Paulo Nunes dos Santos para The New York Times
Paulo Nunes dos Santos para The New York Times

Irlanda enfrenta problemas com grave crise imobiliária

Número de sem-teto no país aumentou quase 400% nos cinco anos mais recentes

Ed O’Loughlin, The New York Times

16 de agosto de 2019 | 06h00

DUBLIN - Durante gerações, os irlandeses consideraram que a oferta generosa de moradias acessíveis era um dos fundamentos da política do governo. Não faz muito tempo que a Irlanda tinha uma das proporções mais altas de donos da casa própria. Agora, o país se vê mergulhado em uma crise de moradia. O número de proprietários diminuiu, o número de despejos e de sem-teto está aumentando rapidamente, levando a uma alta na demanda por moradia alugada, e a inflação dos aluguéis está motivando protestos.

Dublin se tornou uma das 10 cidades mais caras do mundo para se alugar, batendo cidades como Tóquio e Cingapura. O Deutsche Bank revelou em maio que o aluguel típico para um apartamento de dois quartos de padrão médio em Dublin era de US$ 2.018 mensais, alta de 23% em relação a 2014 - a alta mais acentuada entre as cidades da lista das mais caras.

A crise atingiu duramente os jovens adultos, para quem não há muita escolha senão gastar boa parte da renda com o aluguel, e pouca perspectiva de poupar para comprar um imóvel. “Temos uma geração que foi excluída do contrato social irlandês", disse Rory Hearne, professor da Universidade Maynooth.

Depois de nove anos alugando uma casa no norte de Dublin, Sabrina Farrell e os três filhos foram despejados em abril, quando o senhorio decidiu vender o imóvel. Incapazes de encontrar um lar acessível, eles vivem agora em um único quarto de hotel pago pelo governo local, sem espaço para cozinhar nem brincar.

“As crianças estão vivendo à base de lanches", disse Sabrina. Nos cinco anos mais recentes, o número de sem-teto na Irlanda praticamente quadruplicou. Os números de maio indicavam a existência de 10.253 sem-teto, incluindo 1.700 famílias com 3.749 crianças. 

Mesmo aqueles que conseguem arcar com o custo do aluguel encontram pouca segurança. Os contratos podem ser de apenas seis meses, e a lei irlandesa permite que os senhorios expulsem locatários se quiserem vender a propriedade, reformá-la ou oferecê-la a um parente.

Boa parte da frustração na Irlanda é direcionada a empresas estrangeiras como a Ires Reit, cuja principal proprietária é uma empresa canadense, ou a empresa californiana Kennedy Wilson, que compraram ou construíram milhares de unidades em poucos anos e expandem seus investimentos, ao mesmo tempo pagando quase nada em impostos à Irlanda. Há lembranças antigas de locatários do século 19 sofrendo nas mãos dos senhorios, muitos deles britânicos.

Depois da independência do país, na década de 1920, seu governo deu início a uma campanha de construção, vendendo muitos lares do governo aos locatários. Mas, já na década passada, a Irlanda tinha uma bolha imobiliária erguida com base no endividamento, estimulada por empréstimos irresponsáveis e incentivos fiscais.

Quando a bolha estourou, em 2008, dando início a uma profunda recessão, o preço dos imóveis despencou, os endividados declararam moratória, a atividade da construção civil foi interrompida e os bancos irlandeses, atrelados a pesadas dívidas com bancos estrangeiros, flertaram com a insolvência. O número de donos da casa própria caiu de 80% para menos de 70% das famílias - a proporção ainda é maior que a observada em países como Grã-Bretanha, França e Alemanha, mas abaixo do que foi observado na Irlanda nas quatro décadas mais recentes.

O governo foi obrigado a solicitar um empréstimo de US$ 77 bilhões ao Fundo Monetário Internacional e à União Europeia, impondo medidas de austeridade. Os bancos americanos de investimento ofereceram empréstimos hipotecários a preços baixos, lucrando com a recuperação do mercado.

O número de famílias alugando casas particulares dobrou, chegando a quase 20%, de acordo com o grupo do setor Focus Irlanda. O país se tornou um ímã de empresas internacionais, atraindo ao mercado milhares de locatários estrangeiros. Recentemente, o site imobiliários daft.ie informou que a hipoteca mensal de uma casa de dois quartos em Cork custaria aproximadamente US$ 700, mas o aluguel da mesma casa custaria cerca de US$ 1.300.

O preço dos imóveis se recuperou após a recessão, mas o número de proprietários, não, em parte porque o pagamento dos altos aluguéis significa que é difícil poupar para os pagamentos de entrada. É crescente o apelo para que o governo de centro-direita do primeiro-ministro Leo Varadkar construa mais moradias públicas.

Em maio, milhares protestaram em Dublin exigindo mudanças, com cartazes dizendo, “A cidade é nossa” e “O maldito aluguel está alto demais". “Uma construtora vem aqui pensando no lucro, mas o governo deve pensar nos cidadãos", disse a manifestante Lorna O’Sullivan, 25 anos, estudante de planejamento. “Estamos em um país rico, e não em um país pobre.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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