Edu Bayer para The New York Times
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Joias escondidas da arquitetura decoram a Broadway

Além do glamour de uma das vias mais famosas do mundo, há trilhas indígenas e lugares históricos

Sam Roberts, The New York Times

29 de junho de 2018 | 15h45

Estou pouco depois da West 240th Street, diante de uma máquina do tempo capaz de me transportar para um passado em que a maior parte de Manhattan ao norte de Canal Street era composta de prados acidentados, pomares e campos de cultivo. A Fazenda e Museu Dyckman é a mais antiga fazenda remanescente no bairro, feita de pedras encontradas na região, tijolos e madeira, e foi construída mais ou menos em 1783 - um ponto mágico no trecho mais inexplorado do norte da Broadway.

A Broadway é possivelmente a via mais famosa do mundo (para se ter um grau de comparação, apresenta 250 milhões de resultados na busca do Google, contra 6 milhões da Champs-Élysées). Mas a cidade que nunca para de reciclar a si mesma exige discernimento dos transeuntes interessados em descobrir alguns marcos originais, que sobreviveram ao longo dos 21 quilômetros da avenida que atravessa Manhattan.

A maior parte dos guias começa com o Battery Park (batizado com este nome desde o século 17, quando a artilharia se postava na área para proteger os colonos de tropas invasoras) e se concentra em locais como Bowling Green, Trinity Church, St. Paul’s Chapel, Flatiron Building e Shubert Alley, em Times Square.

Mas, um dia, Fran Leadon, um professor de arquitetura da City College de Nova York, foi guia de uma excursão a pé com duas pessoas aos quarteirões menos visitados, no trecho final, começando pouco antes de a Broadway convergir na Riverside Drive e na Dyckman Street. Sua missão era descobrir alguns tesouros históricos, lugares frequentemente ignorados.

Nosso passeio pelos quilômetros mais ao norte incluiu o que já foi o enclave de Gilded Age, em Inwood, onde a Broadway é margeada por idiossincráticos lugares históricos eclipsados pelo frenesi da via.

A primeira anomalia é a Fazenda e Museu Dyckman, que é aberta ao público. A casa colonial em estilo flamengo encara dois edifícios do outro lado da rua. Um, incongruentemente, é um posto de combustíveis. O outro, relativamente recém-chegado ao gentrificado bairro, seria considerado bastante adequado pelos Dyckmans: um bar ao ar livre.

Mais ao norte, em um local que agora abriga um armazém, é onde a família Benedetto administrou a última fazenda produtiva em Manhattan, até meados dos anos 50.

No lado oeste da Broadway, começando pela 212th Street, fica o Isham Park, que já abrigou uma mansão ao estilo italiano, pertencente ao comerciante de couro William B. Isham, em um promontório com vistas amplas para os Rios Hudson e Harlem.

Se olharmos de perto, na calçada de uma oficina de carros entre as ruas 215th e 218th, vemos uma degradada réplica em mármore do Arco do Triunfo de Paris. A relíquia grafitada, que data de 1855, era o portão de uma casa de veraneio (que hoje abriga prédios de apartamentos) localizada em uma propriedade de 25 acres, pertencente a John F. Seaman e sua mulher, que descende de Sir Francis Drake.

Também próxima à 215th Street há a majestosa escadaria de 110 degraus que evoca a Rue Foyatier, em Montmartre. Os degraus ligam a Broadway ao Terrance East Park e ao Inwood Hill Park (e, supostamente, é o local da lendária negociação que resultou na compra de Manhattan por US$ 24, pagos aos indígenas).

O parque, 60 metros acima do Hudson, abriga a maior floresta remanescente em Manhattan, onde cavernas comprovam as mais ancestrais ocupações de Nova York, dos tempos pré-colombianos aos acampamentos sazonais dos povos lenape, até o fim do século 17.

Muitos dos marcos mais conhecidos da Broadway se concentram no sul de Manhattan, onde os holandeses estabeleceram Nova Amsterdã quatro séculos atrás. A Broadway (originalmente Heere Straat, ou High Street, depois Brede Wegh, ou Broad Way) ganhou esse nome porque começava nas expansivas muralhas do Forte Amsterdã, construído sobre uma colina que baixava até o Bowling Green, o mais antigo parque de Manhattan.

O pequeno gramado era delimitado por uma cerca de ferro fundido - ainda de pé - para evitar que vândalos profanassem a estátua do rei George III sobre um cavalo, derrubada em 1776.

"Certamente, a primeira metade da Broadway foi o motor econômico da cidade, enquanto ela se desenvolvia", afirmou Leadon. “É também a espinha dorsal da cidade, aquilo que a une e a divide" - na ponta sul, o mais pretensioso "dollar side”, no oeste, de propriedades mais caras, opondo-se ao mais humilde "shilling side”, de propriedades humildes, do início do século 19; e, mais recentemente, em Washington Heights, com os judeus no oeste e os dominicanos no leste.

A Broadway é repleta de joias da arquitetura, como antigos prédios de apartamentos, muitos deles poupados do impiedoso ciclo de reconstrução de Nova York.

Essas estruturas majestosas foram construídas na primeira onda de desenvolvimento, impulsionada pelo metrô, avançando sobre antigos terrenos baldios.

"Muitos prédios da Broadway são os únicos que já estiveram lá", afirmou o professor Leandon.

Mais ao norte de Manhattan, a Broadway se formou aos poucos a partir do que historiadores qualificaram como uma trilha do povo indígena Wickquasgeck, que serpenteava Manhattan e foi denominada, anteriormente, Bloomingdale Road e Kingsbridge Road. A Granja Hamilton, propriedade de 32 acres de Alexander Hamilton em 1802, ao leste da Broadway, sobrevive desde aquele tempo. 

A Broadway sempre foi mais um estado de espírito do que um espaço físico, desafiando a rígida rede viária de Manhattan por dois séculos, enquanto avançava em direção ao norte. E hoje desafia seu próprio nome, que em inglês significa "via ampla", em trechos que estão sendo estreitados para acomodar calçadões.

O jornalista Junius Henry Browne escreveu em 1868: "A Broadway é uma Nova York mais intensa - o reflexo da república -, apressada, febril, lotada de gente, em transformação constante." 

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