Dado Galdieri/The New York Times
Dado Galdieri/The New York Times

Jogadora trans faz história no vôlei brasileiro

Tiffany Abreu é a primeira atleta transgênero a chegar a uma grande equipe de voleibol no Brasil

Shasta Darlington, The New York Times

22 Março 2018 | 15h00

SÃO CAETANO DO SUL - Recentemente, quando Tifanny Abreu bateu a bola por cima da rede, o rabo de cavalo esvoaçando, a maioria dos espectadores murmurou: “Mais um ponto para os visitantes”, mas nem todos torciam contra ela.

Mesmo quando Tifanny viaja com o time para jogar no exterior, frequentemente seus fãs a aplaudem. Este jogo, disputado a mais de 320 quilômetros da sede da equipe, não foi exceção. Os fãs usaram uma camiseta cor de rosa e seguravam balões para festejar uma mulher que, atualmente, é uma das atletas mais comentadas e controversas do Brasil.

Tifanny Abreu, uma das jogadora da Superliga feminina profissional brasileira é transgênero, o que a torna uma figura polarizadora. Para os fãs, ela é uma inspiração.

“Não fosse por Tifanny, não poderíamos sequer estar aqui”, disse a jovem trans Júlia Bueno, que assistia ao jogo em que a equipe de Tifanny, o Vôlei Bauru, competia este mês contra o clube da casa em São Caetano do Sul. “Os jogos esportivos, em geral, não são lugares confortáveis para as pessoas trans”, acrescentou. “Ela está fazendo tanto por nós, que queremos fazer alguma coisa por ela também”.

Depois do futebol, o vôlei é o esporte mais popular do Brasil, e Tifanny, 33, é a primeira jogadora de vôlei trans a chegar aos maiores times do País. Se ela se qualificar para as Olimpíadas de Tóquio, em 2020 - o que os especialistas consideram muito provável -, estará fazendo história como uma das primeiras atletas trans a participar dos Jogos. 

Acredita-se que as Olimpíadas de 2020 serão as primeiras em que atletas abertamente transgênero competirão, embora as diretrizes que estabelecem a qualificação com base nos níveis de hormônios estejam em vigor desde o início de 2016. O Brasil é uma potência no vôlei, e a seleção feminina ganhou duas vezes o ouro olímpico, em 2008 e em 2012.

“Eu gostaria de ir às Olimpíadas”, disse Tifanny, que tem 1,9 metro de altura. “Mas sei que isso não acontecerá porque estou chamando muito a atenção”.

Tifanny diz que tenta limitar sua exposição na mídia desde que seu sucesso deu origem ao debate sobre a possibilidade de as transições do sexo masculino para o feminino conferirem às atletas uma vantagem injusta. Depois de ingressar na liga profissional feminina no ano passado, a atuação da atleta na quadra recebeu imediatamente as atenções de todo o País. Em menos de um mês, ela marcou em média o maior número de pontos por jogo. E em janeiro, ela bateu o recorde estabelecido por uma das estrelas olímpicas brasileiras, Tandara Caixeta, pelo total de pontos marcados em um único jogo: 39 (recorde que Tandara depois alcançou).

Tandara contribuiu para alimentar o debate sobre as possíveis vantagens das atletas trans. “Eu a respeito e respeito a sua história”, disse Tandara depois que seu recorde foi quebrado. “Mas não concordo com sua participação na Superliga feminina. É uma questão muito delicada e não é homofobia. É uma questão psicológica”.

Tifanny, que joga no ataque, começou aos 17 anos e conseguiu chegar às ligas profissionais masculinas da Europa. Perto do final da sua temporada na Europa, adotou o nome de Tifanny.

Antes de voltar ao Brasil, ela se submeteu a uma cirurgia para a mudança de sexo e iniciou o tratamento de substituição hormonal. Quando sua transição começou, o debate nos esportes mundiais sobre atletas como ela estava mudando a seu favor.

Em 2016, o Comitê Olímpico Internacional permitiu que homens e mulheres trans se submetessem à cirurgia de mudança de sexo.

Os atletas trans que passaram do gênero masculino para o feminino são obrigados a reduzir a testosterona em seu sangue para menos de 10 nanomols por litro (nmol/L). Os valores típicos para as mulheres são 0.5 a 3.0 nmol/L. Tifanny baixou os seus níveis para 0.2 nmol/L.

Para Hairton Cabral, treinador de uma equipe rival de São Caetano do Sul, a solução está no aprofundamento dos estudos. “Para os treinadores, isso não importa, desde que seja legal - nos só queremos os melhores jogadores. Mas a questão toda é muito politizada, e a única coisa que pode acabar com isso são os fatos”.

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