Kelsey McClellan/The New York Times
Kelsey McClellan/The New York Times

‘As pessoas querem joias com significado’: Como o leite materno se tornou uma joia

As mães estão imortalizando suas experiências de amamentação com pedras feitas com o líquido

Emma Grillo, The New York Times - Life/Style

19 de janeiro de 2022 | 05h00

Alma Partida sabia que sua jornada de amamentação estava chegando ao fim em junho. Ela havia amamentado sua filha, Alessa, por quase 18 meses - mais do que a maioria das mães nos Estados Unidos faz - e o processo não foi fácil.

Primeiro foi o nascimento de Alessa, por uma cesariana de emergência, em fevereiro de 2020. No hospital após a cirurgia, Partida lutou para amamentar. Depois que ela e a filha receberam alta, amamentar ainda era um desafio.

“Foi uma jornada realmente longa”, disse Partida, uma fonoaudióloga de 29 anos de Watsonville, Califórnia.

Agora que estava terminando, ela queria encontrar uma maneira de comemorar a data.

Enquanto percorria as postagens de um grupo de pais no Facebook, Partida encontrou uma recordação incomum, mas adequada: um pingente contendo uma pedra branca. O ingrediente principal? Leite materno.

Ela sabia que precisava de um.

Essa pode ser a primeira vez que você ouve falar de joias de leite materno, um nicho do mercado comemorativo. Mas há muitos precedentes para berloques e outros itens que contenham matéria orgânica. Brincos e broches feitos de cabelo humano eram populares durante a era vitoriana. Mais recentemente, os diamantes sintéticos foram fabricados a partir de cinzas da cremação. Também é comum que os pais guardem o cordão umbilical e os dentes de leite de seus filhos.

Para sua própria peça, Partida despachou cerca de 10 mililitros de leite materno para uma empresa chamada Keepsakes by Grace. Cerca de um mês depois, ela recebeu pelo correio um pingente branco como leite em forma de coração.

“É a última gota”, disse Partida. “É a última coisa que você tem para se lembrar da jornada.”

Freda Rosenfeld, uma consultora de lactação na cidade de Nova York, disse que entende o impulso de imortalizar a experiência.

“Para muitas pessoas, a amamentação é um momento extremamente especial e importante em suas vidas”, disse Rosenfeld. “Muitas vezes, quando os bebês desmamam, é um pouco triste, por ter sido uma fase tão especial.”

Sarah Castillo, proprietária da Keepsakes by Grace, disse que suas clientes costumam comprar peças dela depois de terem tido dificuldades para amamentar.

“Muitos dos meus pedidos vêm de clientes que estão passando por um período difícil ou que estão no processo de desmamar e ainda não estão prontas”, disse Castillo, 25, que mora em Tucson, Arizona. "Muita coisa vem disso, quase como um desejo de continuar, mas ou elas não podem ou decidiram que é hora de parar."

Castillo começou sua linha em março, depois de ver produtos semelhantes no Instagram. Ela fez experiências com seu próprio leite materno por meses, finalmente chegando a um método que envolve desidratar a solução para fazer um pó e, em seguida, misturar o pó com resina para fazer uma pedra. Suas peças normalmente custam de US $60 a US $150.

“As joias já são algo muito sentimentais”, disse Castillo, mas, no caso das joias feitas de leite materno, “estão literalmente guardando uma memória”.

Ann Marie Sharoupim, fundadora do Mamma’s Liquid Love, disse que suas clientes têm motivações semelhantes quando compram suas joias de leite materno. Sharoupim, 34, que tem doutorado em farmácia e mora em Rutherford, Nova Jersey, vende brincos, colares, pulseiras e anéis com pedras de leite materno. Eles custam de $90 a $1.500. Este ano, ela disse, vendeu quase 4.000 peças.

“As pessoas querem joias com significado agora”, disse Sharoupim.

Ela recomenda que os compradores tratem suas joias como uma pérola, tomando cuidado para mantê-las secas e limitando sua exposição a produtos químicos. Depois que um cliente faz um pedido em seu site, Sharoupim envia instruções sobre a melhor forma de enviar cerca de 15 ml de seu leite materno para a empresa.

Para alguns pais, as joias feitas de leite materno também podem ser uma forma de lidar com a perda.

Rebecca Zuick, 31, estudante de desenvolvimento de software em San Antonio, comprou um anel com uma pedra feito de seu leite materno em fevereiro de 2017, tanto como forma de celebrar o fim da amamentação de seu filho, Asher, quanto para lidar com a experiência de ter tido um bebê natimorto em julho de 2015.

“Para mim, buscar joias feitas de leite materno foi uma forma de me agarrar à memória e ao legado da criança que eu não pude amamentar, porque aquele era o leite que ele teria tomado se tivesse sobrevivido ”, disse Zuick.

A Academia Americana de Pediatria e a Organização Mundial da Saúde recomendam que os bebês sejam amamentados nos primeiros seis meses de vida. No entanto, para muitas mães, isso é insustentável por causa do trabalho; os Estados Unidos são um dos poucos países sem licença-maternidade nacional paga.

Jacqueline Wolf, professora de História da Medicina da Universidade de Ohio e autora de um livro de 2001 sobre o declínio da amamentação no final do século XIX e início do século XX, observou que, na maior parte, as mães que são capazes de amamentar nesses primeiros meses são aquelas com licença-maternidade paga ou com horários de trabalho flexíveis.

“A maioria das mulheres não tem empregos assim”, disse Wolf. “Acho que essa joia também é um pouco simbólica dessa injustiça.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
amamentaçãobebê

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.