Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
Ilvy Njiokiktjien/The New York Times

Em isolamento, idosos sozinhos em casa 'adotam' robôs de estimação

À medida que os idosos ficam isolados de seus entes queridos durante a pandemia, alguns estão se voltando para animais automatizados como companhia

Paula Span, The New York Times - Life/Style

23 de outubro de 2020 | 05h00

Quando Linda Spangler perguntou à mãe, durante uma chamada de vídeo, que presente ela gostaria de ganhar em seu aniversário de 92 anos, a resposta foi imediata. "Gostaria de um cachorro. O Wolfgang morreu?", perguntou Charlene Spangler. Wolfgang, o dachshund da família, morreu há muitos anos, assim como todos os seus sucessores.

Charlene Spangler, que vive em uma casa para pessoas com demência, em Oakland, na Califórnia, não consegue se lembrar direito dessa história. Sua filha, que é médica, considerou realizar o desejo da mãe. Antes que os visitantes fossem proibidos de frequentar a residência devido à pandemia da covid-19, Linda Spangler via a mãe dia sim, dia não, e muitas vezes a levava na cadeira de rodas até o Lago Merritt para ver os patos e brincar com os cachorros.

Na instituição em que vive, Charlene Spangler fazia as refeições com muitos outros moradores, participava de aulas de arte e assistia a apresentações de músicos visitantes. Agora, as atividades e refeições coletivas foram interrompidas. Além de uma visita rápida no lobby, ela não vê a filha pessoalmente há seis meses; as duas se comunicam por meio de chamadas de vídeo de 15 minutos, quando os funcionários conseguem se organizar.

"Ela ficou mais isolada no quarto e tem saudade de ter um cachorro", disse Linda Spangler. Sabendo que a mãe não conseguiria cuidar de um animal de estimação, mesmo que a instituição permitisse, Linda Spangler procurou na internet pelos robôs de estimação de que tinha ouvido falar.

Encontrou um cachorrinho peludo com sensores que lhe permitem arfar, latir, balançar o rabo, cochilar e acordar; o usuário pode até sentir as batidas simuladas do coração. Impossibilitada de entregá-lo pessoalmente, ela pediu a um funcionário que o levasse para dentro.

Mais tarde, em uma chamada de vídeo, Linda Spangler soube que a mãe havia batizado o cachorro-robô de Dumbo. Esses dispostitivos apareceram pela primeira vez em lares para idosos nos Estados Unidos há muitos anos. Uma empresa japonesa começou a distribuir um bebê foca animatrônico chamado Paro em 2009, e a Hasbro começou a vender gatos robóticos em 2015.

Mas o isolamento causado pelo coronavírus – não apenas em asilos, mas também entre os idosos que vivem sozinhos em casa – intensificou o interesse por esses produtos e as vendas aumentaram, de acordo com executivos do setor. As circunstâncias também levaram a um crescimento na alocação de recursos públicos para a compra desses produtos. Muito antes da pandemia, a solidão e o isolamento social já eram reconhecidos como problemas de saúde pública entre as pessoas da terceira idade, ligados a um declínio sensível na saúde física e mental.

Agora, o risco de contrair doenças graves, causado pelo coronavírus, afastou muitos idosos do estímulo e do conforto das visitas pessoais, dos eventos culturais, do voluntariado e até mesmo das idas ao mercado. O isolamento é uma ameaça especialmente grave para pessoas com demência, que têm mais dificuldade de realizar atividades de lazer e comunicação pela internet.

"A covid-19 criou um mundo bizarro em que ninguém mais pode se abraçar. A ideia de ter um animal de estimação que você pode pegar no colo – uma experiência tátil – alivia um pouco esse problema", explicou Laurie Orlov, experiente analista do setor e fundadora da newsletter "Aging and Health Technology Watch" (Observatório de tecnologias de saúde e envelhecimento).

Devido, em parte, ao preço – US$ 6.120 –, o Paro (cujo nome soa como o termo japonês para "robô pessoal") foi adotado principalmente por instituições como hospitais, asilos e casas de repouso. Como a FDA (agência responsável pelo controle de alimentos e remédios nos EUA) classifica o robô como um aparelho de biofeedback, o sistema público de saúde dos EUA cobre a compra e o uso dos robôs por parte dos terapeutas.

"Desde o início da pandemia, o interesse aumentou muito", disse Tom Turner, gerente geral da Paro Robots U.S., que vende cerca de 50 focas robóticas por ano, mas espera um crescimento significativo nas vendas à medida que a cobertura dos planos de saúde se amplia. Os pesquisadores relataram os benefícios da interação com o Paro, embora os estudos geralmente tenham sido pequenos e de curta duração.

Em instituições no Texas e no Kansas, por exemplo, os pesquisadores acompanharam 61 idosos com demência, que realizaram sessões em grupo de 20 minutos com o Paro três vezes por semana durante três meses. Os estudiosos revelaram uma queda nos níveis de estresse e ansiedade, levando a uma diminuição nos problemas de comportamento e no uso de remédios para a dor.

