Toby Melville/Reuters
Toby Melville/Reuters

Isabel dos Santos, a mais rica da África, é acusada de desviar dinheiro público

Documentos compartilhados com o 'Times' revelam como uma rede global de consultores, advogados e banqueiros ajudaram a herdeira da Angola a acumular uma fortuna e transferi-la para o exterior

Por Michael Forsythe, Kyra Gurney, Scilla Alecci e Ben Hallman, The New York Times

26 de janeiro de 2020 | 06h00

LISBOA — Era uma daquelas festas em que as pessoas querem ser vistas durante o Festival de Cannes. Uma joalheria suíça tinha alugado o luxuoso Hotel du Cap-Eden-Roc, atraindo celebridades como Leonardo DiCaprio, Naomi Campbell e Antonio Banderas. O tema: Love on the rocks, uma brincadeira com o gelo e as pedras preciosas.

Isabel dos Santos — a mulher mais rica da África, filha do então presidente angolano, José Eduardo dos Santos — posava para fotos no evento, realizado em maio de 2017. O marido dela controla essa joalheria, a De Grisogono, por meio de uma estonteante gama de empresas de fachada sediadas em Luxemburgo, Malta e Países Baixos.

Mas a suntuosa festa foi possível somente por causa do governo angolano. O país é rico em petróleo e diamantes, mas se encontra enredado pela corrupção e oprimido pela pobreza, pelo analfabetismo generalizado e uma alta taxa de mortalidade infantil. Uma agência governamental tinha investido mais de US$ 120 milhões na joalheria. Hoje, contempla a perda total do investimento.

Isabel dos Santos — que, estima-se, possui uma fortuna de US$ 2 bilhões — afirma ser uma empreendedora que nunca se beneficiou de fundos públicos. Mas uma imagem diferente se projetou a partir de investigações da imprensa: ela se apossou de parte da riqueza de Angola, frequentemente por meio de decretos assinados por seu pai. Adquiriu participação nas exportações de diamantes do país, na sua principal empresa de telefonia móvel, em dois de seus bancos e na sua maior fábrica de cimento — e fez uma parceria com a estatal de petróleo angolana para investimento na maior petroleira de Portugal.

Agora, um calhamaço de mais de 700 mil documentos, obtido pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e compartilhado com o New York Times, demonstra como uma rede global de consultores, advogados, banqueiros e contadores ajudaram-na a acumular essa fortuna e transferi-la para o exterior. Algumas das principais consultorias e prestadoras de serviços empresariais do mundo — incluindo Boston Consulting Group, McKinsey & Company e PwC — facilitaram o esforço dela de lucrar com a riqueza de seu país, conferindo-lhe legitimidade.

O império que Isabel dos Santos e seu marido construíram se estende de Hong Kong aos Estados Unidos, abrangendo mais de 400 empresas e subsidiárias, além de propriedades ao redor do mundo — incluindo uma mansão de US$ 55 milhões em Monte Carlo, um iate de US$ 35 milhões e uma residência de luxo em Dubai, em uma ilha artificial que tem o formato de um cavalo-marinho.

Entre seus negócios estava a joalheria suíça, que registros e entrevistas revelaram ser administrada por uma equipe recrutada a partir do Boston Consulting Group. Eles arruinaram a empresa. Sob sua administração, milhões de dólares dos fundos públicos angolanos ajudaram a bancar festas anuais na Riviera Francesa. 

Como funcionava o esquema

Quando o Boston Consulting Group e a McKinsey se juntaram para ajudar a reestruturar a Sonangol, a petroleira estatal angolana, as empresas concordaram em ser pagas de uma maneira incomum: não pelo governo angolano, mas por uma companhia de Isabel dos Santos com base em Malta. Então, o pai dela a colocou à frente da Sonangol, e os pagamentos do governo foram às alturas, realizados por meio de outra empresa offshore, de um amigo dela. 

A PricewaterhouseCoopers, agora chamada PwC, atuou como contabilista, consultoria e  conselheira fiscal, trabalhando com ao menos 20 empresas controladas por ela ou seu marido. Entretanto, vários indícios de irregularidades surgiam enquanto o dinheiro público desaparecia, de acordo com especialistas em lavagem de dinheiro e contadores forenses que analisaram os documentos obtidos recentemente.

