Emile Ducke para The New York Times
Emile Ducke para The New York Times
Michael Kimmelman, The New York Times

27 de março de 2020 | 06h00

Nessas horas, é difícil encontrar o novo normal. Em uma crise como esta, precisamos um do outro, mas acertadamente tememos aglomerações. Em todas as cidades do mundo, cafés e restaurantes fecharam. Museus e teatros estão em recesso. As mesquitas fecharam, as igrejas cancelaram as missas.

Tradicionalmente, buscamos conforto na religião, nos esportes, no entretenimento e na promessa de que a ciência moderna e as sociedades dispõem de todos os instrumentos necessários para solucionar qualquer problema. Mas o coronavírus solapa os nossos conceitos mais básicos de comunidade e, em particular, da vida urbana.

Os historiadores nos dizem que as cidades surgiram há milhares de anos por motivos econômicos e industriais – os saltos tecnológicos produziram um excedente de bens agrícolas, o que significou que nem todo mundo teria de lavrar a terra. No entanto, as cidades também cresceram  de necessidades humanas sociais e espirituais. A própria noção de ruas, espaços para habitação e públicos compartilhados decorreu e promoveu a sensação de que as pessoas estão  nisto todas juntas.

As pandemias exploram o nosso impulso a nos agregarmos. E, até o momento, a nossa resposta – o distanciamento social – não só vai contra os nossos desejos fundamentais de interação, como também contra a maneira como construímos as nossas cidades. Elas se destinam a ser ocupadas e animadas coletivamente. Para muitos sistemas urbanos funcionarem adequadamente, a densidade é o objetivo, não o inimigo.

Evidentemente, agora temos abundância de formas de interação digital remota. Já nos deslocamos para um tipo de distanciamento social  vivendo cada vez mais ligados aos nossos celulares e a comunidades virtuais; nos empanturramos de Netflix. A tecnologia que consumimos hoje vai nos consumindo lentamente. Intensifica as nossas ansiedades com um acesso interminável a informações, e também desinformações. Mas a tecnologia também  nos permite ir em frente com certo tipo de negócios e agir globalmente de maneiras que não imaginaríamos há uma geração.

Mesmo assim, ainda precisamos uns dos outros, e não apenas virtualmente. Ezra Klein levantou em “Vox” a perspectiva de que o distanciamento social possa causar um tipo de “colapso do contato social que é particularmente difícil nas populações mais vulneráveis ao isolamento e à solidão – os adultos de mais idade e as pessoas com necessidades especiais ou problemas de saúde pré-existentes”.

Há evidências disto. Eric Klinenberg, um sociólogo da New York University, escreveu um livro sobre uma onda de calor que atingiu Chicago em 1995, durante a qual morreram 739 pessoas. Ela se revelou letal para os moradores mais idosos que moravam em bairros pobres, segregados que permitiam aos moradores um contato social extremamente limitado.

Mas os mais velhos que Chicago vivem em comunidades igualmente pobres, assoladas pela criminalidade que tiveram acesso ao que Kleinenberg define como uma robusta “estrutura social” – uma rede de “calçadas, lojas, edifícios públicos e organizações comunitárias que proporcionam às pessoas o contato com amigos e vizinhos” – morreram em número consideravelmente menor.

No século passado, milhões de habitantes das cidades americanas fugiram para os subúrbios. As prefeituras derrubaram barros antigos e os substituíram por gigantescos projetos habitacionais em vastos espaços vazios, afirmando que as favelas urbanas abarrotadas de gente haviam se tornado caldo de cultura de doenças. Mas as pessoas voltaram aos centros urbanos. As cidades tornaram-se epicentros do novo capital e de criatividade, porque a proximidade alimenta o acaso feliz e o vigor, dos quais brotam novas ideias e oportunidades.

Os economistas falaram desta migração urbana em termos de dólares. Mas o calor humano do espaço compartilhado é incalculável. Durante a blitz de Londres, na Segunda Guerra Mundial, o Ministério do Interior Britânico ordenou que todos os teatros, os cinemas e outros locais de reuniões públicas fechassem, deixando os moradores a meditar sobre seu destino cruel em casa.

A exceção foi a Galeria Nacional de Londres, cujo diretor persuadiu as autoridades a deixar que ele mantivesse um único quadro exposto à visitação pública (o quadro ia mudando, por issoanto as pessoas tinham motivo para retornar). A galeria organizou também uma série de concertos de música clássica na hora do almoço.

Sair significava pôr em risco a vida. Mas os londrinos aguardavam em filas que se estendiam da entrada da galeria e atravessavam Trafalgar Square, na esperança de encontrar lugar. Quando uma bomba alemã caiu sobre a galeria pouco antes de um concerto, o público e os músicos ransferiram-se para o edifício da frente, a Casa da África do Sul. A guerra abalou a confiança nas democracias livres e abertas para sobreviver a uma grave ameaça global. Anda que modestos, os concertos deram esperança aos habitantes da capital e os lembraram do motivo pelo qual viviam ali, juntos.

A ameaça de hoje é um tipo completamente diferentes de desafio à solidariedade e a nossa maneira de viver. Não é uma onda de calor nem uma guerra relâmpago. Não pode ser mitigada indo a concertos ou museus. Ela exige o isolamento. Precisaremos inventar uma estratégia diferente, juntos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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