Francesca Volpi para The New York Times
Francesca Volpi para The New York Times

Itália silencia em meio a denúncias de abuso por parte do clero

Em uma sociedade profundamente ligada à Igreja Católica, vítimas lamentam morosidade da Justiça quanto ao prosseguimento das investigações

Elisabetta Povoledo, The New York Times

27 de fevereiro de 2019 | 06h00

SAVONA, ITÁLIA - Nos acampamentos, Francesco Zanardi e outros meninos dE sua paróquia sempre temiam o convite para dormir na barraca do padre. "Todos sabíamos o que acontecia com o menino na barraca", disse Zanardi, que afirmou ter sido abusado pelo padre pela primeira vez aos 11 anos.

Zanardi, 48, contou que foi vítima da prática durante anos, situação que o deixou traumatizado e abriu as portas para um problema de abuso de substâncias. Isso também o levou a fundar o grupo Rete L'Abuso - cujo nome significa Rede Abuso -, o primeiro voltado ao apoio de sobreviventes do abuso clerical na Itália - país que, piorando ainda mais uma situação de extrema indignidade, muitas vezes parece não se importar.

Os especialistas dizem que essa indiferença é principalmente consequência do quanto a Igreja Católica Romana está misturada à cultura e à história italianas. Mesmo hoje, embora o Vaticano e seus papas não exerçam tanto poder quanto antes, as igrejas paroquiais e os padres costumam desempenhar um papel centrar na vida de uma comunidade.

Em fevereiro, a Comissão das Nações Unidas para os Direitos da Criança reprovou a Itália no quesito de proteção dos menores diante da exploração sexual. A comissão manifestou sua preocupação "com os numerosos casos de crianças que sofrem abusos sexuais por funcionários religiosos da Igreja Católica" e com o "baixo número de investigações e processos criminais" decorrentes dessas denúncias.

E enquanto outros países investigaram a fundo o problema dos abusos cometidos por membros do clero, a Itália abordou os casos com algo mais parecido com um silêncio da mídia.

Se os bancos vazios de muitas paróquias indicam que a população da Itália é católica apenas no papel, os laços culturais com a igreja ainda são fortes. Os festivais em homenagens a santos padroeiros das cidades mobilizam a população, seja ela fiel ou não, e cerca de 8 mil oratórios administrados pela igreja em toda a Itália oferecem atividades para crianças após o período escolar.

"Geralmente, os italianos conhecem o padre de sua paróquia, e, se ficam sabendo de algum caso de abuso em outro lugar, costumam dizer, 'Sim, é uma coisa horrível, mas nosso padre jamais seria capaz de algo assim'", disse Monsignor Lorenzo Ghizzoni, funcionário da igreja italiana encarregado de proteger os menores.

Os sobreviventes acusam o governo e o judiciário, que age lentamente na investigação dos casos de abuso por parte do clero, de tentarem abafar o problema.

Não há estatísticas confiáveis para o número de vítimas de abuso por parte do clero na Itália. Mas, rastreando os casos por meio de denúncias confidenciais e noticiários, principalmente nos jornais locais, o grupo de Zanardi, Rete L'Abuso criou um mapa dos supostos crimes.

Num caso que recebeu considerável atenção em 2010, investigadores do Vaticano analisaram denúncias de abusos cometidos no Instituto Antonio Provolo, uma escola católica para deficientes auditivos em Verona. Alessandro Vantini tinha 6 anos quando chegou ao Provolo nos anos 1950. Agora, aos 68 anos, ele diz ter sido abusado repetidas vezes pelos padres de lá. Ele se lembra de ter pedido ajuda uma vez, sem resultado: 

"Éramos surdos, ninguém nos dava atenção. Eu chorei. Senti como se estivesse morto", contou.

Alguns dos analistas que dizem que a resposta do papa Francisco para a crise de abusos tem sido lenta apontam para o fato de ele estar cercado de conselheiros italianos numa burocracia essencialmente italiana, no coração da Itália.

Gianni Bisoli afirmou que sofreu abusos durante sete anos quando estava no Provolo, a partir dos 9 anos de idade. Isso foi há mais de meio século. Alguns daqueles que abusaram dele já estão mortos, mas, segundo ele, há outros vivos.

"O papa fala muito, mas não faz nada", lamentou Bisoli. 

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