Nadia Shira Cohen for The New York Times
Nadia Shira Cohen for The New York Times

Italianas vítimas de abusos lutam contra desconfiança e descaso das autoridades

São mortas no país cerca de 150 mulheres por parceiros violentos, uma das taxas mais altas da Europa

Gaia Pianigiani, The New York Times

16 Agosto 2018 | 15h00


ROMA - Casada há 16 anos, Antonietta Gargiulo tentava manter distante o marido agressor, um policial. Ela contou com detalhes a violência aos familiares, a amigos, ao padre da paróquia e às colegas, que inclusive viram quando ele a atacou fisicamente na frente da fábrica onde ela trabalhava.

Antonietta entrou na justiça. Denunciou os abusos do marido ao delegado, pedindo ajuda e implorando que levassem embora o seu revólver de serviço; em vão.

Uma manhã, este ano, o marido, Luigi Capasso, atirou contra ela, os filhos e se matou. Antonietta tinha 39 anos, sobreviveu a três tiros; as crianças, de 8 e 13 anos, morreram.

O crime, ocorrido em Cisterna di Latina, uma cidade ao sul de Roma, logo chamou a atenção para um problema crônico na Itália - a falta de uma reação eficiente, abrangente aos abusos contra as mulheres.

Anualmente, são mortas no país cerca de 150 mulheres por parceiros violentos, segundo o Eures, um instituto de pesquisa independente: uma das taxas mais altas da Europa.

Em mais de 33% dos casos fatais na Itália, segundo o Eures, as vítimas já apresentaram queixa à polícia.

“Quando as mulheres contam a sua história, as autoridades raramente acreditam nelas, e assim elas cansam de fazer denúncias”, disse Lella Paladino do Di.Re, um grupo de defesa da mulher.

“A polícia retirara a arma de Capasso anos antes, quando ele estava sendo investigado por fraude, mas não por causa da violência doméstica contra a esposa”, ela disse. “É este o abismo de valores que enfrentamos”.

A Itália é signatária de convenções internacionais sobre a repressão da violência contra as mulheres.

As mulheres que levantam a sua voz frequentemente são deixadas anos a fio à mercê do bizantino sistema judiciário da Itália, enquanto os seus parceiros ameaçam denunciá-las por difamação, as perseguem ou continuam submetendo-as a maus tratos.

Uma delas, de 45 anos, que trabalhava em um café e não quis que o seu nome fosse divulgado, contou que foi aos tribunais tantas vezes que algumas pessoas pensaram que ela fosse uma advogada.

Durante anos, ela lutou para que seu marido fosse obrigado a se manter longe dela e dos quatro filhos, os quais afirmam que o pai repetidamente abusou deles sexualmente. “Antes, eu me sentia presa em uma espiral de violência, ceticismo e um sistema judiciário lento como uma lesma, não imaginava que fosse assim”, ela falou.

Em um momento de raiva, contou, o marido a espancou enquanto a filha de 3 anos se agarrava à perna da mãe. Quando a polícia finalmente atendeu, o policial perguntou se ela não tinha simplesmente discutido com o marido.

As mulheres esperam até dois anos para um juiz ouvir o seu caso, e até 10 anos por uma sentença.

A funcionária do café viveu sete meses com os quatro filhos em um abrigo, protegido por barras de ferro e um portão enorme, fora do qual, o marido, um professor, esperava por eles quase todos os dias. Um juiz permitiu que ele visse os filhos duas vezes por semana, embora tivesse sido diagnosticado como portador de distúrbios mentais.

As visitas permitidas pararam em setembro do ano passado, quando seu filho de 13 anos atacou o pai na frente da escola, gritando para ele deixar as irmãs em paz, e três das crianças disseram que o pai as tocava.

Cristina Ercoli, que administra um abrigo em Roma, disse: “As mulheres não passam de mercadoria” para estes homens acostumados a bater. “Eles reduzem suas esposas a escravas, acabam com a sua dignidade. A violência é uma consequência normal desta cultura”.

A mãe dos quatro filhos ainda espera uma decisão da justiça.

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