Erik Tannes para The New York Times
Erik Tannes para The New York Times

Atriz Jessica Lange compartilha sua visão de mundo em livro de fotografias

Câmara dada de presente por um companheiro inspirou uma paixão por fotos

Ted Loos, The New York Times

21 de outubro de 2019 | 13h55

DULUTH, MINNESOTA - Em um dia em que uma luz prateada escorria pelas nuvens, Jessica Lange dirigia em direção ao norte, a partir de Duluth, Minnesota, na Highway 61.

Era a terceira viagem de Jessica ao longo dessa rota no verão, passando por densos bosques e cartazes anunciando peixe defumado e tortas caseiras. A estrada é o assunto de seu mais recente livro de fotos, “Highway 61”, lançado em 1º de outubro.

As 84 fotografias em preto e branco documentam todo tipo de vida ao longo da 61, que cruza os EUA da fronteira com o Canadá até Nova Orleans. Ela nasceu na cidade de Cloquet, Minnesota, e a estrada era uma ligação central para a família dela, mas o livro também fala a respeito das mudanças que ela presenciou - trechos da rota que ela descreve como “vazios, abandonados, como se estivessem de luto pelo que desapareceu”.

Não é que Jessica, 70 anos, estrela de dezenas de filmes e programas de TV, tenha desistido de atuar. Sua produção mais recente é The Politician, com Ryan Murphy. Ambos trabalharam juntos em “American Horror Story”, que rendeu a ela dois de seus três Emmys.

Ela começou a levar a sério a fotografia nos anos 1990, quando seu companheiro à época, o dramaturgo e ator Sam Shepard, retornou de uma viagem à Alemanha com uma Leica de presente. Ela encontrou na câmera uma maneira de tirar fotos de alta qualidade dos dois filhos do casal, e o hábito cresceu a partir daí.

Ganhadora de dois Oscars, Jessica dedicou parte dos seis anos mais recentes ao trabalho de documentar todos os oito Estados que a Highway 61 cruza.

No posfácio do livro, Jessica relata que o primeiro disco que comprou na vida foi “Highway 61 Revisited”, lançado em 1965 por Bob Dylan, também nascido em Minnesota.

As fotografias são granuladas, inundadas com luz intensa e sombras, capturando momentos singelos. A capa do livro mostra uma das imagens mais contundentes: de uma criança negra olhando diretamente à câmera.

“Isso é fotografia de rua, expressiva e emocional”, afirmou o experiente galerista Howard Greenberg, que está organizando uma mostra das imagens do livro de Jessica entre 21 de novembro e 18 de janeiro, em sua galeria de Nova York. “Não se trata de uma visão de turista. Ela chega perto de seus objetos.”

Sarah Paulson, sua colega de American Horror Story e amiga íntima, possui quatro das imagens de Jessica.

“Quando vemos através das lentes de Jessica, o sentimento é imediatamente visceral”, afirmou Sarah. “É o mesmo tipo de alquimia que a torna uma atriz tão extraordinariamente poderosa.”

Diante do sucesso de Jessica atuando, com que grau de seriedade, exatamente, ela pretende ser encarada como fotógrafa?

“Sabe como é”, afirmou ela, soando não amargurada, mas realista. “Sou uma atriz, portanto, não sou considerada uma fotógrafa. Então sou uma atriz que tira fotos. É uma categorização meio estúpida: se você é uma coisa, não pode ser outra.”

Mas o otimismo característico do meio-oeste e o que pareceu ser um dos traços de personalidade mais marcantes de Jessica - o que Sarah qualifica como um senso de “liberdade e abandono” - são irresistíveis. “Tenho um trabalho fixo”, afirmou ela, sorrindo. “Eu apenas adoro tirar fotografias. Essa é a única razão por que faço isso.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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