Eve Edelheit/The New York Times
Eve Edelheit/The New York Times

Janis Ian deixa sua música falar o que pensa pela última vez

Aos 70 anos, cantora e compositora que nunca teve medo de assuntos difíceis está lançando seu último álbum, 'The Light at the End of the Line'

Jim Farber, The New York Times Life/Style

16 de fevereiro de 2022 | 05h00

Em uma manhã recente, Janis Ian falou abertamente de seu local de trabalho na Flórida sobre uma carreira de 50 anos marcada por letras literárias, ativismo social e grandes sucessos. Apenas um assunto a interrompeu. Ao ponderar sobre artistas mais jovens que a citaram publicamente como inspiração, ela fez uma pausa e ergueu os braços. “Não consigo pensar em uma. Muitas pessoas dizem: 'Joni Mitchell é minha grande influência'", ela disse. “E eu pensei, espere um minuto. Eu não influenciei ninguém?”

Ela pode não receber os gritos mais altos, mas não há como negar que Ian muitas vezes serviu como uma vidente cultural.

Em 1967, ela se tornou uma das primeiras cantoras e compositoras totalmente autodeterminadas no pop, tendo escrito todas as faixas de seu álbum de estreia, lançado um mês antes de Laura Nyro, um ano antes de Mitchell e três antes de Carole King.

Os assuntos que a tornaram famosa, atípicos na época, tornaram-se onipresentes. Seu grande sucesso, Society's Child, escrito em 1965, quando ela tinha 14 anos, foi uma das primeiras canções de sucesso centrado em um romance inter-racial. Sua maior marca, At Seventeen, que alcançou o segundo lugar em 1975, enfrentou o lookism e o bullying com uma franqueza que antecipou o trabalho de artistas contemporâneos, incluindo Billie Eilish, Demi Lovato e Lizzo. Ian também foi uma das primeiras estrelas pop gays a se assumir no início dos anos 1990, e ela defendeu os downloads gratuitos como um dispositivo promocional quando a indústria fez tudo o que podia para acabar com eles.

Ian teve poucos modelos para seu caminho autodeterminado, citando apenas Nina Simone e Victoria Spivey, uma cantora e escritora de blues que causou seu primeiro impacto na década de 1920. De outra forma, ela disse, “tudo era identificado como masculino”.

A disparidade entre o mundo em que ela trilhou seu caminho e o de hoje tem estado na mente de Ian ultimamente por causa de uma importante decisão que ela tomou no ano passado. Aos 70 anos, ela lançou seu último álbum, The Light at the End of the Line, seguido de uma turnê de despedida. "Já está na hora", ela disse, com uma mistura de alívio e ansiedade. Ian disse que o desgaste de servir como sua própria empresária e editora de músicas, junto com a vida em turnê, deixou pouco tempo para a coisa que ela mais ama.

“Em primeiro lugar, sou escritora”, ela disse. “Eu quero escrever desesperadamente – qualquer tipo de escrita.”

Isso inclui haicai, contos e um romance que ela espera terminar em sua próxima vida. Ela trabalhará nisso em uma ampliação quase concluída realizada em sua casa, em uma ilha em Tampa Bay, onde mora com sua esposa de uma relação de 19 anos, Patricia Snyder, advogada de defesa criminal aposentada.

Suas músicas finais têm uma missão resumida. Na faixa-título, uma elegante balada acústica, ela se despede de seus fãs. “Alguns deles ficaram comigo por 56 anos”, ela disse. “Isso é mais do que eu conheço a maioria da minha família.” Em I’m Still Standing, a melodia robusta ressalta letras que abraçam as mudanças físicas trazidas pelo tempo, o que, disse Ian, explica o cabelo branco e a falta de maquiagem que ela orgulhosamente ostentou em nossa entrevista. Na peça para piano de influência clássica Nina, ela saúda uma das artistas que mais admira, sua amiga, Nina Simone, que gravou uma versão arrependida da música Stars de Ian em 1976.

"Nina era tão complicada", disse Ian. “Ela poderia ser a amiga mais surpreendente e também a pessoa mais horrível. Mas, como artista solo, ela foi a melhor que eu já vi.”

Algumas das músicas novas são mais expressamente políticas. Perfect Little Girl estende o tema de At Seventeen, enquanto em Resist ela reaproveita o protesto social de músicas anteriores com letras que, entre outras coisas, usam uma linguagem crua para capturar a violência da mutilação genital feminina. Assim como em Society's Child, algumas estações de rádio disseram a ela que não a tocariam. "Eles disseram que é muito indecente", disse Ian. “A música é sexual de alguma forma que eu não percebi?”

Ian foi criada para levantar tais questões. Seu pai, professor de música, e sua mãe, secretária de uma faculdade, dirigiam um acampamento de verão progressista no norte do estado de Nova York. Por causa do envolvimento político de seus pais, o FBI grampeou o telefone da família, rastreou suas atividades e desencorajou as escolas a contratarem seu pai, assunto sobre o qual escreveu no álbum de 2000 God and the FBI.

Ian foi criada na área majoritariamente negra de East Orange, Nova Jersey, e isso ajudou a inspirá-la a escrever Society’s Child em 1965, um ano após a aprovação da Lei dos Direitos Civis. Seu produtor, Shadow Morton, um dos principais formadores de som de grupos femininos, tinha um acordo com a Atlantic Records que financiou a gravação, mas a gravadora se recusou a lançá-la. Ian nunca foi informada do motivo, embora ela tenha dito que Jerry Wexler, o presidente da Atlantic na época, mais tarde se desculpou pela decisão. A Verve Records pegou a música e a lançou duas vezes em 1966, sem sucesso.

Uma grande chance veio no ano seguinte, quando ela foi convidada para aparecer em um especial da CBS-TV, Inside Pop: The Rock Revolution, para o qual o apresentador Leonard Bernstein usou de seu enorme capital cultural para dar legitimidade à nova música explosiva da década de 1960. Ian disse que sua música “não teria ido a lugar nenhum sem o show”. No entanto, seu foco em questões de raça assustou estações de rádio o suficiente para parar sua ascensão na parada da Billboard no 14º lugar.

Depois de Society's Child, a Verve lançou mais três álbuns de Ian que não tiveram sucesso, mas em 1973, Roberta Flack fez um cover de sua música Jesse e foi um sucesso, o que ajudou Ian a conseguir um contrato com a Columbia Records. “Janis Ian escreveu músicas que tocam meu coração”, escreveu Flack em um e-mail. “Ela conta histórias em suas músicas com as quais muitos de nós podem se identificar – experiências ternas que nos ajudam a articular o que sentimos sobre como o mundo nos trata de tantas maneiras.”

Ian acredita que sua vontade de escrever sobre assuntos desconfortáveis se tornou seu métier. “Muitos outros artistas têm um dom para melodias, vocais e ótimas letras”, ela disse. “A única coisa que acho que faço melhor é falar sobre coisas que as pessoas têm dificuldade em expressar. Eu lhes dou uma maneira segura de expressá-las.”

Embora Ian ache angustiante que os assuntos difíceis sobre os quais ela escreveu permaneçam relevantes décadas depois, enquanto ela se prepara para deixar o mundo da música, ela acredita que o mundo mudou consideravelmente desde quando começou. “É muito fácil cair na toca do coelho e dizer que ‘nada melhorou'”, ela disse. “Não posso mais ser presa neste país por ser gay. Isso é uma diferença enorme. Eu acredito firmemente que as coisas funcionam do jeito que deveriam. Se isso acontecerá durante a minha vida, eu não sei. Mas acredito que as coisas vão melhorar.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES.

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