Gilles Sabrié/The New York Times
Gilles Sabrié/The New York Times

Ela é transgênero e uma das maiores celebridades da China

Jin Xing, a primeira pessoa no país a se submeter abertamente à cirurgia de redesignação sexual, é um nome conhecido. Mas ela diz que não representa a comunidade LGBTQ+

Vivian Wang e Joy Dong, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 05h00

Jin Xing, uma apresentadora de televisão de 53 anos, muitas vezes é chamada de Oprah Winfrey da China e tem uma visão bem definida sobre o que significa ser mulher. Ela importunou as convidadas dizendo para elas se apressarem e se casarem, e pressionou outras para ter filhos. Quando se trata de homens, ela recomenda que as mulheres ajam como se fossem indefesas para conseguir o que querem.

Isso talvez não seja tão incomum na China, onde as normas tradicionais de gênero ainda estão profundamente enraizadas, sobretudo entre os mais velhos. Só que Jin não é uma típica celebridade chinesa.

Como a primeira - e até hoje, única - celebridade transgênero da China, Jin é, de várias maneiras, considerada como um ícone progressista. Ela passou por uma cirurgia de redesignação sexual em 1995, a primeira pessoa no país a fazer isso abertamente. E apresentou um dos programas de entrevistas mais famosos da China, embora os estigmas contra as pessoas LGBTQ+ continuassem - e ainda continuam - generalizados.

As personalidades mais conhecidas da China apareceram em seu programa, o The Jin Xing Show. Brad Pitt certa vez tentou arranhar um pouco de mandarim com ela para promover um filme.

“Todos os meus amigos próximos debochavam de mim: ‘A China nunca deixaria você apresentar um programa de entrevistas’”, disse Jin, lembrando-se de quando compartilhou esse objetivo com eles pela primeira vez. “‘Como eles conseguiram deixar você, com sua identidade transgênero, aparecer na televisão?’”

Mas, mesmo que a biografia impressionante de Jin a tenha elevado a um patamar quase mítico, do mesmo modo, para alguns, sua história a tornou uma das figuras mais intrigantes da cultura pop chinesa.

Embora muitas vezes elogiada como uma pioneira para a comunidade LGBTQ+, ela rejeita o papel de ser representante de uma causa e critica os ativistas que, segundo seu ponto de vista, estão buscando um tratamento especial. “O respeito é conquistado por você mesmo, não é algo que você pede à sociedade para lhe dar”, disse ela.

Ela também atraiu críticas ferozes por suas opiniões em relação à feminilidade. Em um livro de memórias de 2013, Jin escreveu que uma “mulher inteligente” deveria fazer seu parceiro sentir que ela era uma “garotinha que precisa dele”. No The Jin Xing Show, ela disse à atriz Michelle Ye que somente depois de ter um filho ela se sentiria completa.

"Você diz isso como se tivesse dado à luz", respondeu Michelle com uma risada nervosa.

Mas isso não fez com que Jin parasse. “Dei à luz a mim mesma”, afirmou.

Jin se irrita quando é chamada de conservadora. Ela diz que, se fosse machista, teria continuado a viver como um homem. Ela denunciou a discriminação de empregos com base no gênero e chamou o dia da Mulher da China de feriado comercial vazio. Em maio, ela foi destaque em uma campanha da Dior que celebrava o empoderamento feminino, na qual ela disse que a coisa mais importante que qualquer mulher podia ser era independente.

Entretanto, ela admite que não está procurando ir contra as regras estabelecidas pelos homens, apenas ajudando as mulheres a lidarem melhor com elas.

“Qual porcentagem dos líderes mundiais são rainhas ou presidentas? Eles ainda são em sua maioria homens", disse Jin. “Se os homens conquistam o mundo para provar como são bons, as mulheres podem conquistar os homens para provar seu sucesso.”

