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Ruth Fremson/The New York Times
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No Japão, a vespa assassina é uma ameaça letal e também uma iguaria saborosa

Bem antes de os insetos chegarem às costas americanas, alguns japoneses já os elogiavam por sua crocância que entorpece a boca e a pitada venenosa que acrescentam às bebidas alcoólicas

Ben Dooley, The New York Times - Life/Style

04 de dezembro de 2020 | 05h00

TÓQUIO - Muito antes de a vespa asiática gigante começar a aterrorizar as abelhas do Estado de Washington, os ferozes insetos representavam uma ameaça às vezes letal para excursionistas e agricultores nas montanhas da zona rural do Japão. Mas na região de Chubu, esses insetos, às vezes chamados “vespas assassinas” – são conhecidos não só pela sua agressividade e a picada dolorosa, mas como um aperitivo agradável e um ingrediente revigorante acrescentado em bebidas alcoólicas.

A vespa gigante, junto com outras variedades de vespas, tradicionalmente é considerada uma iguaria nesta região do país. As larvas são conservadas em recipientes, fritas ou cozidas no vapor com arroz, resultando em um prato saboroso chamado hebo-gohan. As vespas adultas, que podem chegar a cinco centímetros de comprimento, são assadas em espetos, com o ferrão e tudo mais, até a carapaça ficar leve e crocante, dando uma sensação de calor e formigamento na boca.

As vespas também dão um toque a mais em bebidas alcoólicas. Espécimes vivos são mergulhados no shochu, uma bebida destilada clara e na sua agonia da morte liberam seu veneno no líquido, que fica armazenado até se transformar num tom escuro de âmbar. Mas a emoção, na verdade, não é comer ou beber os insetos, mas caçá-los.

Nos primeiros meses do verão, caçadores intrépidos seguem o rastro dos insetos até seus enormes ninhos que podem abrigar até mil vespas e suas larvas, nos buracos de árvores em decomposição ou subterrâneos. Eles atraem uma vespa com uma serpentina tendo na ponta um pedaço de peixe, e quando o inseto sai para pegar o peixe e decola, tem início uma corrida de obstáculos na floresta.

Quando encontram a colmeia, os caçadores atordoam os insetos com fumaça e usam motosserras e pás para tirá-las do ninho. Em outros casos, os abrigos dos insetos são arrancados por profissionais. Torao Suzuki, de 75 anos, disser ter removido 40 a 50 ninhos em um ano, sendo picado 30 vezes em cada estação. “Dói, incha, depois fica vermelho, mas é só isso”, afirmou referindo-se às picadas. “Acho que estou imune”.

Ele não come esses insetos. “Mesmo quando digo às pessoas que os insetos vão picá-las, elas ainda assim os comem. Dizem que as vespas as tornam potentes”, disse Torao. Ele também já vendeu os ninhos, que são troféus populares na região. As colmeias adornam vestíbulos e salas de estar nas casas, escolas e edifícios públicos.

Segundo alguns historiadores, os insetos, que se encontram por toda a Ásia, porém são mais comuns no Japão, outrora eram considerados nas áreas rurais uma fonte de proteína. Todos os anos no mês de novembro, na província de Gifu, há um festival conhecido como Kushihara Hebo Matsuri, onde prêmios são conferidos às maiores colmeias e os gourmands dão lances para ter o privilégio de voltar para casa com uma delas.

Mesmo neste festival o perigo representado pela vespa gigante, que já matou dezenas de pessoas no Japão nos últimos anos, está evidente. Um folheto do evento, em 2018, alertava os participantes para prestarem atenção às vespas soltas perto do espaço do festival, aconselhando-os a “tomarem todo o cuidado para não serem picados”. E que os organizadores “não têm nenhuma responsabilidade” pelas consequências caso alguém ignore os alertas.

As advertências vão bem além deste único evento. Todo ano, na primavera, órgãos do governo em todo país emitem informes sobre o inseto conhecido no Japão como “abelha pardal gigante” por causa do seu tamanho. As pessoas que se aventuram na floresta são aconselhadas a não usarem spray de cabelo e perfume, que atrai os insetos.

Assim, não surpreende que a prática de caçar e comer os insetos, como muitas outras tradições na zona rural do Japão, seja menos comum hoje como era antigamente. A Oomachi Wasp Appreciation Society de Nagano chegou a ficar famosa em todo o país por produzir biscoitos de arroz assados com os insetos.

 

A produção parou quando membros do grupo morreram ou ficaram muito velhos para fabricar os biscoitos, disse Sachiko Murayama, 70 anos, que pertence à diretoria de uma cooperativa local. Nas cidades japonesas, contudo, vem se verificando uma ressurgência do interesse em comer os insetos.

Alguns jovens são atraídos pela novidade e a ideia de que eles são uma fonte de proteína ecológica. Em Tóquio, a vespa gigante faz parte do cardápio de mais de 30 restaurantes. Shota Toguchida, proprietário de um restaurante chinês na cidade, diz que oferece doses de uma bebida artesanal feita com vespas que custam dois mil ienes, cerca de US$ 19, principalmente para homens de meia idade. Ele tem algumas garrafas no bar. “Parece surpreendente, mas tem um gosto ótimo”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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