Arash Khamooshi
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Iranianos festejam à medida que tabus perdem força

País do Oriente Médio não consegue mais apoio da população para manter regras mais rigorosas

Thomas Erdbrink, The New York Times

10 Junho 2018 | 15h24

TEERÃ - Para chegar ao salão de casamento Emarat, é preciso dirigir para fora de Teerã e para o interior até uma entrada marcada apenas com um número. Ali, um segurança verifica os nomes na lista de convidados e os conduz a um grande estacionamento separado da rua por uma divisória.

Ao sair do carro, caminha-se por uma série de passarelas arqueadas atravessando um exuberante jardim que termina numa grande porta de madeira. É a entrada para o salão principal, que, neste dia, está cheio de mesas decoradas com flores e iluminadas com a chama de dúzias de candelabros.

A festa, celebrando o casamento de Amir Hashemi e sua noiva, Melina Hashemi, já está em andamento. Homens de smoking e mulheres usando vestidos reveladores vão para a pista dançar uma das favoritas, o clássico do pop “As mais bonitas têm que dançar", do cantor iraniano exilado Andy. Os casais conversam e alguns bebem das pequenas garrafas d’água de plástico.

Os participantes estão infringindo nada menos que seis das leis fundamentais da república islâmica: mistura dos dois gêneros, mulheres mostrando parte do corpo e abrindo mão do lenço sobre a cabeça, dança, música pop e consumo de álcool (as bebidas feitas com vodca nas garrafas d'água).

Em outra era, todas essas ofensas seriam castigadas com chibatadas ou sentenças de prisão. Algumas, como não usar o lenço ou beber álcool, ainda são.

Nos casamentos tradicionais, homens e mulheres comemoram em ambientes separados. Quando se encontram, depois da festa, não é permitido que deem as mãos, pois todo o contato físico é proibido. Mas o casamento dos Hashemi ilustra como as antigas regras estão cedendo.

“Nem pensaríamos em fazer uma festa tradicional", diz Hashemi, 36 anos.

“Queremos festejar com todo mundo", afirma Melina.

Há até cerca de uma década, o risco de ser apanhado pelas forças de segurança seria alto. Mas, hoje em dia, ao menos em Teerã, os jovens casais podem escolher no Instagram entre dúzias de salões para seus casamentos, e alguns são empreendimentos grandes, com segurança, bufê, DJs, bandas e fogos de artifício. Esses lugares, como o Emarat, são investimentos de longo prazo cuja construção custa milhões de dólares.

Os eventos ainda são ilegais, e às vezes a polícia aparece, talvez para receber algum suborno, mas os casamentos mistos já se tornaram uma indústria significativa aqui, e os estabelecimentos recebem festas quase toda noite.

“A demanda por casamentos modernos é tão grande que o governo decidiu tolerar esses eventos na maioria dos casos", disse Asal Rastakhiz, 36 anos, conhecido fotógrafo de casamentos.

Quando milhões aderiram à revolução religiosa em 1979, as leis islâmicas mais rigorosas tinham amplo apoio. Mas, poucas décadas depois, o consenso começou a se desfazer. Apesar de monopolizar a política, o sistema de ensino, os tribunais, as forças de segurança e a maioria dos veículos jornalísticos do Irã, faz tempo que os líderes conservadores do país estão perdendo terreno.

“Esta teocracia governante está encalhada na própria ideologia que professa, que não é clara e previsível", diz Shahla Lahiji, editor e ativista dos direitos civis. “Não é capaz nem mesmo de aceitar uma vírgula de mudança nas leis e só tolera a mudança se for obrigada a fazê-la pelo povo.”

O pêndulo pode oscilar muito no Irã, com períodos de relativa liberdade seguidos por campanhas de repressão. Mas a maioria dos iranianos diz que as mudanças em curso são tão generalizadas e amplamente aceitas que seria necessário um cataclisma para revertê-las.

Em um dos três endereços do Sam Café em Teerã, Dua Lipa tocava em alto e bom som nos alto-falantes, sendo que há poucos anos apenas música instrumental era permitida. Jovens estavam sentados com MacBooks bebendo café como se a capital da república islâmica fosse apenas outra cidade de um mundo mais amplo.

“A mudança social não é reversível no Irã, porque as condições mudaram; a maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras e interagem entre si mudou", disse o jornalista Nader Karimi Joni.

Faz tempo que a vestimenta é um campo de batalha entre os iranianos e seu governo. Além do uso compulsório do véu, as mulheres precisam usar um sobretudo fechado que chega até os joelhos. Os homens não podem usar calças curtas e, durante décadas, apenas os médicos podiam usar gravatas, há muito vistas como símbolos do Ocidente.

Mas os iranianos sempre encontraram maneiras criativas de quebrar as regras. Atualmente, os casacos abertos são a última moda entre as mulheres. O estado desistiu de policiar a vestimenta, a não ser pelas calças curtas e lenços na cabeça.

“Estamos sempre mudando, mas o establishment governante não tem teoria ou visão de como administrar o país", diz o sociólogo Hojat Kalashi. “O que está claro é que este conflito entre uma sociedade em gradual transformação e leis rigorosas não pode durar para sempre.”

Alguns levam a questão ainda além, arrependendo-se de terem perdido uma oportunidade para codificar as mudanças.

“Deveríamos ter pressionado mais por mudanças nas leis, e deveríamos ter estimulado as pessoas a irem às ruas", acredita Hamidreza Jalaeipour, político reformista e professor de sociologia. “Simplesmente fracassamos em sacramentar tudo isso por escrito.”

 

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