrens, fundador da MyRacehorse.

Outra questão é que comprar esses ativos em fatias pode significar que uma pessoa está pagando mais do que pagaria se pudesse comprar o ativo inteiro, e isto pode prejudicar os retornos ou dificultar a revenda do ativo. “É um risco alto. Eu nunca negaria esse fato”, disse Behrens. “Não estamos tentando construir uma plataforma que diz que terá uma classe de ativos realmente boa. Muitos cavalos foram comprados por US$ 1 milhão e nunca chegaram às pistas de corrida”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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