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Iranianos protestam contra fracasso da política econômica do país

Classe média do Irã está insatisfeita com a queda significativa do rial, mas governo não se sente ameaçado

Thomas Erdbrink, The New York Times

08 Agosto 2018 | 10h15

TEERÃ - Em todo o Irã os protestos estão ocorrendo com uma intensidade cada vez maior nos últimos meses. Algumas manifestações - contra a fragilidade da economia, as rigorosas normas islâmicas, as reivindicações locais - provocaram várias mortes. Os manifestantes gritam frases de ordem contra os líderes clericais e suas medidas. Os eventos são compartilhados nas redes sociais.

No dia 2 de agosto, houve protestos nas cidades de Arak, Isfahan, Karaj e Shiraz; as pessoas foram às ruas, gritando frases como "Morte aos preços altos", mas também críticas às autoridades. Um protesto menor ocorreu em Teerã, onde algumas pessoas foram presas. Na cidade de Eshtehard, manifestantes atacaram uma escola religiosa, obrigando 500 clérigos em treinamento a fugir, segundo a agência de notícias semioficial Tasnim. Os caminhoneiros que entraram em greve em maio reivindicando aumento dos salários recentemente voltaram a parar, deixando alguns postos de gasolina vazios.

A moeda do Irã, o rial, perdeu cerca de 80% de seu valor em comparação ao ano passado, em parte porque, em maio, o governo Trump tirou os Estados Unidos do acordo nuclear e restabeleceu as sanções econômicas, a primeira série das quais entrou em vigor no dia 6 de agosto.

O presidente do Irã, Hassan Rohani, que apoiou o acordo nuclear, enfrenta críticas não apenas dos defensores de linha-dura, mas também dos iranianos que votaram nele - a vasta classe média. Ambos os grupos afirmam que sua política econômica fracassou.

Os ativistas admitem que as manifestações não ameaçam a liderança do Irã. "Preciso admitir que o Estado, sua máquina de segurança e propaganda, é capaz de manipular a opinião pública com grande sucesso e de convencer as massas de que a situação está a seu favor, e de que mudar seria dispendioso demais", disse o ativista político Bahman Amoei.

Entretanto, para o país de 80 milhões de habitantes, a lista cada vez mais longa das manifestações é considerável. Em julho, os vendedores do mercado de Teerã protestaram contra os altos preços e entraram em confronto com as forças de segurança. Os manifestantes na cidade de Khorramshahr enfrentaram a polícia durante dias por causa da escassez de água. As mulheres protestaram contra a obrigatoriedade islâmica do lenço na cabeça. Em março, manifestações por causa da escassez de água chegaram a Isfahan, a terceira maior cidade do Irã. Em Kazeroun, duas pessoas morreram em confrontos motivados pelo plano de correção de suas fronteiras.

Vídeos mostram que os manifestantes desafiaram a política externa e as normas religiosas do Irã. Em razão das restrições às viagens impostas aos repórteres estrangeiros, é difícil determinar as dimensões desses atos. Entrevistas em Teerã sugerem que os manifestantes estão exasperados com o que para muitos não passa de incompetência.

"Há dias recebemos más notícias, nossos corações estão cheios de raiva", disse Hassan Seyedi, um vendedor do mercado Alaedine de Teerã. Nos últimos meses, ele e seus colegas foram para a rua. Em frente ao edifício do Parlamento, uma multidão gritava: "Morte aos figurões parasitas!"

Os protestos complicam ainda mais a terrível situação que os líderes do Irã enfrentam com a restauração das sanções americanas. Os investidores estrangeiros estão deixando o país, e o governo, antecipando a redução das receitas petrolíferas, determinou restrições ao uso de moedas fortes. Isso acelerou o declínio do rial, aumentando a raiva que parece ter como alvo mais a liderança iraniana do que os Estados Unidos.

Os defensores de linha-dura minimizaram os protestos. "Cerca de cem pessoas vão para a rua em cidades de cinco milhões de habitantes", disse o analista político Hamidreza Taraghi. "As potências estrangeiras querem tirar proveito de nossos problemas econômicos e criar a tumultos".

Os líderes do Irã têm muita dificuldade para manter o país funcionando. As disputas levam a acusações diárias de corrupção. "Há uma incompetência em todos os níveis", disse o sociólogo Hojjat Kalashi, que foi impedido de deixar o país. "Nossas autoridades continuam esperando algum tipo de reviravolta internacional, de um acordo que solucionará tudo, mas, na realidade, elas não dispõem de estratégia alguma".

No Grande Mercado de Teerã, o comerciante Mostafa Arabzadeh contou que tem a impressão de que os manifestantes estão fazendo o jogo dos inimigos do Irã. "As pessoas revoltadas se esquecem de que temos uma coisa que o resto dos países da região não tem: paz e estabilidad. É algo que deveríamos prezar".

Mas muitos acreditam que os protestos continuarão. "As pessoas não têm mais medo de mostrar a própria insatisfação", afirmou o editor Abolghasem Golbaf.

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