Landon Nordeman/The New York Times
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'It Girl' aos 100 anos, Françoise Gilot se pergunta: 'O que é natural?'

A pintora, escritora e antiga musa de Picasso tem algumas coisas a dizer sobre sucesso, estilo pessoal e a natureza da intimidade

Ruth La Ferla, The New York Times - Life/Style

17 de fevereiro de 2022 | 05h00

NOVA YORK - Sentada ereta em um sofá de cor creme, Françoise Gilot estava tão séria quanto um oráculo, uma impressão reforçada por seu terninho vermelho-fogo feito sob medida. “Eu uso vermelho como uma espécie de proteção, uma afirmação de caráter”, ela disse. “Isso me permite mostrar a mim mesma do jeito que quero ser vista.”

Foi sua expressão - uma mistura de malícia, vulnerabilidade e tentativa de ser afetuosa - que a delatou.

“Sou tímida”, disse Gilot mais de uma vez durante uma rara entrevista no final de dezembro no Upper West Side em Manhattan, no apartamento que é também seu estúdio.

Não importa o rebuliço que ela criou com a publicação de Life With Picasso, em 1964,  um relato extremamente sincero de seu relacionamento de 10 anos com o artista. (Ela foi a única mulher que o abandonou.) Ou sua estatura como artista: suas obras são exibidas em mais de uma dezena de museus, incluindo o Metropolitan Museum of Art, o Museum of Modern Art e o Centre Pompidou em Paris, com seus preços em alta.

Algumas estão penduradas agora em sua casa, um refúgio arejado com tetos abobadados, estantes altas e uma janela enorme que banha suas telas com uma luz fria do norte. Há obras em todas as paredes e empilhadas ao longo do perímetro do estúdio. Dois trabalhos abstratos a óleo estão apoiados como monumentos em cavaletes perto da porta.

Mas a própria Gilot não é um monumento.

"Eu não vou fazer uma grande coisa tentando ser mais do que eu sou", ela disse. "Ou menos."

Sim, tem sido inquietante, se não totalmente indesejável, ser cortejada nos últimos meses por especialistas do mundo da arte e curiosos que se aproximam dela com o tipo de reverência que se poderia reservar para um repositório vivo da cultura de meados do século XX - um ídolo e "it girl" na improvável idade de 100 anos.

“A ideia!”, ela disse, sorrindo, talvez um pouco tímida. “Para mim, pintar é uma arte silenciosa.” E o trabalho de um artista deve falar por si mesmo, mesmo que, acrescentou com uma risada autodepreciativa, “nem sempre tenhamos certeza do que comunicamos”.

Ela fica feliz com os visitantes esboçando os detalhes.

"Você mostra a eles o que eles gostam de imaginar sobre você", ela disse. “Mas eu não sou do jeito que eles pensam que eu sou.”

Então, com um aceno conspiratório para Aurelia Engel, sua filha mais nova e sua arquivista, que estava sentada perto, ela sinalizou que talvez fosse hora de baixar a guarda. Só não peça para ela repetir.

Ela disse muito do que tem a dizer em Life With Picasso, escrito com Carlton Lake, um jornalista americano. Seu pai, um agrônomo, desde cedo deixou claro para a filha que teria preferido um menino. Quando ela mostrou medo de sangue e altura, ele agiu fazendo-a escalar rochas altas e pular.

“Minha única reação possível foi a raiva”, ela escreve. “Mas como eu não podia demonstrar minha raiva, comecei a nutrir um ressentimento interior.”

Quando ela tinha 8 anos, já tinha enrijecido.

“Procurei dificuldade e perigo. Eu tinha me tornado outra pessoa. Senti a necessidade de ir longe demais simplesmente para provar a mim mesma que era capaz disso.”

Ela se afastou de sua educação burguesa, dando as costas ao pai que insistira que ela estudasse Direito, para a vida boêmia. Conforme detalhado no livro de memórias, Picasso, 61 anos, uma figura imponente quando eles se conheceram, convenceu Gilot, de 21 anos, a compartilhar sua casa na Rue Saint-Augustin, em Paris. Ele forneceu a ela seu próprio estúdio e a encorajou a pintar. Por sua vez, ela o idolatrava, tornando-se sua contadora, intérprete intelectual e mãe de seus filhos, Claude e Paloma. O relacionamento floresceu - por um tempo.

Mas a vida em família não era a caminhada na praia retratada na famosa fotografia de Robert Capa de Gilot perambulando na areia do Golfe-Juan, no sul da França, e Picasso atrás com um guarda-sol colossal. Em momentos mais sombrios, ele costumava desfilar na frente dela com uma série de possíveis rivais, sendo as mais famosas Dora Maar, uma pintora e fotógrafa, e Olga Khokhlova, sua primeira esposa, uma dançarina russa que seguia o casal onde quer que escolhessem passar férias.

Gilot escreve que Picasso demonstrou grande ternura, mas também a submeteu a ataques de crueldade lacerante.

“Você era uma Vênus quando eu te conheci”, ele diz a ela logo após o nascimento de Paloma. “Agora você é um Cristo - e um Cristo romanesco, com todas as costelas saindo para serem contadas.” Certa vez, no auge de uma discussão, ele ameaçou queimá-la. “Ele pegou o cigarro que estava fumando, colocou na minha bochecha direita e o segurou lá”, ela escreve. “Ele deve ter esperado que eu me afastasse, mas eu estava determinada a não dar a ele a satisfação.”

Abandonar Picasso foi um processo gradual, com o relacionamento terminando em 1953. Dois anos depois, ela se casou com o pai de Engel, o artista Luc Simon. Eles se divorciaram em 1962 e, em 1970, ela se casou com Jonas Salk, o desenvolvedor da vacina contra a poliomielite, união que durou até a morte de Salk em 1995.

Alguma vez ela se sentiu competitiva em relação a Picasso ou seus amigos, um grupo que incluía os notórios Chagall, Braque, Matisse e Giacometti?

“Isso nunca me passou pela cabeça”, ela disse. “Comecei a pintar, afinal, aos 3 anos. Quando criança, você não está pensando em termos de eu, eu, eu. Você não é capaz disso.”

Além do mais, ela disse, “as pessoas com quem eu estava eram tão evoluídas. Eu tinha muita admiração por eles.

“Mas eles também me ajudaram a crescer” ela acrescentou com alguma ousadia. “Percebi que se eles são tão grandes, então eu não sou tão pequena.”

Aos olhos do mundo da arte, Gilot é realmente substancial. Em maio passado, sua pintura Paloma à la Guitare, um retrato dela de 1965 com a filha, foi vendido por US$ 1,3 milhão na Sotheby's em Londres, sete vezes além da estimativa mais alta.

Exposições de seu trabalho abriram no final do ano passado no Museu Estrine em Saint-Rémy-de-Provence, França, na Galeria Varfok em Budapeste, Hungria, e na Galerie Patrick e Jillian Mac Fine Art em Nova Orleans. Na Christie’s de Hong Kong, Living Forest, uma tela abstrata de 1977 que fez parte de uma grande retrospectiva da casa de leilões em novembro, foi vendida por US$ 1,3 milhão.

Ela quer que você acredite que ela encara tudo com calma.

"Ela está menos preocupada com sua carreira", disse Engel, porque, como sua mãe lhe disse recentemente, "'já está feita'".

Gilot deixou seus pincéis de lado no momento. Mas ela ainda está evoluindo.

“É muito difícil se tornar quem você é”, ela disse. “As pessoas dizem para você ser natural. Mas eu gostaria de saber, o que é natural?/TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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