Nadia Shira Cohen para The New York Times
Nadia Shira Cohen para The New York Times

O vilarejo japonês onde há mais bonecas do que pessoas

À medida que a população do Japão envelhece e diminui, as áreas rurais estão ficando sem habitantes. Em uma vila sem filhos, grupo de adultos compensa ausência com a companhia de bonecas artesanais

Motoko Rich, The New York Times

29 de dezembro de 2019 | 06h00

NAGORO, JAPÃO - As últimas crianças nasceram nesse remoto vilarejo das montanhas há 18 anos. Agora, pouco mais de dezenas de adultos habitam o lugar. A escola do ensino infantil foi fechada em 2012, quando os dois últimos estudantes completaram o sexto ano. Mas, em um dia recente, Tsukimi Ayano trouxe a escola de volta à vida.

Tsukimi reuniu mais de 40 bonecas feitas à mão em um arranjo imitando cenas da vida para recriar um feriado esportivo escolar conhecido como “undokai", uma característica elementar do calendário japonês. Colocou bonecas do tamanho de crianças disputando uma corrida, brincando no balanço e arremessando bolas. “Queria que houvesse mais crianças, pois a vida seria mais animada", disse Tsukimi, nascida em Nagoro. Ela prepara o festival anual com as bonecas há sete anos. “Por isso, fiz as crianças.”

A população do Japão está encolhendo e envelhecendo, especialmente nas regiões rurais. “Não há chance para os jovens aqui", disse Tsukimi, que lembra da época em que o vilarejo tinha uma clínica, um salão de pachinko (caça-níqueis) e um restaurante. Agora, não restou nenhuma loja.

As cerca de 350 bonecas feitas por Tsukimi e suas amigas são mais de dez vezes mais numerosas que os habitantes humanos. Em toda a Nagoro, ela dispôs as bonecas em cenas evocando as pessoas que ja povoaram a cidade. Uma senhora cuida de um túmulo na beira da estrada. Operários da construção fumam cigarros.

Dentro da escola, há bonecas sentadas nas carteiras. Tsukimi tem um toque brincalhão, dando a muitas figuras uma aparência travessa. “Não me parece algo sinistro", disse a enfermeira francesa Fanny Raynaud, 38 anos, que viajava com o marido. “Me parece uma linda maneira de dar nova vida ao vilarejo.”

Mesmo quando Tsukimi era criança, a população era de apenas 300 pessoas. Durante os anos 1950 e 1960, a região foi impulsionada pela engenharia florestal, construção de estradas e de represas. Depois que as represas foram construídas, muitos foram embora. Para chegar ao supermercado ou ao hospital mais próximo, os moradores de Nagoro precisam dirigir por uma hora e meia. “É para quem gosta mesmo de viver na montanha", disse Tatsuya Matsuura, 38 anos, residente mais jovem de Nagoro. Mesmo com subsídios para a creche, desconto no atendimento médico e auxílio para a habitação, o local não consegue atrair novos moradores.

Tsukimi foi embora aos 12 anos, quando o pai aceitou um emprego em Osaka. Ali, conheceu o marido e criou dois filhos. Depois de se aposentar, o pai dela voltou a Nagoro. Dezesseis anos atrás, Tsukimi voltou para cuidar dele. Na frente de sua casa, plantou sementes e fez um espantalho parecido com o pai. Acrescentou bonecas cuidando do campo e outras na beira da estrada. Quando viajantes pararam para pedir informações às bonecas, ela começou a se dedicar a elas em tempo integral.

Na véspera do festival, Tsukimi preparou cenas com a ajuda de voluntários. No dia seguinte, crianças vieram de vilarejos próximos. Kayoko Motokawa, de 67 anos, se disse triste ao saber que Nagoro é agora mais conhecida pelas bonecas do que pelas pessoas. “Se fossem humanos de verdade", disse Kayoko, falando durante as festividades, “esse seria um lugar verdadeiramente feliz". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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