John Marshall Mantel/The New York Times
John Marshall Mantel/The New York Times

Japonesas se rebelam contra 'ditadura' dos saltos altos

Milhares de mulheres apoiaram a hashtag #KuToo, um trocadilho baseado nas palavras em japonês para 'sapato' e 'dor'

Hisako Ueno e Daniel Victor, The New York Times

02 de julho de 2019 | 06h00

TÓQUIO - O Japão é o mais recente campo de batalha das mulheres, revoltadas contra a tirania - e a dor - dos saltos altos. Milhares de partidárias do movimento solidarizaram-se no hashtag #KuToo - um trocadilho com as palavras japonesas sapato (kutsu) e dor (kutsuu). A idealizadora foi Yumi Ishikawa, de 32 anos, que precisou mudar de carreira por ter dificuldade de usar sapato de salto alto durante oito horas seguidas quando treinava para obter um emprego.

No inicio de junho, ela enviou uma petição ao Ministério do Trabalho assinado por cerca de 30 mil pessoas, solicitando uma lei que impedisse que as empresas obrigassem as mulheres a usar saltos altos.

Yumi disse que sua iniciativa foi recebida com ceticismo pelas autoridades, que afirmaram que seria difícil legislar sobre a matéria se o mundo do trabalho não mudasse sua cultura.

"Acho que o governo e as empresas não querem assumir o risco de mudar a sociedade", disse.

O Japão é um país onde imperam rígidas regras de gênero, e os saltos altos são considerados um elemento atrativo, que dá prestígio, e por isso valeriam todo o desconforto. Mas também podem limitar as opções de carreira para uma mulher: as que não conseguem suportar o sofrimento dos saltos precisam evitar os setores em que o calçado é obrigatório.

Shino Naito, pesquisadora do Japan Institute for Labor Policy and Training de Tóquio, afirmou que a exigência do salto alto pode ser considerada um modo de assédio ao gênero.

"A questão aqui se resume em adotar ou impor um padrão feminino no local de trabalho", afirmou.

Nos últimos anos, as mulheres de outros países receberam apoio dos respectivos governos a esse respeito. Em 2017, as Filipinas e a Colúmbia Britânica aprovaram leis que impedem que as empresas forcem as mulheres a usar saltos altos no trabalho.

As críticas aos saltos têm sido frequentes em toda a história moderna. O jornal The New York Times noticiou a primeira reclamação em 1873 - por parte dos homens. O uso obrigatório de botas de salto alto para os soldados causou "muitas bolhas nos pés" e "uma postura desajeitada", dificultando a marcha. Mas as atenções logo se voltaram para as mulheres. 

Em 1911, médicos franceses alertaram que as mulheres que trocavam os sapatos de salto por um par de chinelas rasteiras ao voltar para casa poderiam causar mais mal do que bem aos pés. Segundo os médicos afirmaram ao Times, a prática "faz o pé passaar de um extremo ao outro, o que, no final, produzirá um sofrimento persistente".

O primeiro tuíte de Yumi sobre o assunto, em janeiro, foi compartilhado cerca de 30 mil vezes, sugerindo que ela tinha inúmeras simpatizantes. Mas as empresas não se mostraram igualmente entusiastas. Uma agência de publicidade avisou Yumi que, se reclamasse, criaria uma "posição difícil" para si própria.

"As mulheres nem sequer se dão conta de que estão se arriscando, porque este estilo está profundamente enraizado na cultura do trabalho", disse. "Devemos levar essa situação mais a sério". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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