Dan Balilty para The New York Times
Dan Balilty para The New York Times

Saúde, educação e transporte são desafios para Israel nos próximos anos

Especialistas alertam que, sem investimento pesado, a capacidade do país de acompanhar o resto do mundo avançado chegará a um impasse

David M. Halbfinger e Isabel Kershner, The New York Times

04 de março de 2020 | 06h00

JERUSALÉM - Quando o vendedor de cosméticos da cidade de Petah Tikva sai para trabalhar todas as manhãs, ele não se preocupa com os palestinos, o plano de Donald Trump para o Oriente Médio ou as tensões com o Irã – problemas em que quase todo mundo pensa quando se fala em Israel. Não, Ronen Yom Tov, o vendedor, só se preocupa com o trânsito. E ele tem bastante tempo para isso: leva meia hora só para chegar à estrada, a seis quilômetros de distância.

“É uma confusão gigante que não tem fim”, disse ele. A frase define bem Israel. E não só por causa dos engarrafamentos. Mesmo que Israel tenha deixado de ser uma pequena nação desértica que lutava por sua sobrevivência para se tornar uma potência regional com uma invejável indústria de alta tecnologia, o país negligenciou os sistemas de transporte, educação e saúde, os quais os especialistas dizem que são vitais para sua prosperidade.

O país realizou sua terceira eleição em um ano no dia 2 de março, mas os grandes desafios de cada uma dessas áreas chamaram pouca atenção. Especialistas alertam que, sem investimento pesado, a capacidade de Israel de acompanhar o resto do mundo avançado chegará a um impasse.

“Não acho que tenhamos assimilado o fato de que não somos mais uns poucos milhões de pessoas crescendo lentamente – somos uma nação de quase 10 milhões”, disse Jon Medved, executivo-chefe da OurCrowd, uma empresa de investimentos em tecnologia de Jerusalém. Analistas dizem que as coalizões multipartidárias de Israel são instáveis demais e que seus ministros são míopes demais para embarcar em projetos ambiciosos, os quais exigirão aumento de impostos.

Todos os anos, milhares de pacientes morrem de infecções nos hospitais de Israel, os mais superlotados do mundo desenvolvido. Bilhões de dólares em produção econômica – mais do que os ganhos anuais de Israel – estão se dissipando feito fumaça de escapamento enquanto os motoristas ficam parados no trânsito.

E os resultados dos testes mostram que as escolas não estão conseguindo preparar os alunos para os trabalhos modernos. A diferença de desempenho entre crianças ricas e pobres só aumentou, e uma acelerada fuga de cérebros está fazendo com que alguns dos cientistas, médicos e inovadores mais valiosos de Israel levem seus talentos para o exterior.

Sob alguns parâmetros, a economia está indo bem. O desemprego chegou a um mínimo jamais registrado. Os salários estão subindo. E o setor de tecnologia tem sucesso. Os desafios de Israel surgem, em parte, de sua vitalidade: a taxa de fertilidade de 3,1 filhos por mulher é a mais alta entre os países avançados, contribuindo para um crescimento populacional de mais de 200 mil pessoas por ano.

Presidente do Banco de Israel de 2013 a 2018, Karnit Flug atribuiu a negligência diante das necessidades vitais do país a um aperto de cintos que começou no início dos anos 2000, após o colapso das ".com". “Eles meio que se empolgaram”, disse ela. “A dieta continuou por tempo demais”.

Mas o investimento em saúde, transporte e educação vinha diminuindo desde a década de 1970, quando os críticos dizem que Israel começou a priorizar os cortes de impostos, o bem-estar dos judeus ultraortodoxos (que estudam em instituições religiosas em vez de trabalhar) e a expansão dos assentamentos na Cisjordânia. “Tem um enorme iceberg na nossa frente”, disse o economista Dan Ben David. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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