Chantal Anderson/The New York Times
Chantal Anderson/The New York Times

John Williams, o maestro de Hollywood, olha além dos filmes

O compositor de 'Star Wars' e 'Tubarão', que completou 90 anos, diz que em breve se afastará do cinema, mas ele não tem intenção de desacelerar

Javier C. Hernández, The New York Times - Life/Style

02 de março de 2022 | 05h00

UNIVERSAL CITY, Califórnia - No início da pandemia de coronavírus, quando a produção cinematográfica parou e os estúdios de gravação fecharam, John Williams, o célebre compositor e maestro de Hollywood, se viu, pela primeira vez em sua carreira de quase sete décadas, sem um filme com que se preocupar.

Isso, no mundo altamente ritualizado de Williams - manhãs passadas estudando bobinas de filme e improvisando em seu Steinway; um sanduíche de peru e um copo de Perrier às 13h; tardes dedicadas a revisões - foi inicialmente desorientador.

Mas nos meses que se seguiram, Williams passou a saborear sua liberdade. Ele teve tempo para compor um concerto para violino, mergulhar em partituras de Mozart, Beethoven e Brahms e fazer longas caminhadas em um campo de golfe perto de sua casa em Los Angeles.

“Eu acolhi o que veio”, disse Williams. “Foi uma fuga.”

Agora a indústria cinematográfica está de volta à ação, e Williams, que completou 90, está mais uma vez ao piano produzindo músicas que ficam em nossas cabeças - lápis, papel e cronômetro na mão.

Mas Williams, cuja música permeia a cultura popular em um grau insuperável por qualquer outro compositor contemporâneo, está em uma encruzilhada. Cansado das restrições do cinema - os prazos, a necessidade de brevidade, a competição com efeitos sonoros sempre retumbantes, o trabalho consumindo meio ano - ele disse que em breve se afastará dos projetos cinematográficos.

“Eu particularmente não quero mais fazer filmes”, ele disse. “Seis meses de vida na minha idade é muito tempo.”

Na sua próxima fase, pretende focar-se mais intensamente numa outra paixão: escrever obras para concertos, das quais já produziu várias dezenas. Ele tem ideias de outra peça para um colaborador de longa data, o violoncelista Yo Yo Ma, e está planejando seu primeiro concerto para piano.

“Estou muito mais feliz, como estive durante esse período de covid-19, trabalhando com um artista e tornando a música o melhor que você pode fazer em suas mãos”, ele disse.

No entanto, o legado de suas mais de 100 trilhas sonoras de filmes - as franquias Star Wars, Tubarão e Harry Potter entre elas - é grande, para não falar de suas fanfarras, temas e hinos comemorativos para programas como Meet the Press da NBC, Sunday Night Football, as Olimpíadas e o centenário da Estátua da Liberdade.

“Ele compôs a trilha sonora de nossas vidas”, disse o maestro Gustavo Dudamel, um amigo. “Quando ouvimos uma melodia de John, voltamos a um tempo, a um gosto, a um cheiro. Todos os nossos sentidos voltam a um momento.”

A música de Williams remonta a uma era de sucessos de bilheteria de Hollywood, quando multidões se reuniam nos cinemas para serem transportadas. Ele se destacou em criar experiências compartilhadas: incutir em cada membro de uma audiência o mesmo terror sobre um tubarão ameaçador, conjurando uma alegria comum ao ver naves espaciais levantarem voo.

A pandemia roubou de Hollywood um pouco dessa magia. Mas os admiradores de Williams dizem que sua música, com seu apelo entre culturas e gerações, é um antídoto para o isolamento do momento.

“Precisamos dele mais agora do que nunca”, disse Hans Zimmer, outro célebre compositor de trilhas para filmes.

Williams - uma referência na indústria desde a década de 1950, com 52 indicações ao Oscar, perdendo apenas para Walt Disney, e cinco Oscars - reconhece que pode ser o último de um certo tipo de compositor de Hollywood. Partituras sinfônicas grandiosas e complexas, enraizadas no romantismo europeu, são cada vez mais raras. Em muitos estúdios de cinema, a música sintetizada está na moda.

