Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Israel proíbe importação de livros de editoras de Líbano, Síria e Iraque

Obras de autores árabes famosos e traduções em árabe de escritores famosos são escassos devido à proibição israelense

David M. Halbfinger, The New York Times

25 de setembro de 2019 | 06h00

JERUSALÉM - Há três anos, Asmaa Azaizeh realiza um concorrido festival de livros em língua árabe em Haifa, cidade que se tornou uma vibrante capital culinária e cultural para os cidadãos palestinos de Israel. Mas o festival deste ano, inaugurado no dia 20 de setembro, está sendo realizado sem centenas de títulos que Asmaa pretendia exibir. A polícia de fronteira israelense proibiu sua importação da Jordânia.

Traduções árabes de George Orwell, James Joyce, William Faulkner, Sylvia Plath, Nelson Mandela e Shakespeare foram recusadas. E também as obras de Ala’a Al-Aswany e Naguib Mahfouz do Egito; do autor e ativista palestino Ghassan Kanafani; e de Abdul Rahman Munif, um romancista da Arábia Saudita. O motivo? Os livros foram impressos em Beirute. Uma lei israelense que data do Mandato Britânico Palestino da Segunda Guerra Mundial proíbe o comércio com o inimigo, e Israel aplica esta política às editoras libanesas, sírias e iraquianas, entre outras.

O conteúdo dos livros não é problema, afirmou Asmaa. É unicamente a localização da editora - embora ela estivesse adquirindo os livros de uma companhia da Jordânia, com a qual Israel tem um tratado de paz e relações comerciais. Segundo Asmaa, a política de Israel tira a possibilidade de cidadãos árabes de Israel preservarem a sua cultura no Ocidente ou de manterem em grande parte as relações literárias ou intelectuais com o mundo árabe como um todo.

“Quando converso com pessoas, homens ou mulheres da minha idade da Síria ou do Egito, percebo a diferença”, observou. “Nós fomos ensinados de maneira diferente. Lemos livros diferentes”. Asmaa disse que criou o festival do livro por se dar conta de que muitos cidadãos árabes não tinham acesso à literatura, à poesia e à literatura de não ficção se não viajassem.

A proibição da importação é particularmente prejudicial para os leitores árabes de Israel porque, há muito tempo, tanto Beirute quanto Damasco são conhecidas como as capitais da publicação de livros do mundo árabe, disse Sawsan Zaher, advogado e vice diretor-geral da Adalah, o centro legal dos direitos árabes em Israel. Os livros de autores árabes-israelenses estão totalmente disponíveis para os cidadãos árabes de Israel, “mas eles estão interessados em ler os livros de que todos falam”, afirmou. “As pessoas estão com fome da cultura à qual pertencem, mas à qual não têm acesso”.

Em Israel e na Cisjordânia os livreiros afirmam que a adoção da proibição das importações depende frequentemente do espírito com que o policial de fronteira examina uma remessa. O Ministério das Finanças de Israel, responsável pela aplicação das restrições, não respondeu às solicitações de comentários.

Asmaa afirma que se esforçou ao máximo para substituir muitos livros que não puderam cruzar a fronteira com exemplares que já se encontram em Israel. Em geral, ela teve de recorrer a outros títulos. “As pessoas não notam isso, porque não estão acostumadas a ter bons livros à disposição”, explicou. “Se uma sociedade é impedida de alguma coisa por muito tempo, acaba não percebendo a sua falta”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.