Ko Sasaki para The New York Times
Ko Sasaki para The New York Times

Japão se torna grande fornecedor de peças no setor de robótica

Cresce no país o número de empresas responsáveis por desenvolver produtos que criarão outros produtos

Michael Schuman, The New York Times

02 Junho 2018 | 10h45

TÓQUIO - Foles não têm nada de sensual, mas neles pode estar o futuro do Japão. Estes objetos cilíndricos de metal fabricados pela Irie Koken não se assemelham em nada aos aparelhos pelos quais o Japão se tornou famoso, como o Walkman da Sony, o Game Boy da Nintendo ou o Prius da Toyota. Entretanto, sua função é fundamental: eles permitem aos fabricantes de semicondutores e painéis de LCD manter a limpeza e o funcionamento de seus produtos. “A tecnologia usada na fabricação destes produtos é muito complexa”, disse Norihiro Irie, presidente da Irie Koken. “Nem todas as companhias conseguem produzi-la”.

É possível que o Japão esteja assumindo uma nova função fundamental na economia global: fabricar o produto que fabrica os produtos para a revolução digital dos dias atuais. O país se tornou um fornecedor essencial da robótica que movimenta as linhas de montagem, os sistemas eletrônicos dos automóveis, as placas dos circuitos e os sensores e outras peças dos smartphones.

O Japão está avançando na criação de “uma estratégia totalmente diferente”, disse Ryoji Musha, diretor da empresa de análise econômica Musha Research em Tóquio. “O país vai se revelar uma espetacular locomotiva da economia global”.

Nos dois últimos anos, sua produção econômica registrou a mais prolongada expansão desde os anos 1980. O crescimento de 1,7%, no ano passado, foi o mais elevado dede 2013.

Mas as empresas japonesas terão de manter sua vantagem qualitativa em relação à China, que está se equiparando ao Japão na produção de televisores e eletrodomésticos, e também a Estados Unidos, Coreia do Sul e Taiwan.

A sociedade japonesa continua encolhendo, o número de idosos é cada vez maior, e ela permanece cética na questão dos imigrantes, o que torna difícil para as companhias encontrar uma mão de obra suficientemente especializada, obrigando-as a buscá-la no exterior.

A tecnologia da informação tem sido cada vez mais crucial em praticamente todos os setores, e as fábricas procuram aumentar sua eficiência, enquanto prevê-se um aumento da demanda de robôs, de chips e de outros produtos da área de tecnologia - além das peças e máquinas "made in Japan" necessárias para a sua produção.

“Mesmo que haja uma recessão, não acredito que possa alterar o crescimento”, afirmou Rosen Diankov, diretor de tecnologia da empresa de robótica Mujin Inc. Diankov, especialista americano em robótica, que criou a Mujin com Issei Takino para a produção de dispositivos que controlam os robôs industriais.

Este tipo de empreendedorismo é muito raro no Japão, onde o capital de risco e a disposição a encarar o risco são escassos. Mas os fundadores da Mujin acreditam que o Japão está abrindo o caminho na área de automação.

A complexidade destes produtos japoneses altamente especializados poderá proporcionar a necessária vantagem competitiva. Ao contrário das TVs, dos aparelhos de CDs e de outros eletrônicos que tornaram possível o boom do Japão no passado, os controladores da Mujin e os foles da Irie Koken são muito mais difíceis de ser copiados pelos fabricantes na China e de outros países.

A Panasonic, gigante da eletrônica, outrora sinônimo de televisores e gravadores de vídeo, nos últimos seis anos teve de reduzir drasticamente suas operações de produtos de consumo. Sua opção foi a de fabricar produtos para a eletrônica industrial, como as baterias para os roadsters da Tesla, sensores e câmeras para automóveis.

Entretanto, até os sensores mais competitivos não estão imunes aos problemas que o Japão enfrenta. A forte escassez de mão de obra já prejudica as empresas, segundo Marcel Thieliant, especialista em Japão na área de pesquisa da Capital Economics, que acrescentou que o país não está disposto a acolher o número suficiente de estrangeiros para compensar este impacto.

“O problema demográfico continuará persistindo”, afirmou Thieliant. “Se não permitir o ingresso de novos imigrantes, o país esbarrará em um obstáculo enorme”. / Chie Kobayashi contribuiu para a reportagem.

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