Camila Falquez/The New York Times
Camila Falquez/The New York Times

Como Isabella Rossellini preparou uma peça de teatro com participações de animais

'Talvez esteja me lançando em uma missão suicida. Não sei', disse ela após o ensaio

Laura Collins-Hughes, The New York Times - Life/Style

20 de outubro de 2020 | 05h00

BELLPORT, NOVA YORK - Do ponto de vista das ovelhas, o ensaio já estava acontecendo há tempo suficiente. No gramado em frente à casa de Isabella Rossellini, uma elegante transformação de celeiro em casa em um canto chique e rural de Long Island, algumas delas ficaram paradas ao redor, esperando sua tutora aparecer. Com seu camarada Pinóquio, o cachorro, elas logo viram a vigilância recompensada.

Isabella saiu para a varanda, filmando-se em seu telefone enquanto dizia as falas de sua nova peça de teatro ao vivo, “Sex and Consequences” (Sexo e Consequências, em tradução livre). Mas então - a coragem! - ela voltou para dentro. Então, O’Keeffe, uma ovelha Lincoln de lã longa de cinco meses de idade, subiu uma rampa, entrou na varanda e passou pela porta aberta para se juntar a ela. Afinal, o programa tem um forte tema de domesticação.

E honestamente? Se você nomear os integrantes do seu rebanho em homenagem a artistas femininas pioneiras, como fez Isabella, você está quase pedindo esse nível de assertividade. Ainda assim, O'Keeffe se viu rapidamente, comicamente, desajeitadamente empacotada de volta sobre a soleira por Isabella, que em uma tarde de setembro no meio de uma pandemia não tinha ajuda para cuidar de ovelhas rebeldes.

"Fique lá fora, fique lá fora", ela sussurrou com firmeza, fechando as portas de tela dupla e mergulhando de volta no ensaio enquanto seu diretor, Paul Magid, assistia por Zoom do norte da Califórnia - assim como Katya Ekimian, uma designer de malhas de 21 anos fazendo uma residência artística na fazenda orgânica vizinha de Isabella, desabava em gargalhadas na extremidade oposta da varanda. Sendo bem sincera: eu também.

Há uma vivacidade, então, em meio à tranquilidade dos seis acres de Isabella, que ela divide com dois cães, meia dúzia de ovelhas e ainda mais galinhas, e onde fará quatro apresentações online de “Sex and Consequences”, cada uma seguida por uma sessão de perguntas e respostas do público.

“Talvez esteja me lançando em uma missão suicida. Não sei”, disse ela após o ensaio, sentando-se na varanda na cadeira de diretor e soltando uma risada longa e efervescente. A uma distância social segura, ela usava uma máscara floral que tirava apenas quando tomava um gole de sua garrafa de kombucha e acrescentou em seu ritmo de fala italiano: "Mas é um experimento."

A apresentação é uma espécie de continuação da biodiversidade de "Green Porno", a palestra teatral que ela adaptou de sua série de curtas-metragens cativantes no Sundance Channel, em que uma Isabella em trajes surrealistas representava os hábitos de acasalamento de abelhas, digamos, ou minhocas, relacionando fatos científicos com hilaridade dramática. “Sex and Consequences”, que alterna performance ao vivo com curtas antigos e novos, é sobre herança genética e evolução social, filtrada pelo absurdo e estimulada por um design lúdico.

As ovelhas farão uma aparição, então mantenha os olhos abertos para Garbo, a tímida com pintinhas. O cachorro de Isabella, Morsi, anunciado como Pan em sua peça teatral de 2018, "Link Link Circus" - e que acaba sendo um caçador de galinhas incorrigível - também chama a atenção aqui.

E Isabella, que tem 68 anos e um mestrado em comportamento animal e conservação pelo Hunter College, mais uma vez vestirá a fantasia que ela chama de "meu terno nu", que ela vestiu fugazmente em "Link Link". É como uma versão alegre de desenho animado de uma forma feminina sem roupa.

