Paulo Nunes dos Santos / The New York Times
Paulo Nunes dos Santos / The New York Times

Habitação a preços acessíveis é força motriz na política irlandesa

Os preços das casas explodiram depois do colapso financeiro, subindo 90% em Dublin desde 2012, o que empurrou as pessoas para o mercado de aluguel privado

Benjamin Mueller, The New York Times

05 de março de 2020 | 06h00

DUBLIM - Quando a economia da Irlanda afundou em 2008, um êxodo em massa de jovens deixou o país em busca de lugares mais prósperos. Mas agora que o país se recuperou e se tornou a economia que mais cresce na Europa, muitos continuam com dificuldades para permanecer ali. “Tive ataques de pânico no chuveiro, tudo por causa de dinheiro e moradia”, disse Catherine O'Keeffe, de 29 anos.

A Irlanda está enfrentando uma crise imobiliária que deixou milhares de pessoas desabrigadas. E isso desassossegou os eleitores irlandeses do consenso de centro-direita que domina a política irlandesa desde 1932.

O Sinn Fein, partido de esquerda há muito considerado um pária por seus laços com o Exército Republicano Irlandês (IRA), subiu para o segundo lugar nas eleições gerais da Irlanda no mês passado. Rompendo com as políticas governamentais favoráveis aos proprietários de imóveis, o partido propôs congelar os aluguéis e construir 100 mil novas casas. “Este é o primeiro exemplo de um partido popular de esquerda que realmente consegue capturar o descontentamento dos inquilinos mais jovens no norte da Europa”, afirmou Ben Ansell, professor da Universidade de Oxford que estudou as ligações entre o mercado imobiliário e o populismo.

Os preços das casas explodiram depois do colapso financeiro, subindo 90% em Dublin desde 2012. Isso empurrou as pessoas para o mercado de aluguel privado.

A disparada dos aluguéis – ainda mais impulsionada, dizem os críticos, por um sistema de subsídios equivocado – está tomando grandes parcelas do salário dos jovens, tornando praticamente impossível economizar para a compra de uma casa. E as poucas proteções aos inquilinos da Irlanda permitem que os proprietários os expulsem quando bem entendem.

Brian Breathnach, de 61 anos, disse que se lembrava de quando “as pessoas saíam da casa dos pais para comprar a própria casa”. Isso acabou. Ele e sua esposa passaram 18 anos em uma lista de espera para moradias públicas antes de se mudarem para um complexo habitacional acessível no verão passado. “Parece um leilão de arte, onde as coisas ficam cada vez mais raras e fora do alcance das pessoas comuns”, comparou Breathnach. “E, na minha opinião, as moradias não podem ser tratadas como diamantes ou obras de Rembrandt”.

Una Mullally, escritora de Dublin, disse que os eleitores estavam reagindo a uma recuperação econômica que ainda parecia se acumular nos bolsos dos ricos. “Essa eleição é uma espécie de eco ou reação atrasada à crise e às políticas de austeridade que foram implementadas”, explicou. “As pessoas estão dizendo: ‘Bom, se a economia está indo muito bem, por que o custo de vida está tão alto?’”.

O’Keeffe, que foi despejada duas vezes, disse que um senso de transitoriedade paira sobre a vida dos jovens de Dublin. “É estranho não ser dona do lugar em que você mora”, lamentou. “Eu amo Dublin, eu amo a Irlanda, mas você fica sempre com esse sentimento de que nada lhe pertence”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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