Noriko Hayashi / The New York Times
Noriko Hayashi / The New York Times

Por que trabalhadores da indústria de anime ganham tão mal no Japão?

Os animadores que fazem os programas japoneses que o mundo está assistindo podem ganhar apenas US$ 200 por mês. Muitos deles se perguntam por quanto tempo mais serão capazes de suportar isso

Ben Dooley e Hikari Hida, The New York Times - Life/Style

30 de março de 2021 | 05h00

TÓQUIO - Os negócios nunca estiveram melhores para o anime japonês. E é exatamente por isso que Tetsuya Akutsu está pensando em desistir.

Quando Akutsu se tornou animador há oito anos, o mercado global de anime - incluindo programas de TV, filmes e mercadorias - era pouco mais da metade do que seria em 2019, quando arrecadou cerca de US$ 24 bilhões. O crescimento durante a pandemia do streaming de vídeo acelerou ainda mais a demanda no Japão e no exterior, à medida que as pessoas maratonam produções familiares como Pokémon e extravagâncias cyberpunk como O fantasma do futuro.

Mas pouco desse lucro inesperado chegou a Akutsu. Apesar de trabalhar quase todas as horas em que está acordado, ele ganha apenas de US$ 1.400 a US$ 3.800 por mês como animador experiente e diretor ocasional em algumas das franquias de anime mais populares do Japão.

E ele é um dos sortudos: milhares de ilustradores com posições inferiores realizam trabalhos difíceis por apenas US$ 200 por mês. Em vez de recompensá-los, o crescimento explosivo da indústria apenas aumentou o abismo entre os lucros que ajudam a gerar e seus salários insignificantes, deixando muitos se perguntando se podem continuar seguindo sua paixão.

“Quero trabalhar na indústria de anime pelo resto da minha vida”, disse Akutsu, 29 anos, durante uma entrevista por telefone. Mas ao se preparar para começar uma família, ele sente uma intensa pressão financeira para deixar de lado o trabalho. “Eu sei que é impossível se casar e criar um filho [com esse salário].”

Os baixos salários e as péssimas condições de trabalho - hospitalização por excesso de trabalho pode ser um motivo de orgulho no Japão - têm confundido as leis habituais do mundo dos negócios. Normalmente, o aumento da demanda iria, pelo menos em teoria, estimular a competição por talentos, aumentando os salários dos trabalhadores existentes e atraindo novos.

Isso está acontecendo até certo ponto nos níveis mais altos do setor. Os ganhos anuais médios para ilustradores importantes e outros talentos de primeira linha aumentaram de cerca de US$ 29.000 em 2015, para cerca de US$ 36.000 em 2019, de acordo com estatísticas reunidas pela Associação Japonesa de Criadores de Animação.

Esses animadores são conhecidos em japonês como “genga-man”, o termo para aqueles que desenham o que chamamos de quadros-chave. Como um deles, Akutsu, um freelancer que circula pelos vários estúdios de animação do Japão, ganha o suficiente para comer e alugar um apartamento minúsculo em um subúrbio de Tóquio.

Mas seu salário é muito diferente do que ganham os animadores nos Estados Unidos, onde o salário médio pode ser de US$ 65.000 por ano ou mais, e trabalhos mais avançados pagam cerca de US$ 75.000.

E não faz muito tempo que Akutsu, que se recusou a comentar sobre as práticas de pagamento específicas dos estúdios para os quais havia trabalhado, estava trabalhando como um "douga-man", os animadores básicos que fazem o trabalho de quadro a quadro que transformam as ilustrações de um "genga-man" em ilusões de movimento contínuo. Esses trabalhadores ganharam em média US$ 12.000 em 2019, descobriu a associação de animação, embora tenha alertado que esse número foi baseado em uma amostra limitada que não incluiu muitos dos freelancers que recebem ainda menos.

O problema é resultado em parte da estrutura do setor, que restringe o fluxo de lucros para os estúdios. Mas os estúdios conseguem se safar com os baixos salários, em parte, porque há um grupo quase ilimitado de jovens apaixonados por anime e sonhando em fazer um nome na indústria, disse Simona Stanzani, que trabalhou no ramo como tradutora por quase três décadas.

“Existem muitos artistas por aí que são incríveis”, disse ela, acrescentando que os estúdios “têm muita oferta para estes postos de trabalho - eles não veem razão para aumentar os salários”.

