Jessica Taylor/Agence France-Presse-Getty Images
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Ellen Barry, The New York Times

24 de janeiro de 2019 | 06h00
Atualizado 09 de setembro de 2019 | 16h28

LONDRES - No deplorável purgatório que se tornou o Parlamento britânico ao longo do recente debate e votação sobre a saída da União Europeia, havia uma pessoa que parecia estar se divertindo. Da cadeira do presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow olhava e berrava: “Ordem! Ordem!’ com voz imutável.

O mundo exterior raramente presta muita atenção ao presidente da Câmara dos Comuns, uma figura tipicamente discreta e apartidária que preside os debates no Parlamento. Mas a paralisia do Reino Unido na questão da saída da União Europeia, o famoso Brexit, tornou Bercow uma espécie de celebridade. Ele rompeu com os precedentes: conseguiu, com esforço, algum controle na tomada de decisão sobre o Brexit monopolizada pela então primeira-ministra Theresa May, permitindo que o Parlamento procurasse impedir que o país saísse da UE sem um acordo.

Assim, ganhou a admiração dos europeus - uma emissora francesa de rádio chamou-o de “Europeu da semana”. Clipes dos seus gritos “Ordem! Ordem!” viralizaram nas redes sociais. Mas enfureceu a equipe de May, que ameaçou bloquear o ingresso de Bercow na Câmara dos Lordes - honra concedida a todo presidente há mais de 200 anos.

Filho de um taxista de Londres, Bercow, de 56 anos, é um outsider às vezes ridicularizado por sua estatura (menos de 1,70 metro). Graças à sua determinação, ele se projetou nas camadas superiores da sociedade britânica, dos chamados Oxbridge, por sua educação privilegiada, e é considerado tanto um grosseirão quanto um defensor dos direitos do Parlamento. Em 2009, ele se tornou presidente da Câmara dos Comuns - o primeiro parlamentar judeu a ocupar o posto.

Essas qualidades pessoais apareceram nesses momentos decisivos quando o Reino Unido caminha para a saída no dia 29 de março com o governo em um impasse. “Bercow tem a lei dentro dele”, disse Bobby Friedman, o seu biógrafo, lembrando a decisão do presidente, no dia 9 de janeiro, de permitir a emenda de uma moção executiva, que normalmente concede ao Poder Executivo a possibilidade de estabelecer o que acontece no Parlamento e quando.

“Se qualquer outra pessoa fosse presidente, seria uma coisa incrivelmente surpreendente”, afirmou Friedman. “No caso dele, nem tanto”. Mesmo no ambiente verborrágico da política britânica, Bercow se destaca por sua predileção pela linguagem rebuscada e pelos insultos mordazes. “É como se ele fosse para a cama, todas as noites, lesse um dicionário, o digerisse e o cuspisse no dia seguinte”, disse um parlamentar ao New York Times, em 2013.

Foi acusado de tratar mal a sua equipe, o que ele nega. Um inquérito do fim do ano passado sugeriu que ele deveria deixar o cargo. Bercow assinalou que sairá este ano. Mas nada se assemelhou à fúria que se seguiu à sua decisão de permitir que os parlamentares emendassem uma moção executiva.

O presidente britânico deve se manter neutro em matéria de política. Crispin Blunt, um legislador conservador, protestou que Beacow não poderá mais declarar-se neutro na questão do Brexit e deveria renunciar. Bercow insistiu que não estava tomando partido. Disse que estava defendendo o direito do Parlamento de contestar um Executivo brigão.

“Eu compreendo a importância do precedente, mas o precedente não vincula absolutamente, por uma razão muito simples”, afirmou. “Se nós nos pautássemos somente pelo precedente, evidentemente os nossos procedimentos jamais poderiam mudar. Ocorre que as coisas mudam”.

Anna Schaverien contribuiu para a reportagem.

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