Quando as firmas de consultoria estrangeiras chegaram à Angola, quase duas décadas atrás, elas eram vistas pela comunidade financeira global como uma força para o bem: levando profissionalismo a uma ex-colônia portuguesa devastada por anos de guerra civil. Na verdade, porém, elas pegaram o dinheiro e fizeram o que seus clientes pediram, afirmou Ricardo Soares de Oliveira, professor de política internacional de Oxford. “Elas atuam por lá como provedoras de todo tipo de serviço que essas elites necessitem em relação ao que estejam tentando fazer”, explicou. “Elas não têm nenhuma moral — são o que o cliente quiser que elas sejam". 

Mais de US$ 1 bi de fundos públicos

Agora, mais de dois anos depois de seu pai deixar o poder, após 38 anos como presidente autocrata de Angola, Isabel dos Santos está em apuros.

No mês passado, um tribunal angolano congelou todos os bens dela no país, como parte de uma investigação de corrupção, além dos bens de seu marido e de um parceiro de negócios português. E em 20 de janeiro, o procurador-geral de Angola afirmou que o governo “usará todos os meios possíveis” para trazer Isabel dos Santos de volta ao país. O procurador-geral angolano alega que o casal é responsável por desviar mais de US$ 1 bilhão de fundos públicos. Também em 20 de janeiro, o EuroBic, uma sucursal em Lisboa de um banco de que Isabel dos Santos é a maior acionista, afirmou que estava encerrando sua “relação comercial” com ela e investigando transferências de dezenas de milhões de dólares.

Isabel dos Santos e seu marido poderão encarar anos de prisão se condenados, de acordo com o gabinete do presidente de Angola, João Lourenço. O epicentro da investigação: US$ 38 milhões em pagamentos da Sonangol para uma empresa de fachada em Dubai horas depois de o novo presidente angolano anunciar a demissão dela. O meio-irmão de Isabel dos Santos também enfrenta acusações de corrupção, por ajudar a transferir US$ 500 milhões dos fundos soberanos de Angola.

Em uma entrevista à BBC, Isabel dos Santos, de 46 anos, negou qualquer crime. “Minhas empresas têm financiamento privado”, garantiu. Seu marido, Sindika Dokolo, de 47, afirmou que o novo governo está usando o casal como bode expiatório. “Não é um ataque a funcionários de empresas públicas acusados de fraude, e sim um ataque a uma família que opera no setor privado”, justificou ele à Radio France Internationale, parceira do ICIJ.

Bancos internacionais, incluindo o Citigroup e o Deutsche Bank, se recusaram a trabalhar com a família nos últimos anos, segundo registros.

Empresas de consultoria, submetidas a muito menos regulações do que bancos, se envolveram prontamente com os negócios dos Santos. Firmas americanas de assessoria vendem sua experiência em implementar boas práticas para seus clientes em todo o mundo. Mas, na busca por honorários, várias delas trabalharam para regimes corruptos, em lugares como China e Arábia Saudita.

O padrão era o mesmo em Angola, onde notas fiscais apontam para dezenas de milhões de dólares destinados a essas firmas. Elas concordaram em serem pagas pelo governo angolano por meio de empresas de fachada — ligadas a Isabel dos Santos e seus associados — localizadas em países usados há muito para evitar impostos, esconder fundos ilícitos e lavar dinheiro. O acordo permitia a ela ficar com uma grande parte dos fundos públicos.

Sediada em Londres, a PwC afirmou estar investigando suas transações com Isabel dos Santos, e disse que pararia de trabalhar com a família dela. O Boston Consulting Group disse ter tomado providências, quando foi contratado, “para garantir o cumprimento de políticas estabelecidas e evitar corrupção e outros riscos”. A McKinsey qualificou as alegações envolvendo Isabel dos Santos como “preocupantes” e afirmou que, atualmente, não trabalha com ela.

O grosso da fortuna de Isabel dos Santos está atualmente fora de Angola, grande parte em refúgios nos quais dificilmente será repatriada.

Ana Gomes, ex-integrante do Parlamento Europeu, registrou uma queixa em novembro em Portugal, alegando que Isabel dos Santos lavou dinheiro por meio do Banco BIC. Ana afirmou que a rede de empresas de consultoria e serviços empresariais permitiu a Isabel dos Santos retirar seu dinheiro da Angola e aplicá-lo em negócios legítimos na Europa e em outras regiões. “São parte de um sistema destinado a detectar o melhor porto seguro para todo o dinheiro retirado do país”,disse. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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