Guerin Blask / The New York Times
Guerin Blask / The New York Times

Aos 85 anos, 'ativista dos chimpanzés' Jane Goodall ainda não parou de pregar

Em entrevista, a cientista narra sobre seus esforços para captação de fundos para iniciativas de conservacionismo e de combate à pobreza na África

David Gelles, The New York Times

27 de setembro de 2019 | 06h00

Jane Goodall passa os dias falando com qualquer um que a escute. Com crianças, diretores executivos e políticos. Sua mensagem é sempre a mesma: as florestas estão desaparecendo. Os animais estão se calando. Nosso tempo está se esgotando. Ela, uma celebrada primatologista, esteve em Nova York em meio aos seus esforços atuais de captação de fundos para seu instituto e seus afiliados. Sua ONG levanta dinheiro para iniciativas de conservacionismo e combate à pobreza por toda África.

Jane, de 85 anos, falou a respeito de seu ativismo e sobre como empresários e consumidores podem fazer a diferença. Esta entrevista foi resumida e editada em nome da clareza no texto.

Quando você soube que queria tornar o trabalho com chimpanzés o trabalho de sua vida?

Não havia em mim nenhum pensamento sobre me tornar cientista, pois meninas não eram cientistas nesse sentido, naqueles tempos. E, na verdade, não havia nenhum homem se atrevendo a viver na selva. Então, meu exemplo foi o Tarzan. Foi quando ganhei aquele livro que meu sonho começou: quando crescer, vou para a África viver em meio a animais selvagens e escrever livros sobre eles.

Quando começou a ir a campo, qual foi sua abordagem no trabalho?

Eu não tinha nenhum treinamento acadêmico, então, não tinha nenhuma maneira reducionista de pensar. Eu simplesmente usava o bom senso.

Trabalhar com chimpanzés lhe ensinou alguma coisa sobre os humanos?

Sim: que temos sido muito arrogantes em pensar que somos tão diferentes deles. Resulta que os chimpanzés se mostraram parecidos conosco não só do ponto de vista comportamental, mas também biológico — compartilhando 98,6% do nosso DNA. Não somos, afinal, separados do reino animal. Somos parte dele.

Tornar-se uma ativista veio naturalmente para você?

Não, eu era muito tímida. Isso aconteceu porque ajudei a organizar uma conferência em 1986. O propósito era descobrir se o comportamento dos chimpanzés muda em ambientes diferentes. Mas também tivemos um colóquio sobre conservacionismo. E, em todas aquelas localidades, as florestas estavam sendo derrubadas, e o número de chimpanzés estava diminuindo. Também tivemos discussões a respeito de como os chimpanzés são treinados para circos, pesquisa médica, laboratórios. Depois de assistir a um vídeo gravado secretamente em um laboratório de pesquisas, não conseguia dormir. Fui para a conferência como uma cientista e saí de lá uma ativista.

Que estratégias você descobriu serem efetivas para promover o conservacionismo?

Quando descobrimos os problemas dos chimpanzés em Gombe, Tanzânia, também soubemos do sofrimento do povo — pobreza, falta de cuidados de saúde e de educação. Daí, estabelecemos um microcrédito e rapidamente constatamos os efeitos dele nas mulheres. Então, conseguimos dinheiro para bolsas de estudo para manter as meninas na escola. Começamos a recuperar a fertilidade dos solos de fazendas exauridas, introduzindo melhorias na educação para a saúde e informações sobre planejamento familiar. Agora, eles amam nossa organização e estão criando corredores para que os chimpanzés isolados do Gombe possam interagir com outros grupos de chimpanzés.

Qual a sua mensagem para os empresários hoje?

Um milhão de espécies estão em perigo de extinção. Então, digo o seguinte para a comunidade empresarial: apenas pensem logicamente. Como pode fazer sentido continuarmos a ser da maneira que somos hoje, fazendo tudo do mesmo jeito, obtendo desenvolvimento econômico ilimitado em um planeta com recursos naturais finitos e uma população em crescimento?

Mas os consumidores também têm um enorme papel a desempenhar. Se você não gosta da maneira como os empresários fazem negócio, não compre seus produtos. Essa atitude está começando a promover uma mudança. As pessoas deveriam pensar nas consequências das pequenas escolhas que fazem todos os dias.

O que você compra? Onde isso foi fabricado? Prejudicou o meio ambiente? Levou a crueldade contra animais? Foi barato porque utilizou trabalho escravo de crianças?  E pode lhe custar um pouco mais comprar alimentos orgânicos, mas se você paga um pouco mais, desperdiça menos. Nós desperdiçamos demais. E comam menos carne. Ou nenhuma carne. Porque o impacto do consumo de carne para o meio ambiente é horrível, sem mencionar a crueldade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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