A Front Porch, uma empresa sem fins lucrativos que oferece moradia para idosos, comprou vários Paros em 2015 e registrou seus efeitos por meio de cerca de 900 pesquisas que relatavam as interações com os moradores. Ao longo de seis meses, os funcionários informaram que os robôs – que ganharam nomes e, em dias festivos, fantasias especiais – ajudaram a acalmar os moradores, a ampliar seu comportamento social e a melhorar o humor e o apetite.

Mais recentemente, pesquisadores começaram a analisar o uso de robôs de estimação fora dos ambientes institucionais, com idosos que vivem sozinhos em casa. O mais interessante é a marca Joy For All, vendida pela Ageless Innovation, criada com base no robô da Hasbro e disponível nos EUA em lojas como o Walmart e a Best Buy por cerca de US$ 120.

Um dos maiores estudos sobre o tema, patrocinado pela United HealthCare e pela AARP, distribuiu robôs Joy for All gratuitamente para 271 idosos que vivem sozinhos. Todos os idosos sofriam com a solidão, de acordo com os questionários. "Depois de 30 e de 60 dias, houve melhora no bem-estar mental, no senso de propósito e no otimismo", observou Charlotte Yeh, diretora médica da subsidiária comercial da AARP e uma das autoras do estudo.

A pesquisa também revelou uma "redução na solidão", de acordo com Yeh, embora os questionários mostrassem que os participantes continuavam sozinhos. De posse dessas informações, a Ageless Innovation passou a oferecer robôs com desconto para agências do Estado que trabalham com idosos. (Os robôs Joy for All e Paro podem ser desinfetados para evitar a transmissão do vírus, de acordo com as empresas.)

O estado de Nova York encomendou e distribuiu 1.100 robôs de estimação depois que um estudo piloto revelou que os participantes se sentiam menos isolados e solitários. "As famílias me enviavam notas de agradecimento", comentou Becky Preve, diretora executiva da Associação do Envelhecimento de Nova York. A Flórida comprou 375 robôs. A Ageless Innovation informou que uma dúzia de estados encomendou, ao todo, seis mil aparelhos.

Isso, porém, é pouco em comparação com o potencial de vendas, caso os planos Medicare Advantage, oferecidos por empresas privadas, concordem em pagar pelos robôs de estimação. Um plano de saúde já cobre o custo do robô – a HealthPartners, na região Centro-Oeste dos EUA – e "estamos negociando com muitos outros planos Medicare Advantage", disse Ted Fischer, executivo-chefe da Ageless Innovation, por e-mail. A empresa também está de olho em determinados programas do Medicaid. Por mais estranha que pareça, a ideia de um robô como antídoto para a solidão produz, ao mesmo tempo, entusiasmo e repulsa.

"Esses animais estão ajudando pessoas", elogiou Preve, que é fã dos robôs. Mas Sherry Turkle, psicóloga do Instituto de Tecnologia de Massachusetts que estuda há anos o modo como os idosos usam a tecnologia, se opôs: "A promessa é que o animal robótico vai se tornar um companheiro com quem você desenvolverá um relacionamento, como se houvesse uma troca. Mas não há. Ele não passa de um monte de bits e bytes."

A irmã Imelda Maurer, que, como membro das Irmãs da Divina Providência de San Antonio, se dedica há muito tempo ao cuidado com idosos, não gosta da ideia de enganar as pessoas com demência, que podem achar que os robôs são animais de verdade. "Existe nisso um elemento de desonestidade ética". 

Tanto ela como Turkle destacaram que o entusiasmo pelos robôs é um indício dos muitos problemas na forma como nossa sociedade cuida dos idosos em instituições com poucos funcionários ou isolados em casa. Além disso, não é possível prever como os idosos vão reagir.

A consultora de serviço social Emily White, de Sunnyvale, na Califórnia, ficou boquiaberta quando viu a mãe, de 96 anos, que tem demência, depressão e praticamente tinha parado de comer, ficar animada com um gato Joy for All – e, imediatamente depois, pedir um pedaço de bolo. Mas o cientista planetário Timothy Livengood, de Columbia, em Maryland, disse que a mãe, de 80 anos, que sofre de demência e vive em uma instituição, praticamente ignorou o gato. "Ela nunca se apegou, pois ele não tem personalidade."

Já Charlene Spangler mencionou, durante uma chamada de vídeo recente, que o cachorro estava latindo e que ela conseguia sentir seu coração batendo. "Parece que existe alguma interação", comentou a filha. O cuidador, no entanto, precisa mostrar o cachorro com frequência e lembrar a idosa de fazer carinho ou de conversar com o robô. Do contrário, ela acaba se esquecendo. Ainda não se sabe com que frequência isso acontecerá, nem se o robô ajudará a diminuir a dor do isolamento. "Não sei se isso vai funcionar direito. Mas, por US$ 120, vale a pena tentar", concluiu Linda Spangler.

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