“Sinto que estou sentado no limite de alguma coisa”, ele disse, “e a mudança está acontecendo”.

Nascido em Nova York, Williams se interessou por compor ainda adolescente, fascinado pelas partituras sinfônicas e livros trazidos para casa por seu pai, um percussionista de jazz.

Após períodos como pianista de estúdio em Hollywood aos 20 anos, ele encontrou trabalho como compositor de cinema e televisão, estreando no cinema aos 26, em 1958, com Daddy-O, uma comédia sobre corridas de rua.

Na década de 1970, o trabalho de Williams chamou a atenção de Steven Spielberg, então um aspirante a cineasta em busca de alguém que pudesse escrever como uma geração anterior de compositores de Hollywood: Max Steiner, Dimitri Tiomkin, Erich Wolfgang Korngold, Bernard Herrmann.

“Ele sabia como escrever uma música e sabia como apoiá-la com arranjos atraentes e complexos”, disse Spielberg. “Eu não ouvia nada do tipo desde os grandes nomes.”

Os dois iniciaram uma parceria que já dura meio século e mais de duas dúzias de filmes, incluindo Contatos Imediatos do Terceiro Grau, A Lista de Schindler e Tubarão, para os quais o ostinato de duas notas de Williams se tornou um fenômeno cultural.

“Quando todos saíram e disseram que Tubarão os assustou para fora da água, foi Johnny quem os assustou para fora da água”, disse Spielberg. “Sua música era mais assustadora do que ver o tubarão.”

Em 1974, aos 42 anos, Williams sofreu o que chamou de “a tragédia da minha vida” quando sua primeira esposa, a atriz Barbara Ruick, morreu repentinamente.

“Isso me ensinou quem eu era e o significado do meu trabalho”, ele disse, mas acrescentou que os próximos anos foram difíceis, e ele lutou como pai solteiro de três filhos com uma carreira ocupada. Star Wars, que estreou em 1977, trouxe um novo patamar de fama e marcou o início de um projeto de quatro décadas que incluiu nove filmes, dezenas de temas musicais e mais de 20 horas de música.

George Lucas, o criador de Star Wars, disse que Williams era o “molho secreto” da franquia. Embora os dois às vezes discordassem, ele disse que Williams não hesitou em experimentar novos materiais, inclusive quando Lucas inicialmente rejeitou sua partitura de uma cena bem conhecida em que Luke Skywalker contempla um pôr do sol no deserto.

“Você normalmente tem, com um compositor, egos gigantes querendo discutir sobre tudo, e ‘quero que seja minha partitura, não sua partitura'”, disse Lucas. “Nada disso existia com John.”

Este ano, ele completará o que espera serem seus dois últimos filmes: Os Fabelmans, vagamente baseado na infância de Spielberg, e um quinto filme da série Indiana Jones.

No final de sua carreira no cinema, Williams está arrumando tempo para perseguir alguns sonhos de longa data, incluindo ser maestro na Europa. Suas obras já foram consideradas comerciais demais para algumas das grandes salas de concerto. Mas quando ele estreou com a Filarmônica de Viena em 2020, os músicos pediram fotos e autógrafos.

Williams disse que tenta não se fixar na idade, mesmo quando centenas de conjuntos ao redor do mundo - no Japão, Austrália, Itália e outros lugares - realizam concertos para celebrar seu aniversário. E ele disse que não teme a morte; ele vê a vida como um sonho, no final do qual despertamos.

“A música tem sido meu oxigênio”, ele disse, “e me manteve vivo, interessado, ocupado e satisfeito”.

Williams relembrou uma recente peregrinação à Igreja de São Tomás em Leipzig, Alemanha, onde Bach já trabalhou como cantor. Ele ouviu atentamente como um pastor descreveu os esforços para proteger os restos mortais do grande compositor durante a Segunda Guerra Mundial; ele se maravilhou com a dedicação em preservar o legado de Bach.

Ao sair da igreja, ele fez uma pausa. Um organista estava enchendo o grande espaço com o tema de Parque dos Dinossauros.

Williams, radiante, virou-se para o pastor.

“Agora”, ele disse, “eu posso morrer”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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