Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Ioga ajuda aldeia chinesa a voltar à vida

Exercício tem o objetivo de levar saúde e vitalidade a um vilarejo distante e remoto, onde a idade média é de 65 anos

Sui-Lee Wee e Elsie Chen, The New York Times

02 Agosto 2018 | 10h15

YUGOULIANG, CHINA - Lu Wenzhen, a principal autoridade desta aldeia, tinha um problema. Os jovens haviam partido. Os camponeses idosos que restavam estavam doentes. A sua aldeia precisava de dinheiro. De vida. Uma centelha de vida.

Então, dois anos atrás, um dia viu uma mulher de 60 anos sentada de pernas cruzadas sobre uma kang, um leito de pedra, comum no interior do norte do país. Neste momento, teve uma ideia brilhante: “ioga”.

Era um plano ousado que parecia fora de lugar em Yugouliang, uma aldeia de pouco menos de 100 habitantes, na província de Hebei, longe das academias e das lojas de comida saudável em lugares como em Pequim e Xangai. Era tão remota que a estação ferroviária mais próxima ficava a duas horas de distância. A internet chegara dois anos antes. A idade média de um habitante de Yugouliang era 65 anos. Eles vivem cuidando das vacas e das ovelhas e lavrando seus pedacinhos de terra.

Na China rural, pelo menos 50 milhões de chineses idosos ficaram para trás, esquecidos pelo boom econômico do país, mostram dados oficiais. Muitos deles lutam contra a pobreza e a depressão.

Ioga? Os moradores de Yugouliang estavam incrédulos. Nunca tinham ouvido falar em ioga. Será que o secretário Lu, como o chamavam, estava querendo levá-los para algum culto? Havia outro problema: Lu, 52, anos, nunca havia tido aulas de ioga. “Eu não podia dizer a eles que não sabia por onde começar,” contou.

A internet foi seu guia. Assistiu a muitos vídeos, olhou fotos. Tinha perfeita consciência de que atrair velhos camponeses para fazer ioga seria uma tarefa complicada. Para conquistá-los, comprou luvas e esteiras para ioga.

Nas primeiras sessões, compareceram apenas alguns. Lu começou bem devagar. Primeiramente, ensinou-lhes exercícios de respiração, depois tentou posições simples de pernas cruzadas.

Não demorou muito, outras pessoas começaram a aparecer. E também não demorou para elas tentarem posições mais ambiciosas.

Em fevereiro de 2017, o Departamento Geral de Esportes do Estado conferiu a Yugouliang o título de “primeira aldeia de ioga da China”. Mas foi somente no ano passado que Lu considerou que os seus velhinhos estavam suficientemente preparados para competir. Inscreveu-os então numa competição em Shijiazhuang, a capital da província. Eles ganharam o prêmio de “melhor equipe coletiva”.

O governo diz que destinou a Lu US$ 1 milhão para a construção de uma casa de repouso e um pavilhão para a prática de ioga.

Mas o seu objetivo de criar um boom do turismo talvez seja difícil de alcançar. A aldeia é de difícil acesso e não oferece qualquer conforto. Mesmo assim, Lu encara a situação com otimismo. Os moradores, fortalecidos pela prática da ioga, acabam representando uma economia de gastos com saúde.

A ioga se tornou parte de sua rotina diária. Muitos a praticam às 5h30 e depois levam as vacas e as ovelhas para pastar; fazem então a primeira refeição do dia, cuidam da lavoura, trabalham nos campos, almoçam, descansam, voltam para os campos, fazem os exercícios de ioga das 17h30, e então jantam.

Lu foi enviado para cumprir sua tarefa em Yugouliang em 2016, segundo a antiga prática do partido de mandar seus quadros para áreas menos desenvolvidas. Como centenas de outros quadros na China rural, sua função era aliviar a pobreza até 2020, uma das metas de campanha do presidente Xi Jinping.

Em Yugouliang, Jing Wanshan, 68, contou que os anos de caminhadas para levar as ovelhas aos pastos provocaram dores nas pernas. Antes, ele mal conseguia dar uma ou duas voltas na quadra para se exercitar. Agora, consegue dar 20.

Lu pretende transformar Yugouliang em uma base de treinamento de ioga para camponeses de toda a China, o que, na sua opinião, acabará atraindo turistas também.

“Todas estas coisas não passam de sonhos por enquanto”, afirmou. “Mas a gente precisa sonhar”.

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