Eirini Vourloumis para The New York Times
Eirini Vourloumis para The New York Times

Investimentos externos impulsionam revitalização da Grécia

Compradores de propriedades melhoram economia grega, mas preço dos imóveis dispara

Liz Alderman, The New York Times

01 de abril de 2019 | 06h00

ATENAS - Menos de um ano depois de ser beneficiada por uma operação de ajuda internacional multibilionária em euros, a Grécia assiste a um considerável boom econômico. Hotéis modernos com a visão da Acrópole destacam-se no horizonte. E cidadãos gregos necessitados de recursos reformam suas casas para alugá-las por curto prazo ou as transformam em novas casas sofisticadas para estrangeiros ou então anunciá-las no Airbnb. Milhares de imigrantes que buscam vistos, entre eles uma parcela significativa de investidores chineses, chegam à procura de imóveis que lhes darão uma base para permanecer na Europa.

Muitos proprietários locais, pressionados pela prolongada crise financeira da Grécia, querem aproveitar da abertura de novas possibilidades vendendo apartamentos ou alugando suas casas a turistas em uma verdadeira febre que está rapidamente modificando o mercado de imóveis residenciais. Os recém-chegados buscam os chamados vistos dourados da Grécia, graças aos quais os investidores podem gastar 250 mil euros em uma moradia a fim de obter um visto renovável.

Entretanto, esta reviravolta tem um custo. Se por um lado, o aumento dos preços dos imóveis beneficia os proprietários, por outro, os inquilinos são obrigados a se mudar. “A mesma coisa aconteceu em Barcelona, onde todo mundo foi obrigado a deixar o centro”, disse Maria Dolores, uma jovem artista que morava na cidade espanhola antes de mudar para Atenas, há quatro anos. Em novembro, ela e três colegas foram despejados de um apartamento onde pagavam um aluguel de 400 euros por mês.

Carrie Law, diretora de um grupo de investimentos imobiliários com sede em Hong Kong, afirmou que a Grécia se tornou uma dos principais destinos de cidadãos de classe média da China. É que neste país eles se sentem confortáveis porque grandes companhias chinesas estatais investiram aqui. Ela contou que alguns clientes muitas vezes chegam de avião à Grécia com malas de dinheiro, a maneira mais fácil de tirar os seus recursos da China.

Os preços dos imóveis gregos estão se recuperado de uma queda de 40% começada em 2010. A Grécia quase faliu e foi obrigada a sair da zona do euro em 2015, mas a estabilidade lentamente voltou, com a revitalização do turismo, que explodiu com um recorde de 33 milhões de visitantes no ano passado. Dezenas de hotéis e resorts estão sendo inaugurados ou serão em breve, informa a Enterprise Greece, a agência do governo que promove investimentos.

Fundos de private equity também estão investindo em trustes de investimentos imobiliários gregos. Alguns estão comprando títulos garantidos por hipotecas ou imóveis, vendidos por bancos gregos que procuram descarregar empréstimos problemáticos acumulados durante a crise.

A dependência da Grécia de uma ajuda financeira superior a 320 bilhões de euros, ou cerca de US$ 360 bilhões, do Fundo Monetário Internacional, se encerrou em 2018, e os preços dos imóveis subiram cerca de 2%, segundo o Banco da Grécia. Os investimentos imobiliários cresceram 20%. Os investidores converteram suas propriedades em imóveis para turistas por prazos curtos e aluguéis que quadruplicaram em cinco anos, reduzindo o número das habitações com preços acessíveis para os cidadãos gregos médios.

Argiro Fouraci, 29, decidiu alugar cinco apartamentos que há anos pertenciam à família. Professora, ela perdeu o emprego durante a crise, e enfrentou muitas dificuldades até oferecer os apartamentos, no famoso bairro de Koukaki, perto da Acrópole, por intermédio da Airbnb. Agora, recebe cerca de 400 euros por mês de cada imóvel, o que também lhe permite ajudar os pais, de mais de 60 anos, cujas aposentadorias sofreram um corte considerável.

“A maioria dos meus amigos ainda está desempregada. Agora eu posso ter uma vida e ajudar a minha família”. Stavros Siempos, 53, proprietário de uma mercearia em Koukaki, explicou sua situação. “Não temos mais vizinhos gregos, temos vizinhos da Airbnb”. Mas é bom para o negócio, acrescentou. “Estamos bem melhor agora, por causa do dinheiro dos turistas”.

O programa de vistos atraiu cerca de 10 mil investidores dos países fora da União Europeia, o que significa um aporte de 1,5 bilhão de euros para o setor imobiliário grego nos últimos cinco anos, segundo a Enterprise Greece. Lefteris Potamianos, presidente da Athens-Attica Real Estate Association, disse  que em algumas áreas os vistos elevaram os preços dos aluguéis em até 30%.

Dolores contou que um investidor estrangeiro também comprou um edifício onde funcionava a empresa na qual trabalhava, uma organização não-governamental, que também abrigava um centro de atividades para crianças. “Além das pessoas e das famílias, os espaços coletivos e as redes de bairro também estão sendo despejados e desaparecendo do mapa”. “É como um efeito dominó. E os mais vulneráveis acabam sendo excluídos”. / Echo Hui contribuiu para a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.