Noriko Hayashi para The New York Times
Noriko Hayashi para The New York Times

Japão investe em usinas de carvão, apesar de riscos climáticos

Cerca de 22 novas usinas de carvão - uma das fontes de energia mais sujas - surgirão em 17 locais em todo o país

Hiroko Tabuchi, The New York Times

11 de fevereiro de 2020 | 06h00

Um pouco depois do apartamento de Satsuki Kanno com vista para a Baía de Tóquio, um colosso de uma era passada logo se erguerá, na forma de uma usina termoelétrica movida a carvão. Isso é uma das consequências do desastre nuclear de Fukushima, ocorrido quase uma década atrás, que forçou o Japão a praticamente encerrar seu programa de energia nuclear.

O Japão planeja agora construir até 22 novas termoelétricas movidas a carvão - uma das fontes de energia mais poluentes - em 17 localidades, ao longo dos próximos cinco anos, em um momento em que o mundo precisa cortar as emissões de dióxido de carbono para combater o aquecimento global.

“Por que carvão? Por que agora?”, questionou Kanno, uma dona de casa que vive em Yokosuka, onde duas usinas serão construídas. “É a pior coisa possível que eles podiam construir.” Juntas, as termoelétricas emitirão anualmente quase a mesma quantidade de dióxido de carbono que todos os carros de passeio vendidos todos os anos nos Estados Unidos. As construções contrastam com o esforço do Japão em divulgar os Jogos Olímpicos de Tóquio como um dos mais ecológicos já realizados.

O projeto de Yokosuka ocasionou um rechaço incomum no Japão, onde entidades ambientalistas costumam concentrar suas reclamações na energia nuclear. Alguns moradores da região estão processando o governo por causa de sua opção pela nova usina termoelétrica a carvão. A queixa argumenta que a usina irá degradar a qualidade do ar da região e colocar comunidades em perigo ao contribuir para as mudanças climáticas.

O Japão já vem experimentando efeitos severos do aquecimento global. Cientistas têm dito que uma onda de calor em 2018 que matou mais de mil pessoas não teria ocorrido se não fossem as mudanças climáticas. Por causa de preocupações com o calor, o Comitê Olímpico Internacional resolveu transferir a maratona da Olimpíada de Tóquio para uma cidade mais fresca, cerca de 1,1 mil quilômetros ao norte.

O Japão tem usado os próximos Jogos Olímpicos para ressaltar sua transição para uma economia mais adaptável ao clima, exibindo inovações como estradas que dispersam calor. Os organizadores afirmaram que a eletricidade das Olimpíadas virá de fontes renováveis. Os investimentos no carvão ameaçam abalar essa mensagem.          

“O Japão divulga Olimpíadas de baixas emissões, mas, no mesmo ano do evento, vai começar a operar cinco novas termoelétricas movidas a carvão, que vão emitir muitas vezes mais dióxido de carbono do que as Olimpíadas podem compensar”, afirmou Kimiko Hirata, uma das diretoras da Kiko Network, uma entidade que promove ações ambientais.

O Japão depende do carvão para mais de um terço de suas necessidades de geração de energia. E enquanto termoelétricas mais antigas começarão a ser aposentadas, finalmente reduzindo a dependência do carvão em geral, a expectativa do país é que mais de um quarto de sua eletricidade ainda seja gerada a partir do carvão em 2030. 

O apetite do Japão por carvão não decorre somente do acidente nuclear em Fukushima. O consumo de carvão vem subindo há décadas, enquanto o país, pobre em fontes de energia e dependente de importações para suprir a maior parte de suas necessidades energéticas, se esforçou para se desvencilhar do combustível estrangeiro após a crise do petróleo da década de 1970.

Fukushima, porém, produziu um outro tipo de crise energética e mais motivos para manter o investimento em carvão. O governo acredita que as empresas do país devem continuar investindo em combustíveis fósseis para manter as fontes de energia diversificadas.

Juntando gás natural e petróleo, os combustíveis fósseis suprem cerca de quatro quintos das necessidades de energia do Japão, enquanto fontes renováveis, lideradas pela hídrica, são responsáveis por aproximadamente 16%. A energia nuclear, que já forneceu até um terço da eletricidade consumida no Japão, passou a fornecer 3% em 2017.

Filho de um ex-premiê japonês, o novo ministro do meio-ambiente, Shinjiro Koizumi tem sido alvo da fúria dos ambientalistas. Koizumi demonstrou não estar à altura de seu predecessor, Yoshiaki Harada, que havia declarado que o Ministério do Meio Ambiente não aprovaria a construção de nenhuma grande usina termoelétrica movida a carvão.

Koizumi evitou promessas tão explícitas, mostrando-se favorável a mais garantias genéricas de que o Japão diminuirá seu consumo de carvão no futuro. Em Yokosuka, Tetsuya Komatsubara, de 77 anos, um morador da região, tem operado dois pequenos barcos de pesca no litoral há seis décadas, mergulhando para pescar mariscos gigantes, que já foram abundantes nas águas de Tóquio. Cientistas registraram uma elevação na temperatura do mar nas proximidades de Tóquio de mais de 1º C na última década, provocando o caos nos mercados de pescado de lá. 

Komatsubara afirmou que consegue sentir em sua pele o aumento da temperatura da água e está preocupado com a possibilidade de as novas usinas também serem prejudiciais para a indústria da pesca, que já está em declínio. “Eles dizem que as temperaturas estão aumentando. Nós sabemos disso há muito tempo. É hora de fazer algo a respeito.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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