Stefano Rellandini/Reuters
Stefano Rellandini/Reuters
Jack Ewing e Jason Horowitz, The New York Times

23 de outubro de 2018 | 06h00

A história indica que o mundo deve estar se aproximando de outra crise financeira. E um dos países onde ela pode começar é a Itália.

Muitos dos ingredientes estão presentes. Endividamento pesado. Bancos enfraquecidos. Governo errático. E uma economia grande o bastante para causar estrago fora de suas fronteiras.

Os investidores em títulos estão soando o alarme. Os planos de gastos do governo populista, abertamente considerados irresponsáveis por especialistas em finanças, provocaram uma alta acentuada nos juros da dívida italiana, ameaçando criar um ciclo de destruição cujo impacto pode reverberar por toda a economia ainda abalada.

O orçamento proposto expôs a fragilidade da aliança que mantém unida a coalizão de governo da Itália, que inclui partidos que defendem cortes nos impostos e partidos que defendem caros programas de bem estar social. O resultado foi uma divisão no governo populista e no establishment financeiro italiano, que teme o estrago que os gastos podem causar na economia do país e no seu relacionamento com a Europa.

As crises financeiras tendem a ocorrer a cada dez anos, aproximadamente, e a Itália está próxima do topo de uma lista de pontos inflamáveis que podem desencadear a próxima crise, ao lado da Turquia e sua agitação econômica e política, da guerra comercial do presidente Donald J. Trump, da saída britânica da União Europeia e de uma desaceleração no crescimento global.

Mas, em comparação com a crise financeira que teve início em 2008, talvez os bancos centrais não possam salvar o dia dessa vez, disse Richard Portes, professor da London Business School. Eles gastaram boa parte do seu arsenal de ferramentas de combate a crises durante o mais recente derretimento.

É por isso que os investidores estão tão preocupados com a Itália. A zona do euro ainda está se recuperando de uma crise e endividamento que começou na Grécia em 2010. A Itália, terceira maior economia do bloco, responde por 11% do PIB da UE - 10 vezes mais que a Grécia - e tem o potencial de causar um estrago muito maior.

Muitos dos problemas do país são antigos, como o alto número de empréstimos problemáticos no balanço patrimonial dos bancos e o crescimento lento. O novo elemento é o governo populista da Itália, que, para horror dos funcionários da UE e dos mercados de títulos, se mostra disposto a gastar um dinheiro que não tem para cumprir as promessas de campanha.

Diferentemente de governos italianos anteriores, que aceitavam as demandas da UE, os populistas da Itália construíram suas carreiras contestando os desejos de Bruxelas.

Eles buscam uma rota de confronto com a Comissão Europeia.

A proposta de plano de gastos estabelece um déficit equivalente a 2,4% do PIB, proporção considerada demasiadamente alta para um país cujo endividamento total do governo chega a 131% do PIB, mais que o dobro do limite da zona do euro.

O governo anterior, de centro-esquerda, tinha feito uma proposta orçamentária resultando num déficit 

de 0,8%, o que teria permitido que a Itália continuasse reduzindo seu endividamento total.

Uma fatia significativa do orçamento seria destinada a um programa de bem estar social, uma das principais propostas de campanha do Movimento Cinco Estrelas, contrário ao establishment político.

“De maneira decisiva, esta medida e este orçamento levarão ao fim da pobreza", disse Luigi Di Maio, líder político do Movimento Cinco Estrelas e ministro italiano do desenvolvimento econômico.

A agência de classificação de crédito Fitch Ratings indicou que pode rebaixar a nota dos títulos da dívida italiana, medida que, somada a um rebaixamento semelhante por parte de outras agências de classificação, poderia aumentar ainda mais o custo do crédito para o governo.

O governo italiano parece popular e imune ao desgaste eleitoral. Mas o apoio do público pode começar a derreter se os investidores seguirem perdendo a confiança no pagamento da dívida italiana, o que traria consequências graves para a economia.

Com isso, os bancos se tornam mais cautelosos na concessão de crédito. Consumidores e empresas são obrigados a pagar juros mais altos, podendo até perder o acesso ao crédito, estrangulando a economia. 

Se o crescimento econômico desacelerar e o desemprego aumentar, um número menor de pessoas pagará impostos e a situação financeira do governo vai se deteriorar ainda mais. Os investidores insistirão num prêmio mais alto para os papéis da dívida italiana - ampliando seu lucro - e o ciclo se repetirá. 

É por isso que o quadro é chamado de ciclo de destruição.

Pesquisas de opinião mostram que os italianos não querem abrir mão do euro, fato que pode levar a certo comedimento. O governo já reagiu antes à pressão, nomeando o moderado Giovanni Tria para o ministério das finanças depois das objeções à nomeação original para o cargo, Paolo Savona, economista que tinha escrito a respeito de um abandono do euro por parte da Itália.

Provocar Bruxelas tem sido uma estratégia vitoriosa para os atuais líderes italianos, e eles não dão sinais de mudar de rumo.

“We care about markets", disse Di Maio em entrevista à televisão. Mas, se obrigado a escolher entre o rendimento dos títulos da dívida e o povo italiano, ele acrescentou, “Fico ao lado do povo italiano".

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