Magid, o diretor, é mais conhecido como o fundador da trupe de malabarismo Flying Karamazov Brothers. Para ele, o assunto mortalmente sério por trás do humor de "Sex and Consequences" é o que ele vê como o real interesse de Isabella, "a própria essência da vida". “Aquilo com que ela está brincando”, disse ele mais tarde, por telefone, “é a visão estreita de todo mundo a respeito do que é sexo e o que é sexo propriamente. Ela realmente explora todas as maneiras diferentes que a natureza encontrou para fazer a vida continuar a se regenerar. ”

'Porque eu era uma beldade'

Uma coisa curiosa em relação a Isabella, filha de pais famosos - sua mãe era a estrela sueca do cinema Ingrid Bergman, seu pai, o diretor neorrealista italiano Roberto Rossellini - é que o que a tornou famosa não era o que ela originalmente esperava fazer.

“Sempre quis fazer filmes sobre animais e sempre me inspirei em David Attenborough, National Geographic”, disse ela. “Eu escrevi para eles, você sabe, quando tinha 19, 20, 21. Eu escrevi para todos eles dizendo: ‘Eu gostaria de um emprego. Posso trabalhar? Posso ser uma aprendiz? ’”. Mas, ao invés disso, sua carreira acabou se voltando para atuação e trabalhos como modelo. “Porque eu era uma beldade,” ela disse de modo direto, e se havia vaidade nisso, havia verdade também.

Foi só quando ela trabalhou com o vanguardista canadense Guy Maddin e suas pequenas equipes - “sete, oito pessoas”, ela disse - que ela viu um caminho para a direção, o que ela começou a fazer com Green Porno (2008) e continuou com suas séries de Sundance, Seduce Me (2010) e Mammas (2013). Graças ao conselho de Robert Redford para manter os direitos autorais dessas obras, ela agora pode misturar livremente seus curtas em suas apresentações ao vivo.

“Se eu fosse um salmão”, reflete Isabella em “Sex and Consequences”, e a próxima coisa que vemos, ela está - com touca de peixe com motivos psicodélicos e olhos arregalados, para desovar em um clipe de “Seduce Me”.

Através das gerações

O teatro de marionetes nesses curtas às vezes é extravagante. “Sex and Consequences” tem uma estética mais simples, com um homem de pelúcia em tamanho real costurado com um pano branco sujo.

Suas únicas características distintivas - ele não tem olhos, nariz, boca ou cabelo - são suas mãos horríveis e inchadas. Na apresentação, Isabella apresenta o fantoche, impassível, como “meu marido”, que é como ela casualmente o chamou após o ensaio também.

A segunda vez que fiz uma pergunta a respeito dele, ela entrou na casa, empurrou sua figura iminente para fora, empoleirou-o em seu colo e segurou sua mão. Quando eu ri dela apertando ele suavemente, como se ele fosse real, ela fez a mão acariciar sua bochecha. O que quer dizer que, fora do palco, Isabella também tem um senso de humor estranho e encantador - uma herança de seus pais, ela acha.

Sua afinidade com a experimentação, que ela atribui ao pai, é uma das razões pelas quais ela disse sim quando seu agente sugeriu fazer uma peça de teatro ao vivo. Outra é a forma como ela definiu a experiência: apresentar-se seria como fazer uma turnê pelo mundo de casa.

O que, na verdade, é uma evolução que Isabella estaria preparada para manter após a pandemia - não parando de fazer turnês, apenas fazendo menos, permitindo que mais do público experimentasse suas apresentações online. Porque é uma solidão ser um artista solo na estrada. "Você sabe", disse ela, olhando para uma extensão de grama bem cultivada, "aqui é o paraíso." Seus animais a fazem rir. E é difícil colocar um rebanho de ovelhas na sua mala". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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