Uma grande riqueza tem preenchido os cofres do mercado de anime nos últimos anos. As produtoras chinesas pagaram grandes quantias aos estúdios japoneses para produzirem filmes para o mercado doméstico do país. E em dezembro, a Sony - cuja divisão de entretenimento ficou muito para trás na corrida para disponibilizar conteúdo online - pagou quase US$ 1,2 bilhão para comprar o site de vídeos de anime Crunchyroll da AT&T.

Os negócios vão tão bem que quase todos os estúdios de animação do Japão são reservados com anos de antecedência. A Netflix disse que o número de famílias que assistiram anime em seu serviço de streaming em 2020 aumentou 50% em relação ao ano anterior.

Mas muitos estúdios têm sido excluídos da bonança por um sistema de produção antiquado que direciona quase todos os lucros da indústria para os chamados comitês de produção.

Esses comitês são coalizões ad hoc de fabricantes de brinquedos, editores de quadrinhos e outras empresas criadas para financiar cada projeto. Eles normalmente pagam aos estúdios de animação uma taxa fixa e reservam os royalties para si mesmos.

Os estúdios são tipicamente administrados por "criativos que querem fazer algo realmente bom" e "eles tentam fazer mais do que realmente podem e são ambiciosos demais", disse Justin Sevakis, fundador da Anime News Network e CEO da MediaOCD, uma empresa que produz anime para ser lançado nos EUA.

“Quando terminam, é muito provável que tenham perdido dinheiro no projeto”, disse ele. “Todo mundo sabe que é um problema, mas infelizmente é tão sistêmico que ninguém sabe realmente o que fazer a respeito”.

O mesmo se aplica à natureza punitiva do trabalho. Mesmo em um país com uma devoção às vezes fatal ao escritório, a indústria de anime é famosa por suas demandas brutais aos funcionários, e os animadores falam com um senso de orgulho perverso sobre sacrifícios como dormir em seus estúdios por semanas a fio para finalizar um projeto.

No primeiro episódio de Shirobako, um anime sobre os esforços de jovens para entrar na indústria de animes, uma ilustradora se acaba em febre à medida que o prazo se aproxima. O final do suspense não depende de sua saúde, mas se o programa que ela está desenhando será concluído a tempo de ir ao ar.

Jun Sugawara, um animador de computador e ativista que dirige uma organização sem fins lucrativos que oferece moradias a preços acessíveis para jovens ilustradores, começou a fazer campanha em nome deles em 2011, depois de ficar sabendo das condições precárias enfrentadas pelos trabalhadores que criam seu anime favorito.

As longas horas de trabalho dos animadores parecem violar as leis de trabalho japonesas, disse ele, mas as autoridades têm demonstrado pouca preocupação, embora o governo tenha feito do anime uma parte central dos esforços de diplomacia pública por meio do programa Cool Japan.

“Até agora, os governos nacionais e locais não têm estratégias eficazes” para lidar com o problema, disse Sugawara. Ele acrescentou que o “Cool Japan é uma política sem sentido e irrelevante”.

Em uma entrevista, um funcionário do Ministério do Trabalho do Japão disse que o governo estava ciente do problema, mas tinha poucos recursos, a menos que os animadores apresentassem uma queixa formal.

Alguns fizeram isso. No ano passado, pelo menos dois estúdios chegaram a acordos com funcionários sobre alegações de que os estúdios violavam as regras trabalhistas japonesas ao não pagarem por horas extras.

Nos últimos anos, algumas das maiores empresas do setor mudaram suas práticas trabalhistas após serem pressionadas pelos legisladores e pelo público, disse Joseph Chou, que possui um estúdio de animação por computador no Japão.

A Netflix também se envolveu, anunciando em fevereiro que formará uma parceria com o WIT Studio para fornecer suporte financeiro e treinamento a jovens animadores que trabalham com conteúdo para o estúdio. Com o programa, 10 animadores receberão cerca de US$ 1.400 por mês durante seis meses.

Mas muitos dos estúdios menores mal estão sobrevivendo e não têm muito espaço para aumentar os salários, disse Chou. “É um negócio de margem de lucro muito baixa”, disse ele. “É um ramo que exige muita mão-de-obra.” Ele acrescentou que os estúdios “que conseguem se adaptar são os grandes, os de capital aberto”. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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