Ivor Prickett para The New York Times
Ivor Prickett para The New York Times

Iraque tenta impedir entrada do coronavírus por fronteira com Irã

O fluxo de pessoas entre os dois países começa a ser reduzido por oficiais

Alissa J. Rubin, The New York Times

18 de março de 2020 | 06h00

ZURBATIYA, IRAQUE - O tom de raiva aumentou entre as vozes do grupo de pessoas que se reuniu no lado iraquiano da fronteira com o Irã. Dois diplomatas iranianos estavam tentando tirar parentes do Irã, onde o número de casos de coronavírus aumenta cada dia mais, e levá-los para o Iraque. "Estou lhe dizendo que seus nomes foram enviados", disse um dos iranianos, parecendo irritado.

"Estou olhando aqui, não vejo o nome deles", disse o brigadeiro-general Ahmed Juma Abid, da polícia de fronteira do Iraque, enquanto segurava nervosamente um monte de papéis grampeados. "Não posso deixá-los entrar, a menos que Bagdá tenha enviado seus nomes."

Os diplomatas começaram a fazer ligações em seus celulares. De um lado, estava o assunto da disputa, várias mulheres, com abayas (roupas folgadas que se assemelham a um vestido e são usadas por mulheres em territórios muçulmanos) e véus pretos que cobriam quase completamente os olhos, e três filhos: uma menina e dois meninos.

Essa foi a cena na passagem da fronteira de Zurbatiya, no centro do Iraque, há poucos dias, quando os guardas da patrulha da fronteira lutavam para impedir a entrada do coronavírus, um inimigo invisível que é tão hábil em se esconder quanto o mais sofisticado contrabandista.

A fronteira com o Irã - aliado próximo e parceiro comercial do Iraque - tem sido amplamente permeável, com famílias vivendo em ambos os lados e peregrinos religiosos muçulmanos xiitas indo e voltando. Mas a pandemia fez com que isso mudasse da noite para o dia, após o Irã se tornar um dos epicentros do surto de coronavírus.

Cerca de 500 mil iraquianos vivem no Irã e dezenas de milhares retornaram desde que o vírus eclodiu. Eles são estudantes, empresários, trabalhadores da construção civil e professores que viviam no Irã há anos. Suas histórias também oferecem um reflexo da situação no Irã, que tem sido amplamente escondida dos próprios cidadãos do país e do mundo, enquanto a liderança em Teerã se esforça para projetar uma imagem de ter tudo sob controle.

Em 9 de março, Jowad Abu Sajat atravessou rapidamente a fronteira, trazendo consigo uma mala pequena. "Está um desastre por lá", disse ele. O Irã fechou escolas e universidades, proibiu viagens entre províncias e cancelou eventos esportivos e orações na sexta-feira, disseram vários dos que retornaram para o Iraque. Os cafés estão fechados, assim como museus e cinemas.

Para Mazin Abbas Absawi, a decisão de deixar a cidade de peregrinação iraniana de Qum foi difícil. Ele estuda religião em um seminário lá há quatro anos. Embora o lugar tenha sido fechado no mês passado por causa do coronavírus, ele agora sente mais como se o Irã fosse sua casa do que o Iraque.

Mas com seis filhos e sua extensa família com ele, sentiu que permanecer na cidade onde o vírus provavelmente começou no Irã era um risco muito grande. "No Irã, ninguém sabia o quão ruim era o vírus, ninguém", disse ele. “Ouvimos falar sobre isso na China, mas tudo bem, era a China. E então ouvimos falar disso no Irã, mas não de muitos casos. Mas, lentamente, lentamente, o vírus começou a se espalhar.”

Sua família de 13 membros atravessou a fronteira silenciosamente. Eles estavam em uma fila na tenda médica, de frente para os parentes dos diplomatas iranianos, que estavam sentados nas poucas cadeiras esperando que seu problema fosse resolvido. Os diplomatas iranianos e seus parentes pareciam preocupados, mas nenhum estava usando máscaras ou luvas.

Já a família Absawi estava totalmente coberta: do mais novo ao mais velho, cada um usava uma máscara e luvas protetoras de plástico. As luvas eram tão grandes para as crianças mais novas que parecia que elas tinham acabado de enfiar as mãos em sacos plásticos. "Se vou morrer, sinto que prefiro morrer no meu próprio país", disse Absawi enquanto se dirigia para sua província natal, Muthanna, no sudoeste do Iraque. / Falih Hassan contribuiu com reportagem. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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