Zack Wittman/The New York Times
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A jornada extraordinária de Chris Nikic, um Ironman com síndrome de Down

Nikic, de 21 anos, se tornou a primeira pessoa com síndrome de Down a conquistar a extenuante competição de resistência, dando exemplo de obstinação e esperança

Kurt Streeter, The New York Times - Life/Style

20 de dezembro de 2020 | 05h00

O céu da Flórida havia escurecido, e Chris Nikic se sentia prestes a desistir. Ele vinha se esforçando na extenuante competição havia mais de 13 horas, mesmo precisando de ajuda para conseguir se manter no curso e acompanhar seu tempo. De repente, o esforço foi demais.

Ele lutava para respirar o ar quente e úmido. Seus pés queimavam ao pisar no pavimento, suas pernas pesavam como concreto, e os músculos de suas costas pareciam estar rasgados. Nikic, um jovem de 21 anos que vive com seus pais em um subúrbio de Orlando, tinha iniciado o dia com determinação. Se ele conseguisse superar o desafio dessa competição — 3,85 quilômetros de natação em mar aberto, seguido de 180 quilômetros de bicicleta e 42,15 quilômetros de corrida — e fazer isso em menos de 17 horas, seria o primeiro atleta com síndrome de Down a completar um triatlo Ironman.

Tal façanha não teria somente colocado ele nos livros de recorde: também serviria como prova, para ele mesmo e para as pessoas de seu entorno, de que ele era capaz de grandes realizações. E se ele fosse capaz de grandes realizações, talvez algum dia pudesse ser capaz de realizar seu maior sonho: viver uma vida independente, casar e formar sua própria família. Será que ele conseguiria? A linha de chegada estava a 25 quilômetros de distância, mas ele estava arrebentado.

Foi nesse momento que Nikic invocou uma torrente de perseverança paciente e esperançosa — bem com o energizante poder da singela visão que ele tinha estabelecido para sua vida. Um passo à frente, dois passos. Um passo. Dois passos. Três…

Para entender as adversidades que Nikic enfrentava naquela competição, realizada em Panama City Beach, na Flórida, é necessário voltar à sua infância. Aos cinco meses, ele foi submetido a uma cirurgia cardíaca de peito aberto. Ele era tão fraco e tinha tão pouco equilíbrio que começou a andar somente aos quatro anos.

Para evitar que engasgasse, sua família o alimentou com papinha de bebê até os seis anos. Quando ele aprendeu a correr, demorou meses para descobrir como mover os braços ao lado do corpo, em vez de mantê-los retos, sobre a cabeça. Demorou anos para ele aprender a amarrar os sapatos.

Seus pais — Nik, um treinador de desempenho corporativo, e Patty, mãe e dona de casa — lutaram para garantir ao filho a atenção e os cuidados apropriados. Na busca da educação adequada, eles o matricularam em sete escolas de ensino fundamental diferentes. Todas as vezes, especialistas falavam de Chris Nikic em termos de limites, em vez de possibilidades.

“Eu sempre me sentia isolado, abandonado, excluído”, ele me disse em uma chamada de vídeo, descrevendo as emoções que sentia ao crescer. Ele encontrou alívio nos esportes. No início de sua adolescência, competiu em corridas de velocidade, natação e basquete nas Olimpíadas Especiais.

Quando tinha mais ou menos 15 anos, seus pais o levaram a um estacionamento perto de casa e o ensinaram a andar de bicicleta. Demorou seis meses para ele conseguir pedalar 30 metros, mas, quando pegou o jeito, nada mais pôde detê-lo. Depois de ter passado por uma série de operações no ouvido, que o enfraqueciam e o mantinham em casa, ele decidiu ir além de tudo que já havia realizado. Em outubro, com a ajuda de um grupo local de treino de resistência e de Dan Grieb, um treinador voluntário, Nikic encarou o Ironman. Foi o teste final. Se conquistasse a prova, ele se sentiria capaz de fazer qualquer coisa.

Um vento forte varria o Golfo do México de manhã cedo, no dia da prova. Grieb estava dentro da água servindo de guia, ligado a Nikic por um cabo preto elástico, destinado a dar segurança extra.

Eles saíram do mar agitado em menos de duas horas. Então, Grieb ajudou Chis Nikic a montar em sua bicicleta de 10 marchas, fixou os pés dele aos pedais, e ambos iniciaram a longa pedalada. Haveria problemas adiante. Como Nikic não conseguia se equilibrar bem o suficiente para beber água enquanto pedalava, ele tinha que parar e desmontar de sua bicicleta para se hidratar.

Quando ele fez isso no 35º quilômetro, não se deu conta que tinha parado sobre um grande formigueiro, que subiram pelos seus tornozelos e morderam sua pele, causando inchaço em suas pernas. Ele conseguiu seguir em frente, mas caiu da bicicleta alguns quilômetros depois, quando pedalava em alta velocidade, ladeira abaixo. Outra vez, ele foi em frente. Então chegou o trecho de corrida.

Tudo começou bem. Percorrendo as ruas de Panama City Beach pela escuridão da noite, amarrado a Grieb para evitar quedas e seguir o percurso correto, Nikic passou por um grupo de parentes e amigos, que fizeram festa para apoiá-lo. Mas tudo mudou no quilômetro 16. Ele diminuiu tanto o ritmo que nem parecia estar se movendo.

Começou a se queixar de dor. Havia angústia em seus olhos. “Ele parecia um zumbi”, disse sua irmã, Jacky. “Como se estivesse absolutamente exaurido.” Seus apoiadores se aproximaram e o abraçaram, esperando melhorar seu ânimo. Nik Nikic agarrou o filho, trouxe-o para perto e sussurrou em sua orelha: “Você vai deixar a dor vencer, ou os seus sonhos?” Chris Nikic sabia que não se tratava apenas de completar o Ironman, mas de mostrar a si mesmo o que ele poderia conquistar no futuro.

Seu próprio lar. Independência. Casar com uma mulher tão bondosa e linda quanto a sua mãe. “Meus sonhos vão vencer”, ele disse ao pai. Ele voltou a correr. Um passo à frente. Dois. Três. Um passo. Dois. Três. Ele encontrou seu ritmo. Nada poderia detê-lo. Cruzou a linha de chegada com os braços para cima, em celebração, e um pouco de tempo de sobra — 16 horas, 46 minutos e 9 segundos.

“Aprendi que limites não existem”, disse ele, quando conversamos dias depois. “Não tentem dizer onde devo parar.” Receba os aplausos, Chris Nikic, por manter-se fiel aos seus sonhos, pela sua paciência, sua obstinação esperançosa e sua coragem. Tudo isso tem feito falta no mundo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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