Jin nasceu em 1967 em Shenyang, no nordeste da China. Seu pai era oficial do Exército e mãe, tradutora. Em suas memórias, ela escreveu ter gostado de quando amigos da família a compararam a uma “garotinha animada” por seu amor pela música e dança.

Aos 9 anos, ela foi recrutada por uma trupe de dança militar. Sua mãe foi contra a escolha, mas não por seu gênero, mas porque queria que a filha continuasse na escola que costumava frequentar, Jin escreveu. Tanto meninos como meninas podiam ganhar prestígio dançando nas forças armadas, onde as artes eram vistas como importantes ferramentas de propaganda.

Quando adolescente, Jin ganhou uma bolsa de estudos para dançar em Nova York, onde, em 1991, o The New York Times chamou uma de suas apresentações de "incrivelmente confiante". Depois de quatro anos nos Estados Unidos, ela participou de uma turnê pela Europa - aprendendo francês e italiano, mas já falava inglês, chinês, coreano e japonês.

Porém, em 1993, aos 26 anos, ela voltou à China para se preparar para se assumir como transgênero.

Embora soubesse que era mulher desde quando tinha 6 anos, ela não queria declarar isso até que estivesse suficientemente preparada, afirmou Jin. A cirurgia de redesignação sexual, embora legal, foi bastante criticada. Ela decidiu esperar até que se tornasse uma das dançarinas mais famosas da China.

“Quando você não acumula poder suficiente, não consegue falar o que pensa”, disse ela. “Assim que você conquista poder suficiente e as pessoas não conseguem lhe derrubar, você pode enfrentá-las.”

Seu plano mostrou-se acertado. Embora alguns a tenham atacado depois da cirurgia, grande parte do público a apoiou.

Ela fundou a Jin Xing Dance Theatre, a primeira companhia de dança privada do país, em 1999. Ela se tornou mãe solo ao adotar três crianças, apesar da política chinesa de apenas um filho ainda estar em vigor naquela época.

E fez com que não ter papas na língua fosse o segredo de seu sucesso na televisão.


A fama de Jin na televisão começou em 2013, quando seus comentários às vezes excessivamente críticos sobre concorrentes em um programa de dança lhe fizeram ganhar o apelido de "língua venenosa". Em 2015, ela canalizou essa popularidade para o The Jin Xing Show. Com os convidados, ela era calorosa e conspirativa. Mas ela também não hesitava em citar celebridades que considerava sem talento. Ela falava abertamente a respeito de temas tabu, inclusive de sexo.

Ela era polarizadora, mas muito popular, e dizia em seu programa que 100 milhões de pessoas ligavam a TV para vê-la a cada semana.

Jin não concorda em nada com a ideia de que sua fama esteja conectada à sua identidade transgênero.

“Não pensem que fiz uma cirurgia e me tornei uma pessoa encantadora. Nada disso. Quando eu era menino, era bastante encantador”, disse ela. “Deem qualquer rótulo para mim, homem ou mulher, ainda serei uma pessoa muito iluminada.”

Em 2017, The Jin Xing Show foi cancelado do nada. Na época, Jin culpou as “pessoas inferiores” que tinham inveja de seu sucesso, mas os detalhes da decisão nunca foram divulgados.

Desde então, ela continuou a comandar sua companhia de dança, vendeu produtos em transmissões ao vivo na internet e apresentou programas para formar casais. No entanto, nada disso chegou perto da popularidade de seu antigo programa de entrevistas.

Guo Ting, professora de estudos de gênero da Universidade de Hong Kong, disse que a queda de popularidade de Jin coincidiu com uma repressão governamental maior ao ativismo relacionado ao gênero. Embora não haja uma ligação clara entre ambas, o Estado nos últimos tempos tem tentado promover os valores tradicionais, disse Ting.

Contudo, como observaram outras pessoas, muitos na China estão aceitando mais as pessoas transgênero. Eles disseram esperar que Jin - fundamental como ela foi para essa aceitação - não fosse mais o único rosto da comunidade. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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