Athit Perawongmetha/Reuters
Athit Perawongmetha/Reuters

Isenções do serviço militar dividem sul-coreanos

Atletas medalhistas ou de esportes lucrativos não são recrutados, mas nem todos os jovens consideram isso justo; regra não vale para astros do pop, como o grupo K-pop

Choe Sang-Hun, The New York Times

27 de outubro de 2018 | 06h00

SEUL, COREIA DO SUL - Choo Shin-soo, que joga na posição de defensor direito do time de beisebol Texas Rangers, e Ryu Hyun-jin, arremessador dos Los Angeles Dodgers, têm mais em comum do que suas carreiras na primeira divisão do beisebol e a nacionalidade sul-coreana. Ambos ganharam milhões de dólares por estarem isentos do serviço militar.

Todos os homens fisicamente aptos, na Coreia do Sul, passam pelo menos 21 meses prestando serviço militar, um sistema de recrutamento considerado crucial para a defesa do país contra a Coreia do Norte. Mas os melhores atletas são isentos desta obrigação quando a sua presença é considerada  imprescindível para “aumentar o prestígio nacional” ganhando medalhas nas Olimpíadas ou nos Jogos Asiáticos que se realizam a cada quatro anos, como aconteceu com Choo e Ryu.

Ultimamente, muitos jovens sul-coreanos passaram a questionar a justiça desta prática, que define um legado antiquado do passado ditatorial do país. Eles querem saber por que motivos atletas milionários recebem este privilégio. E se o triunfo nos Jogos Asiáticos é importante para levantar o perfil da nação, que tal o triunfo em outros campos - como o dos BTS, a banda K-pop (Korean pop), os primeiros músicos sul-coreanos a ocupar as primeiras posições nos Billboard charts, e que falaram na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro.

“Acho que os membros da BTS (Beyond the Scene) deveriam também ficar isentos”, segundo Song Kyung-tack, cuja medalha de ouro na patinação de velocidade nos Jogos Asiáticos de 2007 o isentou do serviço militar. “Quando os sul-coreanos vão ao exterior, podemos mencionar os BTS para explicar de onde eles são.”

O descontentamento está latente desde os Jogos Asiáticos deste ano, na Indonésia, encerrados em setembro. Quarenta e dois atletas obtiveram a isenção do serviço militar obrigatório ao ganharem medalhas de ouro individuais ou de equipe nas competições.

“Isto não é justo”, reclamou Park Han-jin, 26, veterano da força aérea, que duvida que o grande número de medalhas tenha mais efeito para o prestígio da nação, de uma maneira ou de outra. A isenção é muito almejada na Coreia do Sul, onde mais de 230 mil jovens entre os 18 e os 28 precisam servir anualmente.

Do ponto de vista financeiro, os atletas de elite que enfrentam o recrutamento têm mais em jogo do que a maioria, principalmente em esportes potencialmente mais lucrativos, como beisebol ou o futebol. Contratos multimilionários em dólares podem depender da possibilidade de evitar o serviço militar.

A final de futebol nos Jogos Asiáticos entre a Coreia do Sul e o Japão chamou particularmente a atenção porque foi a última chance de Son Heung-min, um centro-avante famoso do clube britânico Tottenham Hotspur, evitar o recrutamento. Son, 26, tinha até o mês de julho seguinte para conseguir a isenção, ou deveria desistir da Série A e ir para o exército.

“Foi como se as pessoas assistissem ao jogo principalmente para ver se Son Heung-min conseguiria evitar o recrutamento”, comentou Koo Hyok-mo, ex-capitão do exército. As isenções são garantidas também aos músicos tradicionais e clássicos que ganham determinados prêmios. Cantores pop não têm esta oportunidade, embora os K-pop sejam um fenômeno global.

As isenções foram introduzidas em 1973 pelo ditador Park Chung-lee, que queria que os sul-coreanos trouxessem medalhas para o país a fim de desviar as atenções da profunda insatisfação com o seu governo, afirmam os historiadores.

Agora, depois de décadas de declínio das taxas de natalidade, a Coreia do Sul tem dificuldade para preencher as fileiras de suas forças armadas de 650 mil homens. Seja qual for a necessidade, as pesquisas constataram que muitos sul-coreanos querem que o sistema de isenção seja mudado, e alguns querem inclusive que seja abolido. 

Porém, outros afirmam que dar a relativamente poucos atletas a possibilidade de evitar o serviço militar - nos últimos dez anos foram concedidas 220 isenções - valeu a pena. “Os atletas que são grandes representantes nacionais  são motivo de orgulho para o povo”, afirmou Kim Se-yeop, 23. “Embora eu mesmo tenha de servir o exército, só posso aplaudi-los”.

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